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Camille Paglia: Os anos 1960 foram um momento mágico

Foto: Wally Gobetz | Arte: Eduardo Kobra
Foto: Wally Gobetz | Arte: Eduardo Kobra

Além de suas contribuições para o campo da filosofia, em especial para o que se tornou conhecido como pós-feminismo, Camille Paglia é uma especialista em estudos culturais e leciona cadeiras relacionadas à música, como por exemplo o curso “A arte das letras de música”, na qual debate o aspecto cultural e filosófico de letras de artistas de diversos estilos.

A filósofa, em seus artigos, já citou diversos nomes da música, de Bob Dylan (que muitos anos antes do reconhecimento do prêmio Nobel já era assunto nas aulas da filósofa) à Adele, passando por David Bowie e Madonna. Sobre Adele, por exemplo, Paglia diz: “Abençoo a Adele pelo exemplo que ela dá para novos artistas de qualquer campo [...] Com sua dignidade feminina [...] Adele definiu um novo padrão para jovens artistas ao humildemente retornar à riqueza do passado”.

Na entrevista a seguir, ela responde perguntas relacionadas à indústria da música, que artistas admira, e como não acreditou quando David Bowie tentou entrar em contato.

Camille Paglia é conferencista da série especial do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador. Adquira já seu ingresso.

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Você escreveu sobre os Rolling Stones, mas se você observar a carreira deles, que lançaram um álbum novo em 2016, o que você acha deles estarem ainda na ativa?

CP: Há anos não acompanho a carreira deles. Para mim, os Rolling Stones foram uma revolução quando começaram, naquele período em que a música dos Beatles era toda otimista. Então, apareceram esses caras brincando, cuspindo, e assim por diante.

 

Mas os Beatles eram obscuros e sutis também, não?

CP: Não como os Stones. A diferença é que os Stones se inspiram, se alimentam, até hoje, na tradição do blues. Os Beatles eram quase um musical da Broadway.

 

Como em musicais britânicos?

CP: Sim, musicais britânicos, compositores do Tin Pan Alley e assim por diante. Eles eram grandes compositores, mas não há nada de obscuro neles. Em outras palavras, Paul McCartney é um grande baixista, mas você não ouve ele fazendo o som alto e barulhento do baixo do Bill Wyman no início da carreira dos Stones.

Eu realmente não tenho acompanhado os Stones. Desde que Wyman deixou a banda, não acho que são a mesma banda que conheci. Fico feliz que eles continuam, que fazem shows, etc., Mas não tenho interesse em me sujeitar ao desconforto de shows em grandes arenas. Nossa, são apenas shows de luz e coisas assim. Não são experiências musicais. Shows são experiências sociais agora.

 

Falando em rock clássico, que artistas você ainda escuta e descobre coisas novas até hoje?

Jimi Hendrix é um dos maiores gênios musicais – em qualquer instrumento – do último século. Obviamente, sua música durou e ainda soa nova. Durante meu curso A arte das letras musicais eu ensino a respeito desse período. Recentemente falamos em aula sobre Wooden Ships, do Crosby, Stills, Nash & Young, que ainda possui um incrível poder.

Eu amo a música da década de 1960. Foi um momento mágico. Ainda, nos anos 1970, canções como When the Levee Breaks, do Led Zeppelin até hoje mantém um incrível poder. Muito da música que Jimi Page fazia era feito no estúdio, não era apenas música ao vivo.

  

Mas que artista de hoje em dia que estaria no nível dos gigantes do passado?

CP: Eu tinha muita esperança na Rihanna por um tempo. Infelizmente, ela não está mais trabalhando com os melhores produtores. Seu novo álbum é uma atrocidade. É realmente ruim. Fico triste, pois existem muitos artistas cujos talentos não estão sendo bem trabalhados.

Isso porque nossa indústria musical procura fórmulas prontas. Os jovens não têm mais tempo para aprender a tocar e desenvolver suas habilidades. Não tem nada para inspirar da maneira que os músicos da minha geração tiveram na música folk.

 

Você está soando como uma conservadora cultural.

CP: Só estou dizendo que há certos momentos, certos momentos mágicos, de fertilidade ou criatividade que aconteceram em muitas áreas das artes. Você pode achar certos momentos-chave onde ocorreu uma confluência de influências e uma certa riqueza. Naquele exato momento, foi uma grande época para se estar vivo, para ser jovem.

Por exemplo, Shakespeare não seria Shakespeare se estivesse vivo hoje. Aconteceu que ele saiu de Stratford – por alguma razão – e se mudou para Londres em um momento mágico quando o teatro estava florescendo, o que aconteceu apenas por algumas décadas, e depois parou novamente. Há um aspecto de sorte nisso. Se você é a pessoa certa na hora certa no caso de algum desses gêneros artísticos.

 

Quando David Bowie faleceu, você mencionou que ele havia tentado contatar você e queria te conhecer, e você falou que não tem certeza que ia querer isso, pois acha que deve manter uma distância respeitosa de um artista de tamanha estatura. Como manter essa distância e não sufocar criatividade com respeito por quem essa pessoa é e sua privacidade?

CP: Pessoalmente nunca tive esse grande desejo de conhecer as figuras que mais admiro nas artes, pois entendo que o que elas representam no palco é uma construção artificial. Não é a realidade.

Em relação à David Bowie, escrevi um ensaio chamado “O teatro do gênero: David Bowie no ápice da Revolução Sexual” para o catálogo da exposição “David Bowie é” do Museu Victoria & Albert em Londres (e depois foi exposta no Museu da Imagem e do Som – MIS em São Paulo), e considero esse um dos meus mais importantes textos. [...] Bowie era realmente um mestre criador em um nível que é simplesmente surpreendente.

Quando fiz a pesquisa para o ensaio, me impressionei novamente com a grandeza que ele atingiu, pelo quão pouco ele foi reconhecido, seu profundo conhecimento em artes visuais e como isso influenciou ele. Descobri toda a sorte de pequenos detalhes que mostravam esse conhecimento profundo e sua erudição neste campo.

Aparentemente foi ele quem pediu ao museu que me convidasse. Na época, as pessoas não sabiam. O que você está falando foi quando – era no início da década de 1990 e eu recebi uma mensagem do meu editor dizendo, “David Bowie quer seu número de telefone” e eu caí na risada.

Eu disse, “Isso é ridículo, deve ser algum fã tentando conseguir meu número”. Eles disseram, “David Bowie realmente quer seu telefone”. E eu respondi “Não deve ser assim que David Bowie entra em contato quando quer o telefone de alguém” Eu ri e não acreditei. Era tudo muito obscuro.

Apenas agora, depois de pesquisar para o ensaio, que eu descobri que o motivo pelo qual aquilo foi tão estranho era que ele havia demitido toda a sua equipe. Ele demitiu seus empresários. Ele demitiu sua gravadora, e parou de lidar com gravadoras depois de sua fase em Berlim, e apenas lidava com o mundo por meio de seus amigos. Por isso aquilo tinha sido tão estranho. Eu tinha cometido um erro.

O que ele queria era usar um trecho de “Personas Sexuais” em uma de suas letras. Hoje acho essa história muito embaraçosa, mas tudo bem. Creio que deve haver uma distância, ou um senso de respeito e uma certa reserva, no caso de grandes artistas.