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Elisabeth Roudinesco: “As teorias de gênero são resultado das questões freudianas”

Ilustração: Olaf Hajek
Ilustração: Olaf Hajek

Autora da mais relevante biografia de Sigmund Freud desde Peter Gay, a psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco busca defender a psicanálise de seus críticos contemporâneos lançando mão de uma abordagem historicista para situá-la na história das ideias. Para a intelectual, vivemos em uma época em que o cientificismo - imperando como valor absoluto – põe em dúvida a legitimidade de outras áreas que não seguem uma metodologia específica. É comum debater o assunto a partir de uma disputa que, para a maior parte dos estudiosos – das humanas e das exatas - nem mesmo existe.

Uma das críticas mais recorrentes à teoria de Freud, considerado o pai da psicanálise, diz respeito ao seu caráter misógino. Para Roudinesco, o equívoco de tal visão é resolvido quando a clínica encontra a história. A relevância de um autor não se dá pelo seu sucesso contemporâneo, explica, mas sim pelo peso que teve em sua época. Para a autora, a pergunta não é se Freud acertou ou errou, mas sim quantas portas foram abertas a partir de sua teoria do insconsciente.

A partir da abertura de novos arquivos pela Biblioteca do Congresso em Washington, nos Estados Unidos, Elisabeth Roudinesco escreveu a biografia Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, publicada no Brasil em 2016.

Elisabeth Roudinesco foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2016. Leia abaixo a entrevista da intelectual para a revista Época.


Para compor a biografia de Freud – Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo –, a senhora recorreu aos novos arquivos abertos em Washington, nos Estados Unidos. Como esses novos arquivos nos ajudam a entender Freud em seu tempo e a relevância de suas ideias em nossos dias?

Eu não fui a única a explorar esses arquivos. Inúmeros historiadores americanos o fizeram antes de mim, como Peter Gay, que consultou amplamente esses arquivos para escrever Freud: uma vida para o nosso tempo. Na França, por outro lado, nenhum pesquisador foi a esses arquivos ou teve a ideia de explorá-los. Pela simples razão de que os psicanalistas franceses não se interessam mais pela história da doutrina psicanalítica e menos ainda pela vida de Freud ou pela trajetória de seu pensamento. Eu sou a única. E o arquivo é interessante por si só. É na história que encontramos as respostas. Jamais me pergunto se, atualmente, as ideias de Freud são pertinentes ou não. Freud é um dos maiores pensadores da história da humanidade e teve sua obra traduzida em 50 idiomas. Todo historiador se debruça sobre a questão “como ler Freud hoje?”. E não “ele é pertinente?”. Quando estudamos a vida de Galileu, de Darwin ou Shakespeare, não nos perguntamos se suas obras são pertinentes. A questão é abordada de outra maneira. E é isso que faço. É deplorável que os psicanalistas separem as duas coisas que eu reúno – a clínica e a história.

Ainda hoje há quem diga que Freud é misógino por conta de sua teoria da sexualidade feminina. Como o tempo de Freud influenciou a maneira como ele pensava a sexualidade feminina e as questões de gênero?

Freud é produto de seu tempo e iniciou uma revolução simbólica. Não podemos mais dizer que ele era misógino, mas sua teoria da sexualidade feminina é discutível, evidentemente. E foi contestada dentro do próprio movimento psicanalítico enquanto Freud ainda estava vivo – falo longamente sobre isso em meu livro. Todas as teorias de gênero são resultado das questões freudianas.

É comum encontrar afirmações de que a psicanálise foi superada pela neurociência e que, por isso, outras técnicas terapêuticas seriam mais apropriadas e eficazes do que a cura pela fala. Como psicanálise e estudos neurológicos podem conviver?

É uma estupidez dizer que a psicanálise foi superada pela neurociência pela simples razão de que a psicanálise não é uma ciência a serviço da biologia. É uma filosofia da alma e de modo algum uma exploração do cérebro. É muito bom que os psicanalistas debatam com os neurocientistas, mas o que a neurociência chama de inconsciente não tem nada a ver com o inconsciente freudiano: eles falam de inconsciente cognitivo ou neural ou de plasticidade cerebral. A psicanálise é uma terapia da alma, uma ciência humana e racional, não uma disciplina obscurantista e mágica. A psicanálise não conhece a noção de “progresso” e, por isso, não concorre com as ciências do cérebro. Por exemplo: se você quiser tratar uma doença da pele, não adiantará de nada abrir um livro do século XVI sobre o assunto. Você correrá o risco de morrer. É melhor consultar um dermatologista que vai curá-lo e que, principalmente, não recorrerá a manuais de ciência do século XVI. Mas, se você quiser pensar a política ou a filosofia de modo inteligente, é imperativo ler as obras de Maquiavel, Spinoza ou Kant. É a mesma coisa com a psicanálise. Para compreender o inconsciente, é melhor ler Freud e outros pensadores do que abrir um manual de ciência.

(Via Época)