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Daniel Kahneman: “O mercado não fica de mau humor”

Ilustração: Kotryna Zukauskaite
Ilustração: Kotryna Zukauskaite

Momentos decisivos em qualquer campo de nossas vidas - no trabalho, nos relacionamentos, nos estudos, na saúde e no dinheiro - trazem à tona sentimentos de ansiedade. Quando estamos tratando de finanças, especialmente em tempos de crise, em que há pouca ou nenhuma margem para prejuízos, a insegurança com o caráter de longo prazo dos resultados de nossas decisões se torna ainda maior.

No ponto em que investimentos financeiros e emoções humanas se cruzam, o psicólogo e economista Daniel Kahneman é referência. A tomada de decisões em relação ao destino do nosso dinheiro pode refletir em todos os outros aspectos de nossas vidas. Por isso, aprender a lidar com a falta ou excesso de confiança ao investir, refletindo sobre o impacto final dessa postura em nossa condição de vida, é parte importante do preparo para tornar-se um bom investidor.

Daniel Kahneman, israelense radicado nos Estados Unidos, ganhou em 2002 o Prêmio Nobel de Economia, por seu trabalho interdisciplinar, cruzando as áreas da psicologia cognitiva e comportamental e da economia para compreender questões relacionadas à capacidade humana de tomada de decisões num contexto de incertezas.

Em entrevista à revista Exame, o psicólogo e economista israelense apontou o que considera um dos maiores erros dos investidores: a análise do mercado econômico de acordo com a lógica de oscilações de humor de uma pessoa. Leia abaixo.


Apesar dos riscos geopolíticos e das dúvidas quanto à recuperação da economia mundial, as bolsas da maioria dos países continuam subindo. Os investidores estão sendo irracionais?

Muitos pensam no mercado financeiro como se ele fosse uma pessoa, que tem personalidade e sentimentos. É comum ouvir que o mercado está otimista ou com medo. Por causa dessa personificação, muitos investidores acham que entendem o mercado e sabem como ele tende a se comportar, mas isso é uma ilusão. O mercado não tem uma única personalidade. Há muitas pessoas envolvidas: algumas têm mais dinheiro, outras são mais sofisticadas, outras usam computadores para negociar. Cada uma delas responde de um jeito ao ambiente em que vive.

Esse conjunto forma o mercado. Se alguém conseguisse explicar por que os mercados sobem ou descem, conseguiria prever seus movimentos; mas ninguém pode fazer esse tipo de projeção. Meu trabalho foi tomado como um indicativo de que as pessoas não são racionais, mas isso não é verdade. Minha conclusão é que não dá para afirmar que todo mundo pensa racionalmente o tempo todo. É possível que parte dos investidores esteja fazendo bobagem, mas é claro que há quem saiba o que está fazendo.

O Brasil vive uma crise política e econômica. Como tomar boas decisões de investimento num ambiente de tamanha incerteza?

Quando há grande incerteza sobre o futuro, as pessoas tendem a evitar riscos. Fazem investimentos mais conservadores e gastam menos. Faz sentido, mas não é o que está acontecendo no Brasil. A postura dos brasileiros parece contraditória. Sabe-se que é preciso cortar despesas — das próprias famílias e do governo —, mas as medidas duras são adiadas. Isso pode estar acontecendo porque, por alguma razão, existe uma expectativa de melhora no futuro.

Usar softwares para tomar decisões de investimento pode evitar esses erros mais comuns?

Depende. No curto prazo, os computadores investem melhor do que as pessoas, principalmente porque são mais ágeis ao decidir o que comprar e vender. Eles conseguem analisar uma quantidade maior de dados em menor intervalo de tempo. Mas ainda não surgiram computadores capazes de superar o ser humano nas análises de longo prazo — ao planejar investimentos estratégicos, por exemplo. Mas, dado o rápido desenvolvimento dos computadores, eles deverão conseguir fazer isso em breve.

O empresário Elon Musk afirmou que a inteligência artificial pode ameaçar a sobrevivência da humanidade. O senhor concorda?

Sou um entusiasta quanto às habilidades da inteligência artificial. Ao olhar para o que a inteligência artificial pode fazer, é difícil não ficar empolgado. O problema são as consequências que essa tecnologia pode trazer para a humanidade. Então, tendo a concordar com Musk.

Que consequências?

Ao mesmo tempo em que pode ajudar as pessoas a tomar decisões melhores e resolver problemas, pode deixar muita gente sem emprego num futuro próximo. Muitas pessoas perderão seus empregos e não poderão fazer mais nada para contribuir para a economia. Alguns economistas dizem que esse cenário catastrofista já foi proclamado em outras ocasiões no passado, quando houve inovações tecnológicas, e nunca se tornou realidade. É verdade, mas estamos diante de uma situação diferente. Não tenho certeza de que o efeito geral para a humanidade será positivo.

(Via Exame)