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Drew Gilpin Faust: "Vivemos em um tempo onde o conhecimento e o aprendizado estão se tornando cada vez mais importantes"

Drew Gilpin Faust
Drew Gilpin Faust

Drew Gilpin Faust tornou-se a reitora da Universidade de Harvard em 2007, um ano após a saída tumultuosa de Larry Summers. Mas, os problemas não acabaram aí. Ela teve que conduzir a universidade durante os anos difíceis da Grande Recessão e durante um período de queda brusca nas doações. Antes de assumir como reitora, havia sido diretora do Instituto Radcliffe de Estudos Avançados da Harvard, além de professora de História na Universidade da Pensilvânia, onde se especializou na Guerra Civil Norte-Americana.

Drew Gilpin Faust concedeu uma entrevista ao site Freakonomics, criado pelos economistas Stephen Dubner e Steven D. Levitt. O site é um projeto paralelo dos economistas, autores do best-seller Freakonomics, o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta, e reúne diversas dicas e artigos sobre economia para todos os públicos.

Na entrevista, Gilpin Faust fala sobre os maiores desafios enfrentados como reitora, conta como os US$ 37 bilhões em doações a Harvard são utilizados e argumenta que a crise mundial não impediu que as pessoas investissem na sua educação: "Durante a recessão, vimos que o desemprego era muito mais baixo entre as pessoas com formação universitária, se comparado a pessoas com diplomas secundários. Isso quer dizer que vivemos em um tempo onde o conhecimento e o aprendizado estão se tornando cada vez mais importantes, não o contrário." Leia abaixo:

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Freakonomics: Na cerimônia de premiação de Liderança Feminina do Harvard College, você afirmou que nasceu para causar problemas. Fale um pouquinho sobre isso, sobre seu desejo de mudar o status quo.
Drew Gilpin Faust: Tudo começou com a luta por igualdade junto com meus três irmãos. Eles tinham liberdades e oportunidades que eram negadas a mim. E eu era obrigada a fazer coisas que achava questionáveis, como sempre usar roupas discretas. Então minha primeira luta por igualdade foi dentro da minha própria casa. E eu fazia coisas como me negar a descer para o jantar porque tinham dito que eu precisava ir de vestido. Mas eu acho que, desde o início, a disparidade entre o que ensinavam na escola e na igreja sobre o sonho americano, sobre a justiça humana e sobre a cristandade mostrava a falta de sintonia com o apoio à segregação racial, que era tão comum na minha comunidade. Eu comecei a me rebelar contra aquilo e escrevi uma carta para o presidente Eisenhower quando tinha nove anos para pedir que ele apoiasse a integração racial.

Freakonomics: Você é a primeira reitora nos mais de 375 anos de história de Harvard. Em algum momento teve a impressão que foi favorecida por ser mulher?
Drew Gilpin Faust:
Eu não acho que tenham me privilegiado porque a Harvard Corporation na faria esse tipo de coisa. Mas tem muita gente de fora da Harvard que me acusou de ter sido escolhida só porque eles queriam uma mulher. Durante o anúncio da minha escolha para a reitoria em fevereiro de 2007, uma pessoa do público me perguntou o que eu achava de ser a primeira reitora de Harvard. Mas eu não tinha me preparado pra responder isso. Não tinha nem pensando a respeito, então disparei: "Não sou a mulher que virou reitora de Harvard. Sou simplesmente mais uma pessoa no comando da instituição". Essa foi uma resposta importante para mim, mas eu percebi que as pessoas davam cada vez mais atenção ao fato de eu ser mulher, como se tivessem me escolhido só pra enfeitar. Além disso, também recebi muitas cartas de menininhas e de pais do mundo todo dizendo coisas como: "Agora eu sei que minha filha pode fazer qualquer coisa". Então eu percebi que tinha que ocupar o espaço de mulher e reitora da Harvard, porque estava fazendo a diferença.

Freakonomics: Quando você assumiu, quais foram os maiores desafios da reitoria? Em que ponto as coisas estão agora?
Drew Gilpin Faust:
Me tornei reitora depois de um ano de comando interino de Derek Bok como reitor. As coisas estavam basicamente em suspensão animada. Por isso, acalmar as coisas foi uma parte importante desse primeiro ano. Mas, depois de um ano, a crise financeira acertou a gente em cheio e perdemos 27 por cento das doações. E esse dinheiro financia 35 por cento de todo nosso orçamento operacional. Por isso, o que vimos foi uma crise que afetou todas as áreas e tivemos que questionar por que fazíamos as coisas assim. De que maneira podíamos aproveitar aquela ocasião para mudar e renovar a instituição para seus próximos 375 anos de história?

Freakonomics: A Harvard ainda conta com o maior fundo de doações do planeta, que está na casa dos US$ 37 bilhões, US$ 10 bilhões mais que a Universidade de Yale, que está na segunda posição. Você pode nos dizer como esse dinheiro deve ser usado, porque afinal de contas é muita coisa.
Drew Gilpin Faust:
As doações são presentes dados à Universidade ao longo do tempo e que estão legalmente ligados a determinados fins. Isso quer dizer que algumas das doações são restritas à contratação de um professor de francês ou ao financiamento estudantil. Isso quer dizer que tudo o que sai daquele fundo determinado deve ser usado de forma específica, sem deixar de preservar a doação para que ela continue a permitir o financiamento de forma contínua. Por isso, preciso dizer uma coisa em relação a essa comparação entre o fundo de doações de Harvard, de Yale, de Princeton ou de qualquer outra instituição. Tudo depende do que a universidade faz. Harvard é muito maior que Yale. Isso significa então que quando se trata do valor por estudante, Yale tem mais dinheiro que Harvard.

Freakonomics: Houve muita desconfiança — e algumas evidências — de que o retorno sobre o investimento na educação superior está em declínio ou não é tão forte quanto se imaginava. Como você vê esse problema?
Drew Gilpin Faust:
O que vimos nos últimos 10 ou 20 anos é um aumento na concorrência no mundo em que vivemos e trabalhamos. Durante a recessão vimos que o desemprego era muito mais baixo entre as pessoas com formação universitária, se comparado a pessoas com diplomas secundários. Isso quer dizer que vivemos em um tempo onde o conhecimento e o aprendizado estão se tornando cada vez mais importantes, não o contrário.

(Via O Financista)