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Camille Paglia: Trump, o Partido Democrata, transgêneros e terrorismo islâmico.

Crédito: Greg Salibian
Crédito: Greg Salibian

Analisando a conjuntura das últimas eleições norte-americanas, a filósofa e crítica cultural Camille Paglia acusa a irresponsabilidade do sistema eleitoral de seu país em uma época como a nossa. Para ela, a sobreposição dos interesses privados em detrimento dos públicos é refletida na esfera política, através da ação da grande mídia. A intelectual criticou, também, a escolha de um candidato autoconfiante porém despreparado como Donald Trump no lugar de um político experiente mas não carismático como Rubio. Em entrevista para Jonathan V. Last, a conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento apontou o que considera ser uma falta de coerência da esquerda nos Estados Unidos e no mundo como um todo.

O liberalismo contemporâneo europeu, no entanto, não escapa das contestações de Paglia. Ela aponta a insuficiência das nações européias em lidar com o terrorismo islâmico que se levanta na contemporaneidade, e considera o politicamente correto como elemento desumanizador dos seres humanos, reduzindo indivíduos à identidade de seus grupos. Com uma inércia das políticas de esquerda, o resultado que a filósofa constata é a emergência de políticas de direita no hemisfério norte.

Na entrevista a seguir, a autora explica como o relativismo metodológico do pós-estruturalismo se reflete na criação do discurso do politicamente correto que, por sua vez, gera os maiores impasses da contemporaneidade nas discussões sobre cultura, política e sociedade.

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Donald Trump discutiu recentemente com Jim Comey, Bob Mueller, Sadiq Kahn, Emmanuel Macron, Angela Merkel, a OTAN – vamos parando a lista por aqui. Você foi uma em um pequeno número de pessoas que entenderam o apelo populista de Trump desde cedo. Analisando a Presidência dele até agora, você acredita que ele está mantendo tal apelo? O que ele está fazendo certo? O que ele está fazendo errado?

É necessário contextualizar. Primeiramente, devo deixar minha posição política bem clara. Sou membro do Partido Democrata e votei em Bernie Sanders nas primárias de 2016 e em Jill Stein nas eleições gerais. Desde o ano passado, estou de olho em Kamala Harris, a nova senadora da Califórnia, em quem espero votar nas próximas eleições primárias para presidente.

Como muitos outros, não levei a candidatura de Trump seriamente. Eu o chamei de recepcionista de circo em uma coluna e achei que sua entrada na política era apenas uma ação publicitária da qual ele logo se cansaria. Entretanto, Trump ganhou força rápido devido à apavorante incompetência e à mediocridade de seus oponentes dentro do Partido Republicano. O que parece esquecido é que todos, incluindo a campanha de Hillary Clinton, pensavam que Marco Rubio seria o candidato republicano. O momento era ideal para um candidato latino com apelo nacional que desafiaria o controle democrata na Flórida. 

Mas o fracasso de Rubio nas primárias foi vergonhoso. Na tela da TV ele se parecia com um adolescente fútil e agitado, completamente despreparado para ser o comandante-de-operações do país em uma era de terrorismo. A sincera autoconfiança arrogante de Trump amedrontou e esmagou Rubio – foi um completo fiasco. Ben Carson, enquanto isso, com seu pensamento profundamente profissional e seu fechar de olhos espiritualista, muitas vezes parecia estar enviando a si mesmo para outra galáxia. A cada debate, Ted Cruz, apesar de seus ávidos seguidores nacionais, acumulou mais e mais detratores, repelidos por suas performances dramáticas e sua lúgubre megalomania. 

Houve dois governadores do Meio-Oeste geniais e moderados que poderiam ter disputado uma indicação com Trump e se saíram bem contra Hillary nas gerais – John Kasich, de Ohio, e Scott Walker, de Wisconsin. Mas estragaram tudo devido a limitações pessoais: na TV, Kasich parecia um esquentadinho desastrado, enquanto Walker transformou-se em um camundongo nervoso e tímido, com um sorriso congelado parecido com o do ator de filmes infantis Pee-Wee Herman. 

