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Francis Fukuyama: "As maiores ameaças vêm de dentro do próprio Ocidente"

Francis Fukuyama nas ruas de Londres (foto: Cordon Press)
Francis Fukuyama nas ruas de Londres (foto: Cordon Press)

Em 1989, o termo "fim da história" apareceu num artigo de Francis Fukuyama. O historiador americano se referia à vitória dos países democráticos sobre o comunismo soviético, prestes a ruir com a queda do Muro de Berlim.

Quase 30 anos depois, a democracia liberal está sob risco - e Fukuyama admite que o voto pela saída do Reino Unido da União Europeia é um sintoma.

"As maiores ameaças vêm de dentro do próprio Ocidente", afirma o cientista político, que veio ao Brasil para participar do Fronteiras do Pensamento São Paulo 2016. Em entrevista à revista Época (edição impressa, 27/06), Fukuyama fala sobre as consequências do Brexit, o descolamento entre elites e trabalhadores atingidos pela globalização econômica e pelas inovações tecnológicas e a ascensão de um novo populismo no mundo desenvolvido. Confira abaixo:

O voto por sair da União Europeia é uma ameaça ao projeto de integração internacional?
Francis Fukuyama: Sim. A força política que provocou o Brexit existe hoje em toda a Europa. A ascensão de um sentimento populista antieuropeu está em curso desde a crise econômica de 2008, mas já existia antes. É um reflexo de falhas estruturais no projeto de União Europeia, mas não representa um tiro de misericórdia no projeto europeu.

Não é uma surpresa a ascensão desses movimentos extremistas e antielitistas, no curso da grave crise econômica mundial de 2008 e do subsequente aumento do desemprego. As elites que projetaram e construíram o projeto europeu falharam de maneira clamorosa. A ideia de fazer uma união monetária sem união fiscal levou a uma crise sem precedentes na história da União Europeia.

Agora, o que vemos é a chance do esfacelamento de um projeto grandioso. Antes mesmo disso, há uma grande possibilidade de o Reino Unido se esfacelar, com os escoceses dispostos a pleitear novamente a independência. Todos esses problemas, teoricamente, são reversíveis, mas o problema na Europa hoje e na última década tem sido a ausência de fortes lideranças no centro.

Há excesso de polarização. A Alemanha deveria ser esse centro moderador, mas por motivos históricos o país não quer assumir esse papel. O resultado é um vácuo que impede a União Europeia de fazer as reformas certas e impulsiona os movimentos populistas.

Leia também artigo de Francis Fukuyama: No “Fim da história", a democracia continua de pé

A saída do Reino Unido da União Europeia vocaliza a raiva contra a democracia liberal?
Fukuyama:
Sim. A votação britânica pode ser vista como um aprofundamento da preocupação de um certo público com a política e economia global.

O mesmo tipo de eleitor vai votar em Donald Trump nos Estados Unidos - o cidadão menos educado, mais velho, a típica classe trabalhadora branca que viu os empregos desaparecerem e teme a chegada de imigrantes e da tecnologia. É um eleitor que não vê benefícios na globalização - e nem poderia.

Esse eleitor vem sendo ignorado pelas elites há anos e mostra o poder e a força política que tem. Apesar disso, ainda acredito no projeto da União Europeia. Acho que as coisas vão se assentar porque os custos de realmente sair da UE são muito altos. Além disso, os partidos políticos por trás dessa onda populista nacionalista não são unificados e nem sequer têm intenção de construir coalizões. Além de ser anti-UE, a maioria deles tem pouco em comum, responde a diferentes bases sociais e difere em matéria de imigração e política econômica.

Por que isso está acontecendo na Europa, o continente que o senhor considerava, nos anos 1990, o melhor exemplo da vitória da democracia liberal?
Fukuyama: Eu nunca disse que a vitória da democracia liberal era irrevogável — e continuo a achar que ela é o objetivo final para um país que quer se modernizar.

Hoje, há inúmeras ameaças à democracia liberal. A ascensão do sistema chinês é uma delas. Mas esse sistema misto de economia aberta semicapitalista com política fechada comunista é impossível de exportar.

As maiores ameaças à democracia liberal vêm de dentro do próprio Ocidente. A principal é a ascensão desse novo populismo que mexe com os medos atávicos das pessoas em relação a imigrantes e ao terrorismo, ao mesmo tempo em que adota um discurso nacionalista protecionista, com promessas vazias de proteger as pessoas da competição internacional, da globalização e do avanço tecnológico. Todas essas coisas minam o consenso social.

