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Charles Melman: o prazer extremo a qualquer preço

Exibir tudo, ver tudo, saber de tudo e, acima de tudo, gozar a qualquer preço. A sociedade que se desenha neste terceiro milênio vai se distanciando na velocidade da luz daquilo que Sigmund Freud esmiuçou entre as quatro paredes do consultório onde inventou a psicanálise.

Nosso objeto de desejo não é mais obscuro. Saímos da economia organizada pelo recalque para uma economia organizada pela exibição do gozo. Dessacralizamos o sexo, a vida, a morte. Podemos satisfazer quase todas as nossas paixões, pedir que sejam socialmente reconhecidas, legalizadas. Mas, refletimos cada vez menos. A formidável liberdade do homem moderno nunca se revelou tão estéril para o pensamento.

Esse é o mundo esmiuçado por Charles Melman, autor de uma obra extensa e significativa sobre a psicanálise nos tempos modernos. Em entrevista, Melman traçou um retrato do homem sem gravidade, que circula no que ele chama de nova economia psíquica. Leia abaixo o texto inédito:

O senhor vê os dois últimos séculos como séculos de identificação de limites. Agora, estaríamos no momento de sua extinção.
Charles Melman: 
Recuamos ao extremo dos limites do impossível. Aí estão os acontecimentos cujas consequências não estão suficientemente claras, mas que, pelo menos, arrastam este recuo dos limites do impossível. Em particular, levam toda a dimensão do respeito e do sagrado que, querendo ou não, é itinerante na sociedade.

O respeito aos políticos ou às autoridades morais, por exemplo, que hoje desapareceu completamente. Nós temos exigências que não tínhamos no passado que se tornaram consideráveis. E se tornou difícil a satisfação de preenchê-las, de garanti-las.

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Nós passamos de um tipo de neurose, de uma sociedade fundada na negação dos desejos, para uma sociedade de liberdade de expressão que estimula a perversão. Seria isso uma evolução ou apenas mudamos de neurose?
Charles Melman: Hoje, o direito do homem é aquele que permite atingir sua satisfação plena, qualquer que seja a natureza dessa satisfação. Esta é a exigência moderna. Antigamente, dizia-se: o direito ao amor. Parece que a forma contemporânea é o direito ao gozo. Quero dizer que, já que há, em alguma parte da sociedade, uma exigência ao gozo, ela é reconhecida como legal, como legítima, e querer contrariá-la faz voltar, de imediato, a um registro reacionário, não é mesmo? É completamente vão querer impedi-lo.

Assim sendo, o que garante hoje a reunião social – não me refiro ao pacto social – não são mais as referências aos valores comuns, os valores morais compartilhados, mas sim a participação no gozo comum e compartilhado.

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Gozar a qualquer preço...
Charles Melman: Gozar a qualquer preço. Quaisquer que sejam as consequências, mesmo em prejuízo à própria vida. Isso não é mais um fator primordial. Então, somos forçados a dizer que estamos à mercê da perversão, se não, da prioridade concedida ao gozo e ao objeto do gozo quaisquer que sejam as condições éticas que possam ser associadas a ele.

É isso que o senhor chama de “economia psíquica”?
Charles Melman: Sim, é isso. Freud dizia que o mal-estar da civilização era a restrição dos desejos. Hoje, se dirá que a felicidade da civilização será esse encontro em torno do gozo compartilhado.

O senhor diria que, nesta nova economia psíquica, o homem perdeu a noção do bem e do mal, de certos valores éticos que não existem mais?
Charles Melman: 
Eu diria, em vez disso, que há um apetite pelo mal, na medida em que o mal, queira-se ou não, sempre foi o guardião do prazer e da satisfação. O proibido sempre foi o suporte do mal – o que não se deve, o que deve ser negado etc – para nós, ele sempre funcionou como suporte do gozo e da satisfação. E, na medida em que hoje isso está liberado, poderíamos dizer que há essa assimilação estreita entre a busca do mal... Com limite do gozo até a dor confundida com o bem. Ou seja, esse extremo é vivido com um bem. 

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O senhor acredita que todas essas mudanças de que falamos nos conduzem ao desejo de uma volta às figuras autoritárias paternas?
Charles Melman: 
É preciso esperar que a volta da autoridade não aconteça. Principalmente, porque a volta à ordem moral, o rearmamento moral, seria, para cada um de nós, uma regressão. É preciso mesmo temer que as formas políticas desse rearmamento moral sejam severas e muito desagradáveis.

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Pergunto se essa não é uma necessidade humana: ter limites.
Charles Melman: 
Então, o que talvez devêssemos pensar, de uma forma não obrigatoriamente otimista, é que o progresso, se ocorrer, consistirá na instalação, na cultura, de um respeito aos limites que não necessitaria da autoridade policial, moral ou carcerária para se impor. Mas que seria um reconhecimento por cada um de nós, do fato de que há leis que são respeitáveis e que são um melhor indício da nossa humanidade do que o consentimento do gozo em que estamos envolvidos. Aí, será um progresso real, uma volta ao ideal dos pensadores da Grécia, cujo ideal era esse mesmo: a aceitação das leis que são a condição da nossa humanidade e que não precisam de outra autoridade que não a delas para serem reconhecidas e respeitadas.

Então, sonhamos com uma utopia?
Charles Melman: Não é, de todo, uma utopia... A não ser quer acreditemos que somos todos crianças e que precisamos de um guarda para nos fazer marchar em linha. 

(Via Programa Milênio)


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