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Edmund Phelps: “Precisamos de trabalhos interessantes”

Ilustração: John Holcroft
Ilustração: John Holcroft

O trabalho é uma grande parte de nossas vidas. Além de ser um elemento essencial de segurança financeira, propiciando nossa subsistência e definindo o que podemos oferecer materialmente àqueles que amamos, é a atividade que desempenhamos em ao menos metade do tempo em que estamos acordados. Por isso, o trabalho tem um peso sobre nossa identidade, nossas relações pessoais e nossa auto-estima.

Já que se trata de algo praticamente inevitável - ao menos para a maior parte da população -, há uma tendência atualmente de busca por um sentido maior no trabalho, envolvendo maior identificação e o desenvolvimento de novas capacidades. É o que o economista norte-americano Edmund Phelps chama de florescimento, termo empregado em seu livro Mass flourishing (2013), ou “florescimento das massas”. Para o intelectual, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2006, a insatisfação das pessoas com seus trabalhos tem reflexos na sociedade como um todo.

Em entrevista à revista Época, Phelps fala sobre as transformações no meio do trabalho - ressaltando as diferenças entre as oportunidades da elite e das “pessoas comuns” -, e sobre as mudanças de concepção que temos ao longo da vida com relação à vida profissional. Leia abaixo!

Edmund Phelps foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2007.


Em que consiste o florescimento a que o senhor se refere, se não é o crescimento da renda do cidadão?

No dia a dia, o florescimento significa ampla criação de empregos e alta satisfação com esses empregos. Significa pessoas em trabalhos que deem a elas a oportunidade de se envolver em algo e sintonizar suas mentes no que estão fazendo, que ofereçam oportunidades, experimentação, projetos de coisas novas. Significa que você faz coisas que dão uma sensação de recompensa. Há vários tipos de recompensa. Se, ao trabalhar, você aprimora suas capacidades, já é um ganho. Se, com habilidades melhores, você chegar a um salário maior ou emprego melhor, eis outro ganho. Há ganhos não materiais: a excitação de enfrentar desafios, a superação de obstáculos, a emoção da descoberta. Quando alguém é jovem e não tem dinheiro, é natural que pense mais em ganhos materiais. À medida que envelhecemos, os ganhos não materiais passam a ressoar profundamente em cada um de nós. Precisamos ter vidas interessantes. Uma medida do florescimento nas nações é o nível de satisfação com o trabalho. O florescimento é um conceito usado por filósofos há séculos. Estou tentando trazê-lo de volta.

O mundo sofre os efeitos da crise. Não é normal, neste momento, querermos segurança e estabilidade, mesmo em empregos chatos?

Em países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França, o cidadão continua a receber do governo uma quantidade tremenda de proteção social. Numa conferência recente, um aluno visitante se apresentou a um professor como um dos desempregados da Espanha. É um jovem, capaz de viajar para os Estados Unidos e se dedicar a uma pesquisa. Então, creio que estamos cuidando bem dos desempregados. Nos Estados Unidos, com um cartão MedicAid, você pode fazer uma operação de US$ 30 mil numa ou duas semanas. Minha maior preocupação não é que o governo seja grande demais, nem que os impostos sejam muito altos. Minha preocupação é que o debate público atual é feito entre grupos de interesse preocupados em imaginar que benefícios podem obter. Uma vez que todos passam a pensar que há sempre benefícios a caminho – e todo mundo gosta de receber benefícios –, esse se torna o maior objetivo de cada um. O cidadão pensa nisso em vez de pensar “como posso melhorar a empresa em que eu trabalho?” ou “como posso fazer melhor o que faço?”. Há uma degradação de aspirações e valores, com muita gente esperando demais do governo. Impostos altos são um problema, mas outro, muito maior, é que as expectativas com o trabalho mudaram para pior. Hoje, há pouca gente disposta a avançar no desconhecido, a se aventurar, a explorar, a descobrir.

O senhor afirma que o florescimento exige uma combinação de fatores. Podem-se criar essas condições?

É preciso que um povo preze certos valores, como pensar por si mesmo, ter vontade de se diferenciar do grupo ou da família, criar seu próprio caminho, ser seu próprio chefe, ser criativo, procurar um trabalho que permita se expressar, ter curiosidade para explorar o desconhecido. Se um povo preza esse tipo de valor, tende a criar as instituições certas e a sociedade certa. Ela capacitará o indivíduo a viver a vida que ele quer. As instituições tendem a ser um produto dos valores do povo e da cultura. Uma sociedade assim não atrapalhará o cidadão que quiser criar uma empresa ou entrar num setor que faz coisas novas.

Mas de onde vêm esses valores? Como um país os consegue?

Não avançamos muito nessa resposta. Sabemos como esses valores surgiram na Europa com o Renascimento – que permitiu uma era de descobertas e avanço no capitalismo mercantil –, a era Barroca, o Iluminismo e o século XIX. O filósofo Giovanni Pico della Mirandola [nascido em Mirandola, na atual Itália, em 1463] disse que todo mundo tinha criatividade, ao contrário do que era ensinado na época. E que a criatividade pode mudar sua vida. [O sacerdote germânico] Martinho Lutero afirmou que cada um tem o direito de pensar por si próprio. [O filósofo francês Michel de] Montaigne disse que mudamos e crescemos ao encontrar desafios e novas experiências. [O filósofo escocês] David Hume explicou que a mudança vem do uso da imaginação. [O filósofo dinamarquês Soren] Kierkegaard disse que havia um certo grau de ansiedade nesse novo tipo de sociedade que tomava a Europa, mas que isso era um subproduto inevitável de qualquer viagem rumo ao desconhecido – e ninguém precisava pular para fora do barco. O filósofo germânico [Georg] Hegel disse que talvez não consigamos todos fazer diferença, mas todos podemos tentar.

No fim das contas, cabe ao indivíduo procurar a vida que quer. O governo ajuda ao criar objetivos ambiciosos como enviar um homem à Lua ou explorar petróleo no fundo do mar?

Talvez não precisemos tentar enviar gente à Lua, mas sim tentar tornar a educação empolgante para os jovens. Tive o prazer de ouvir um dos inventores do Google Glass na Universidade Columbia. Ele certamente está florescendo. O problema é: queremos que as pessoas comuns floresçam. Que haja inovação a partir das raízes. Hoje, a inovação está nas mãos de uma elite. Receio que várias iniciativas governamentais de incentivo à inovação beneficiem essa elite, não o cidadão comum em seu trabalho.

(Via Época)