O caso aqui é que Donald Trump venceu a indicação honestamente contra um grupo de oponentes sérios e experientes que simplesmente falharam em ganhar a simpatia dos membros do partido nas prévias. Entretanto, haviam muitas dúvidas quanto a Trump, que nunca teve um cargo eletivo e cuja turbulenta história de vida no obscuro mundo dos cassinos e concursos de beleza o deixaram vulnerável a várias acusações febris e insinuações de parte dos gnomos agitados da rica máquina de propaganda de Clinton. Na verdade, as acusações de sexismo sofridas por Trump foram relativamente poucas e pequenas, quando comparadas à extensa lista de acusações sexuais escabrosas que existem contra Bill Clinton. 

Continuo pensando que Hillary Clinton, com sua arrogante atitude ao estilo Maria Antonieta, foi uma candidata desastrosamente errada para 2016 e que ela só assegurou sua indicação através de manobras do Comitê Nacional Democrata, ajudada por uma mídia nacional corrupta que, por mais de um ano, impôs um blackout virtual em seus adversários em potencial para as primárias. Bernie Sanders tinha um apelo populista, uma proposta para a economia, experiência de governo e o carisma necessário para concorrer com Trump. Foi Sanders, por exemplo, que falou sobre a crise do débito estudantil, um assunto que outros candidatos (incluindo Hillary) depois adotaram. Apesar de um histórico de gafes embaraçosas, o afável John Biden, com sua fala mansa, em minha opinião, também teria derrotado Trump, mas ele foi impedido de concorrer literalmente no último instante pelo presidente Barack Obama, por razões que a grande mídia se recusou a explorar. 

Após a vitória de Trump (para a qual houve abundantes sinais em meses precedentes), tanto o Partido Democrata como a grande mídia precisaram realizar com urgência uma forte autoanálise, pois os resultados da eleição demonstraram claramente que Trump estava falando sobre preocupações vitais (incluindo empregos, imigração e terrorismo) para as quais os democratas tinham poucas soluções concretas. De fato, ao longo da campanha, muitos líderes democratas estavam mais preocupados com questões domésticas e agiam com estranho desinteresse nos assuntos internacionais. No eleitorado, os mais dedicados seguidores de Clinton (em especial, mulheres jovens e de meia-idade e celebridades aleatórias) pareciam obtusamente indiferentes em relação a sua fraca performance como secretária de Estado, durante a qual ela obstinadamente acumulou milhas aéreas para fazer virtualmente nada fora a desestabilização do norte da África. 

Caso Hillary vencesse, todos esperariam que os eleitores desapontados de Trump demonstrassem um módico respeito aos resultados das urnas e à histórica cerimônia de inauguração, durante a qual antigos adversários monumentalmente se unem para homenagear a pacífica transição de poder em nossa democracia. Mas essa não foi a reação de um vasto quadro de eleitores democratas chocados com a vitória de Trump. Em um abjeto fracasso de liderança que pode vir a ser um dos mais desgraçados episódios da história do Partido Democrata, Chuck Schumer, que se elegera líder democrata no Senado depois da aposentadoria de Harry Reid, exerceu zero autoridade moral quando o partido saiu de controle em uma orgia nacional de ódio e desrespeito. Também não houve avisos de cunho estadista para que houvesse cuidado e calma, vindos de parte de dois experientes políticos que eu admirei por décadas e que, creio, deveriam ter concorrido à Presidência há muito tempo – a senadora Dianne Feinstein e a congressista Nancy Pelosi. Como os democratas pensaram que poderiam ganhar votos seguindo esse caminho de autodestruição, acusando metade da nação de serem racistas e homofóbicos? 

Tudo isso nos leva à questão da performance de Trump até agora. De início, o enigma era se ele se transformaria do afiado e cáustico ex-apresentador de reality show que vimos na campanha em um presidente mais razoável. Talvez para a decepção de seus mais acirrados críticos, Trump fez de fato essa transição durante a cerimônia de posse, quando demonstrou seriedade e foco, claramente demonstrando estar levando a sério as incríveis responsabilidades do cargo. Quanto as suas ações como presidente, em particular, não concordo com suas ordens executivas, que usurpam as prerrogativas do Congresso e as quais eu já denunciava quando Obama estava constantemente as sancionando (sob pouco protesto, devemos dizer, da grande mídia). 