A forma de funcionamento do capitalismo global, que está erodindo a classe média em vários países ricos do Ocidente, é uma ameaça à democracia?
Fukuyama: Não acho que o capitalismo esteja causando o problema. É a tecnologia e a automação dos processos industriais que está destruindo os empregos e minando a indústria tradicional em todo o mundo.

É evidente que a erosão da classe média tem um efeito terrível para a democracia. Os sistemas políticos funcionam melhor quando há um grau de igualdade substantivo. Quando há uma sociedade excessivamente desigual, cria-se uma polarização entre ricos e pobres. Isso é o que vemos tanto nos Estados Unidos quanto em países latino-americanos.

Leia também entrevista com Francis Fukuyama: O Brexit segundo Fukuyama

Mas o avanço tecnológico não se deve ao atual estágio do capitalismo?
Fukuyama:
Sim, sem dúvida. Mas o motivo da erosão da classe média é a alteração da forma como as coisas são produzidas e o fim de empregos que garantiam certa qualidade de vida e prosperidade econômica.

O avançado processo de globalização aumentou a competitividade econômica e levou a uma diminuição dos empregos e à erosão dos salários dos trabalhadores das classes médias nos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, isso ajudou a estabelecer a democracia em países como Brasil, África do Sul, Índia. Nesses lugares, a classe média cresceu, e isso é uma ótima maneira de evitar a polarização entre as elites e os pobres.

Alguns estudiosos avaliam que esse processo, que criou oportunidades nos países pobres, desembocou, nos países desenvolvidos, na criação de um precariado - um grupo de trabalhadores que vive de subempregos. O avanço tecnológico fez a guerra de classes ressurgir?
Fukuyama:
Por causa da liberalização da economia global, houve um aprofundamento da desigualdade econômica, que levou ao crescimento do populismo e de um ativismo político radical em muitos lugares. Isso pode ser mitigado por algumas políticas sociais, mas não pode ser eliminado em definitivo, porque é causado pelo avanço inexorável da tecnologia.

Há mecanismos saudáveis e inteligentes, como sistemas universais de seguridade social, aposentadoria e seguro-saúde e benefícios temporários para desempregados. A grande luta em muitos países, inclusive o Brasil, é fazer essas políticas sustentáveis em longo prazo, porque elas tendem a ser muito caras e impossíveis de financiar por muito tempo.

É possível reverter esse cenário em que o avanço tecnológico provoca depauperação da classe média nos países ricos e desigualdade econômica?
Fukuyama:
Não tenho uma resposta para isso, sinceramente. Essa mudança veio para ficar. Como disse, é possível se distanciar de aspectos negativos da globalização e da automação, garantindo uma rede de seguridade social e uma renda mínima, promovendo formas de redistribuição de renda. Tudo isso faz parte do moderno Estado de Bem-Estar Social.

Mas não tenho certeza de que alguma dessas armas consiga combater a erosão de renda que vem acontecendo como resultado de mudanças tecnológicas sem precedentes. Não sei o que o futuro da tecnologia vai trazer.

É possível que haja mudanças tecnológicas futuras que promovam melhoria na distribuição de renda. Isso aconteceu no passado. Mas a tendência é a criação de máquinas cada vez mais inteligentes e capazes de substituir todo tipo de trabalho humano. Se essa tendência continuar, teremos um problema gigantesco.

A ascensão de populistas nos Estados Unidos, como Donald Trump e Bernie Sanders, é um sinal de crise do sistema eleitoral americano?
Fukuyama:
Não. É o oposto disso. As pessoas estavam muito preocupadas com a força do capital e o impacto do dinheiro nas campanhas, com grandes doadores republicanos bancando a campanha milionária de Jeb Bush, o que inviabilizaria outros candidatos.

Esta campanha provou que não basta ter dinheiro para mover a máquina de uma campanha eleitoral e que a maioria das pessoas está farta do establishment.

Ao mesmo tempo que isso é preocupante, demonstra o caráter plural do sistema político americano. Ele permitiu que Trump, sem apoio das lideranças republicanas, e Bernie Sanders, um completo forasteiro no Partido Democrata, pudessem desafiar seus partidos e, no caso de Trump, assegurara nomeação.

De certa maneira, isso é sinal de que a democracia está funcionando. Isso não quer dizer que o sistema seja perfeito. E é claro que há péssimas ideias sendo lançadas.

Sanders conquistou uma base muito grande de jovens, que nasceram muito depois da queda do Muro de Berlim. Eles estão muito decepcionados como sistema político americano, não sem razão. Mas, quando Sanders promete "o socialismo na América", esses jovens se deixam encantar pelo canto da sereia, porque não têm memória histórica para saber do que se tratava o verdadeiro socialismo.