A ordem executiva de proibições de viagens de Trump, do final do primeiro mês de mandato, era obviamente confusa – encaminhada rápido demais e com uma pesquisa terrivelmente insuficiente (a respeito, por exemplo, dos detentores de green cards, que deveriam ter sido isentos desde o início). A administração é completamente responsável por atiçar o fogo de uma já nervosa “resistência”. Entretanto, não consigo enxergar o “caos” na Casa Branca que a grande mídia (assim como conservadores anti-Trump) segue falando a respeito – ao contrário, não vejo mais caos do que era já abundante durante o primeiro semestre das administrações de Clinton e Obama. Trump parece estar metodicamente cumprindo suas promessas de campanha, especialmente em relação à economia e à desregulamentação – as abordagens das quais sempre serão contestadas em nosso sistema bipartidário. Seu progresso tem, até agora, avançado e parado, em parte devido à passividade, e as vezes à petulância das fracas lideranças do Partido Republicano. 

Parece haver uma enorme distância conceitual entre Trump e seus mais implacáveis críticos de esquerda. Muitos democratas de classe alta, com excelentes formações, se consideram exemplos de “compaixão” (o que eles elevaram a um supremo princípio político) e, ainda assim, seguem acusando os eleitores de Trump de serem ignorantes e insensíveis fomentadores de ódio. Esses democratas de elite ocupam um metarreino amorfo de emoção subjetiva, abstrações teóricas e linguagem refinada. Mas Trump é, por profissão, um construtor que lida com o tangível, obstinado e objetivo mundo das coisas materiais, geometria e projetos de construção, onde a comunicação muitas vezes reverte ao nível brusco, grosseiro e de alto impacto da vida do trabalhador pré-moderno, cujo local diário de trabalho era o celeiro. Não é por acidente que os vitorianos burgueses da era industrial tentaram purgar a “linguagem de celeiro” do vocabulário. 

Semana passada, essa distância conceitual ficou muito nítida quando a mídia, consumida por suas absurdas fantasias sobre a Rússia, se fixou no depoimento sentimentalista do ex-diretor do FBI James Comey no Comitê de Inteligência do Senado (Comey é um charlatão incompetente que deveria ter sido demitido nas primeiras 48 horas do governo de ambos os candidatos de 2016). Enquanto isso, Trump seguia sua agenda. Na manhã seguinte, ele fez afirmações no Departamento de Transportes sobre “alívio regulamentar”, trechos das quais ouvi no rádio do carro naquela tarde. Suas palavras sobre ferro, alumínio e aço pareciam cortar como uma faca nas ondas de rádio. Mais tarde encontrei o texto inteiro no site da Casa Branca. Seguem algumas passagens-chave: 

“Estamos hoje aqui para nos focar em resolver um dos maiores obstáculos para criar essa nova e indispensável infraestrutura, e isso é um muito longo e dispendioso processo de assegurar permissões e aprovações para construir. Eu também vivia isso no setor privado. É um processo cansativo, longo, lerdo e desnecessário. Minha administração está comprometida em terminar com esses terríveis atrasos para sempre. O excruciante tempo de espera para as permissões causou uma enorme dor financeira para as cidades e estados em toda a nação e impediu muitos projetos importantes de saírem do papel.

Por muito tempo, os EUA desperdiçaram trilhões e trilhões de dólares em reconstruir países estrangeiros enquanto permitiam que nosso próprio país – o país que amamos – e sua infraestrutura caíssem em um estado de completa falta de manutenção. Temos pontes estruturalmente deficientes, estadas esburacadas, represas e barragens ruindo. Nossos rios estão com problemas. Nossas ferrovias, envelhecendo. E engarrafamentos crônicos atrasam o comércio e diminuem a qualidade de vida dos cidadãos. Fora isso, estamos indo muito bem; em vez de reconstruir nosso país, Washington gastou décadas construindo uma densa mata de regras, regulamentos e cerimônias. Demorou apenas quatro anos para construir a ponte Golden Gate, e menos de um ano para levantar o Empire State. As pessoas não acreditam. Demorou menos de um ano. Mas hoje, pode demorar dez anos ou mais apenas para conseguir-se as aprovações e permissões necessárias para realizar um grande projeto de infraestrutura.

Essas tabelas ao meu lado são uma versão simplificada de nosso processo de permissão para construção de autoestradas. Inclui 16 diferentes aprovações, envolvendo dez diferentes agências federais que são controladas por 26 estatutos diferentes. Como exemplo – e isso ocorreu faz apenas meia hora –, me reuni com um grande grupo de pessoas responsáveis pelo desenvolvimento e estradas de seus estados. Todos estão presentes aqui nesta sala agora. E um senhor de Maryland falava sobre uma estrada de 30km. E ele trouxe consigo algumas das permissões que eles receberam e pagaram. Eles gastaram 29 milhões de dólares em um relatório ambiental, pesando 30 quilos e custando 24 mil dólares a página... 

Não fui eleito para dar continuidade a um sistema fracassado. Fui eleito para mudá-lo. Todos no governo foram eleitos para resolver os problemas que atormentaram nossa nação. Estamos aqui para pensar grande, para agir com coragem, para superar as mesquinhas discussões partidárias de Washington. Estamos aqui para fazer as coisas acontecerem. Está na hora de recomeçar a construir nosso país, com trabalhadores, ferro, aço e alumínio estadunidenses. Está na hora de ter uma infraestrutura superior que inspire orgulho em nosso povo e em nossas cidades. 

Não iremos mais permitir que essas regras e esses regulamentos atem nossa economia, acorrentem nossa prosperidade, enfraqueçam nosso grande espírito nacional. É por essa razão que iremos retirar essas restrições e propiciar o completo potencial dos Estados Unidos da América. Iremos nos livrar da redundância e da repetição que desperdiçam o seu tempo e dinheiro. Nosso objetivo é dar uma única resposta – sim ou não – em todo o governo federal, e dar essa resposta rapidamente, seja para uma estrada, uma autoestrada, uma ponte ou uma represa. 

Para tanto, estamos organizando um novo conselho para ajudar os administradores a navegar no labirinto burocrático. Esse conselho também aumentará a transparência, criando um painel on-line que permita a todos facilmente pesquisar grandes projetos em todas as fases do processo de aprovação. Esse conselho irá se assegurar de que todas as agências federais que constantemente atrasam projetos por perder prazos enfrentem novas e duras penalidades. 

Juntos, iremos construir projetos e inspirar nossa juventude, empregar nossos trabalhadores e propiciar uma verdadeira prosperidade para nosso povo. Iremos derramar novo concreto, empilhar novos tijolos e ver novas fagulhas acenderem nossas fábricas enquanto forjamos metal das fornaças do nosso Cinturão Ferroso e nossa amada terra – que foi esquecida. Ela não está mais esquecida. 

Vamos colocar novo aço estadunidense na espinha dorsal de nosso país. Trabalhadores estadunidenses construirão brilhantes novas vias de comércio cruzando nossa paisagem. Eles construirão esses monumentos de um lado ao outro do país, de cidade em cidade. E com essas novas estradas, pontes, aeroportos e portos, iremos embarcar numa nova e maravilhosa jornada para um brilhante e glorioso futuro. Construiremos novamente. Cresceremos novamente. Prosperaremos novamente. E faremos os EUA grandes novamente." 

Claro que esse vibrante discurso (com o seu espírito “nós podemos” remetente à Segunda Guerra) recebeu parca cobertura na grande mídia. Afiados e confusos jornalistas de classe média, embriagados com palavras, não se preocupam em perceber as complexas construções físicas que tornaram a civilização moderna possível. Os trabalhadores que constroem e mantêm essas maravilhas são reconhecidos apenas quando é possível colocá-los no papel de vítimas. Mas se ousarem pensar por si mesmos e votar diferentemente de seus senhores liberais, são tachados de provincianos e párias. 

Em suma: para ter qualquer esperança de retomar a Casa Branca, os democratas precisam descer do salto, perder a retórica raivosa e se redirecionar para a realidade prática e o país livre no qual eles têm a grande sorte de viver. 

Outra notícia de impacto da semana passada foi o terrorismo no Reino Unido. Todos fazem o que podem para dizer que isso não é terrorismo “islâmico”, mas sim terrorismo “islamista” (ou “islamístico”?). O fato de o liberalismo ocidental se enrolar tanto na hora de falar de seus antagonistas significa alguma coisa? 

Você acertou em cheio na obsessão do liberalismo com a linguagem, na exclusão de um estudo amplo de história do mundo ou da sistemática observação de condições sociais atuais. O liberalismo dos anos 1950 e 1960 exaltava as liberdades civis, o individualismo e pensamentos e discursos dissidentes. “Questione a autoridade” era o lema da nossa geração quando eu estava na faculdade. Mas o liberalismo de hoje se tornou grotescamente mecanicista e autoritário: tudo se resume a reduzir os indivíduos a uma identidade de grupo, permanentemente definindo aquele grupo como vítimas, e negando a outros seus direitos de desafiar aquele grupo e aquela ideologia. O politicamente correto representa a institucionalização fossilizada de ideias revolucionárias que outrora foram vitais e agora se tornaram meras fórmulas de rotina. Ele é repressivamente stalinista, dependente de uma burocracia labiríntica e parasítica para exercer seus ditames vazios. 

A relutância ou a inabilidade dos liberais ocidentais em fracamente confrontar o jihadismo foi catastroficamente contraprodutiva, na medida em que inspirou uma contínua emergência de políticas de direita na Europa e nos EUA. Cidadãos têm todo o direito de exigir segurança básica de seus governos. As contorções que muitos liberais usam para evitar ligar atentados, massacres, perseguições e vandalismo cultural ao jihadismo islâmico é notável, dada a sua normal antipatia para com religiões, acima de tudo o cristianismo. Alguns comentaristas sugeriram uma ligação com preconceitos raciais: isto é, o Islã permanece acima de críticas, pois é amplamente uma religião de não brancos cujas duas cidades sagradas ocupam um território outrora oprimido pelo imperialismo ocidental. 

Por um quarto de século, tenho sugerido que uma disciplina de religião comparativa seja incluída no currículo básico da educação superior (digo isso enquanto ateia). Conhecer as grandes religiões mundiais – hinduísmo, budismo, judaico-cristianismo, Islã – é o verdadeiro multiculturalismo. Todos deveriam ter uma familiaridade geral com crenças, escritos, rituais, arte e santuários das grandes religiões. Apenas através de um contato direto com o Alcorão ou o Hádice, por exemplo, é que alguém pode saber o que diz a respeito da jihad e como aquelas incrivelmente numerosas passagens foram interpretadas de diferentes maneiras ao longo do tempo. 

Agora, muitos liberais ocidentais e seculares tratam o Islã com uma condescendência paternalista – abanando para ele vagamente de uma benevolente distância, mas não fazendo esforço algum em debater suas intrincadamente contraditórias mensagens, que podem inspirar o bem ou desencadear atos de devastador impacto no palco internacional. 

Fico esperando por um confronto entre o feminismo e o movimento transgênero, mas ele sempre fica escapando para o horizonte. Tenho visto como a Liga La Leche – que esteve um dia na vanguarda do feminismo – tem nos últimos dois anos se curvado ao projeto transgênero. Seu principal texto (por agora) é The Womanly Art of Breastfeeding [A Arte Feminina de Amamentar], mas eles oficialmente mudaram sua posição para incluir homens e pais que amamentam. O texto original de sua política é maravilhoso: “Hoje se reconhece que alguns homens são capazes de amamentar”. Eles deixam de lado que algumas mulheres são biologicamente incapazes de amamentar. Isso iria contra os princípios fundadores da Liga, supostamente. O que podemos tirar disso tudo? 

As feministas entraram em conflito com ativistas transgêneros mais publicamente no Reino Unido do que nos EUA. Por exemplo, dois anos atrás, houve uma raivosa campanha organizada, incluindo uma petição com 3 mil assinaturas, para cancelar a palestra de Germaine Greer na Universidade de Cardiff devido a suas opiniões “ofensivas” sobre o movimento transgênero. Greer, uma pesquisadora literária que foi uma das grandes pioneiras da segunda geração feminista, sempre negou que homens que fizeram cirurgia de mudança de sexo são de fato “mulheres”. Sua palestra em Cardiff (sobre “Mulheres e Poder” no século XX) eventualmente ocorreu sob forte segurança. 

E, em 2014, Gender Hurts [Dores de Gênero], um livro da feminista radical australiana Sheila Jeffreys, gerou uma acirrada controvérsia no Reino Unido. Jeffreys identifica a transexualidade com a misoginia e a descreve como uma forma de “mutilação”. Ela e seus aliados feministas encontraram prolongadas dificuldades em conseguir um lugar para realizar sua palestra em Londres devido a ameaças e protestos de ativistas transgênero. Finalmente, o fizeram em Conway Hall: a palestra dela em julho do ano passado está completa no YouTube. Nela, ela argumenta, entre outras coisas, que a indústria farmacêutica, tendo perdido renda quando a rotineira terapia de estrogênio em mulheres na menopausa foi abandonada devido a seus riscos de saúde, tem promovido uma relativamente nova ideia de transexualidade para criar uma classe permanente de consumidores que precisaram tomar hormônios prescritos para o resto da vida. 

Apesar de me descrever como transgênero (me vesti com espalhafatosas roupas masculinas desde o início da infância), sou muito cética sobre a onda transgênero atual, que penso ter sido produzida por mais fatores psicológicos e sociológicos do que o discurso transgênero atual inclui. Além disso, discordo da crescente prescrição médica de bloqueadores de puberdade (cujos efeitos a longo prazo são desconhecidos) para crianças. Considero a prática uma violação criminosa de direitos humanos. 

É com certeza irônico como os liberais que se colocam como defensores da ciência quando se fala em aquecimento global (um mito sentimental sem base científica) fogem de todas as referências à biologia quando se fala em gênero. A biologia tem sido programaticamente excluída de programas de estudos de gênero e femininos por quase 50 anos já. Assim, pouquíssimos pesquisadores e teóricos que estudam gênero, nos EUA e no mundo, estão preparados cientificamente ou intelectualmente para ensinar seus alunos.

A pura verdade biológica é que mudanças de sexo são impossíveis. Cada célula do corpo humano permanece programada com o gênero de nascença por toda a vida. Ambiguidades intersexuais podem ocorrer, mas são anomalias de desenvolvimento que representam uma minúscula fração de todos os nascimentos humanos. 

Em uma democracia, todos, não obstante o quão não conformistas ou excêntricos, deveriam ser livres de abuso ou assédio. Mas, ao mesmo tempo, ninguém merece direitos especiais, proteções, ou privilégios com base em sua excentricidade. As categorias “homem transexual” e “mulher transexual” são altamente corretas e merecedoras de respeito. Mas, como Germaine Greer e Sheila Jeffreys, eu rejeito a coerção apoiada pelo Estado de chamar alguém de “mulher” ou “homem” simplesmente com base em seu sentimento subjetivo a respeito disso. Podemos muito bem tomar o rumo da boa vontade e deferir por cortesia em tais ocasiões, mas essa escolha é nossa. 

Quanto à Liga La Leche, eles estão mal preparados para carregar armas nas perigosas guerras culturais. Lavados pelo leite da bondade humana, eles provavelmente estão presos no estado de desenvolvimento. Naturalmente, eles têm sua atenção chamada pelo som de bebês chorando, não importando a idade. Cabe aos professores de literatura e escritores defender a integridade da língua, que como todas as linguagens muda vagarosamente e organicamente ao longo do tempo. Mas com tantos departamentos de humanidades engolidos pelo poço de piche do pós-estruturalismo, os gloriosos meios de linguagem podem ter de lutar contra os comissários de gênero sozinhos.