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Gilles Lipovetsky: "A política agora é tida como profissão, não existem mais estadistas"

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Gilles Lipovetsky não se encaixa na definição mais tradicional de filósofo: ele escreve e fala sobre inúmeras questões presentes no dia-a-dia das pessoas, de maneira objetiva e acessível. O teórico francês da hipermodernidade é conhecido pelos estudos sobre o consumo, e por não ter uma visão condenatória do consumismo.

Ao explorar o assunto, ele abre ramificações que levam a outros tantos temas: o aumento da liberdade das pessoas nos dias atuais, a decadência das tradições que antes guiavam nossas vidas, o pensamento individualista, o desencantamento do ser humano por grandes ideologias políticas e o culto ao prazer e à felicidade imediatos.

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Tudo isso é abordado em sua obra sem deixar de lado aspectos emocionais intrínsecos à condição humana, que surgem destas características que Lipovetsky atribui à hipermodernidade. A solidão, o sentimento de vazio, a ansiedade e a depressão são problemas que o pensador assume que fazem parte dos nossos tempos. Raramente o pensamento do francês não pode ser aplicado a alguma discussão de ordem sociológica, política ou existencial.

No início de junho, o filósofo francês participa de debate especial com Eduardo Giannetti no Fronteiras do Pensamento. O ciclo de conferências da temporada 2017 começa nesta segunda-feira (15) em Porto Alegre com o físico italiano Carlo Rovelli, que falará também em São Paulo nesta quarta (17). Você ainda pode garantir sua presença nos 8 encontros deste ano! Ligue para nossa Central: 4020.2050

Em entrevista ao periódico espanhol ABC, Gilles Lipovetsky traz essa visão interdisciplinar para ajudar a compreender o que ele enxerga como uma diminuição na paixão relacionada à atuação política, e um maior foco nas satisfações privadas. Confira a íntegra abaixo!

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Gilles Lipovetsky: a política agora é tida como profissão, não existem mais estadistas | Elena Cué

Há dois temas fundamentais sobre os quais o sociólogo e filósofo Gilles Lipovetsky (Paris, 1944) debate frequentemente: individualismo e as contradições da vida. Nesta entrevista, ele apresenta uma análise direta e cândida acerca dos paradoxos da nossa sociedade de abundância.

O individualismo pós-moderno trouxe grande autonomia e liberdade de escolha, mas também solidão, o que leva à ansiedade e à depressão...

Nossas vidas costumavam ser reguladas e definidas por tradições, mas isso foi corroído pelo individualismo. As sociedades do passado não isolavam o indivíduo do grupo social, portanto as pessoas não eram capazes de sentir solidão. Na sociedade individualista de hoje – especialmente na sociedade de consumo –, os indivíduos não são mais obrigados a se integrar dentro do grupo. Portanto, é inevitável que sintam solidão, uma vez que carregam o fardo de ter que construir suas próprias vidas. Quanto mais liberdade temos para construir nossas vidas, mais fraco é o elo social. Não é de se admirar que hoje em dia muitas pessoas se sintam diferentes, não como os demais. Isso é uma das marcas registradas do individualismo. E agora as pessoas usam mascotes para compensar a solidão. Animais não nos decepcionam. Mas seres humanos sempre o fazem, por serem livres. É a combinação de todos esses fatores que torna a vida moderna mais difícil, aumenta a solidão e, da mesma forma, a sensação de que não nos comunicamos uns com os outros. As pessoas pensam que não podem se comunicar, pois os outros não os entendem; elas não se sentem entendidas.

Há também uma contradição entre as melhorias em nossa qualidade de vida devido ao desenvolvimento do capitalismo e um consumismo compulsivo e desenfreado. O consumo é uma opção ou uma obrigação?

Desde a década de 1950, muitos estudos têm mostrado propositalmente que o consumo não é uma opção, mas sim uma obrigação. Com todas as campanhas de publicidade e tendências de moda, o capitalismo supostamente nos força a consumir, é uma nova espécie de obrigação. Isso tem relação com comunicação de massa. Eu discordo. Penso que essa noção superestima o poder da publicidade e do marketing. Não creio que os indivíduos sejam obrigados a consumir pela publicidade e as lojas. Não creio que “obrigado" seja a expressão correta aqui.

Você diria, então, que o consumo é uma opção, ou o quê?

É uma questão complexa, pois hoje em dia é quase impossível não consumir. Por exemplo, não podemos sair para cortar lenha e aquecer nossos lares, somos obrigados a pagar pelo nosso aquecimento; se queremos ouvir música temos que comprar CDs. Portanto, temos que consumir. O problema do capitalismo de consumo é que quase todas as experiências em nossas vidas foram transformadas em commodities. Não podemos fugir do consumismo. Em outras épocas, no interior, as pessoas não precisavam comprar tantas coisas, dinheiro tinha um papel muito mais limitado. Dito isso, ainda não penso que “obrigação" seja a palavra certa, pois os consumidores têm um certo nível de liberdade. Podemos escolher não comprar o que nos é oferecido. Não há obrigação de consumir em comparação às obrigações sociais tais como obedecer às leis ou demonstrar respeito pelos outros. Ainda assim, não é uma opção por inteiro, já que ninguém pode evitar consumir. Eu diria que é uma tentação. Creio que essa seja a palavra certa.

Você fala sobre amor romântico como uma das coisas mais desejáveis em termos de realização e satisfação pessoal. Mas você também afirma que isso requer dedicação e sacrifício, o que entra em conflito com o individualismo. Será que essa contradição explica por que hoje há tantas separações e divórcios?

Penso que tantas separações e divórcios ocorrem porque nossas culturas individualistas priorizam o individual sobre a instituição. Em outras palavras, o valor principal hoje não é mais a família, mas a felicidade pessoal e a liberdade. No século XIX, em países católicos, era quase impossível se divorciar. Isso não é porque as pessoas eram mais comprometidas, mas porque havia uma pressão coletiva. Mas na sociedade individualista a coisa mais importante para cada pessoa é ser livre e dedicar-se ao seu desenvolvimento pessoal.

Como esse individualismo exacerbado está afetando a sexualidade?

A liberdade sexual não é mais condenada, e isso teve grande impacto com as mulheres. Por um longo tempo, as mulheres não podiam manter relações sexuais antes do casamento. Mas agora elas usam contraceptivos. O que vemos hoje é o hedonismo da sexualidade. Muitos estudos demonstram que casais têm mais relações sexuais do que no século anterior. Cem anos atrás, homens faziam sexo por prazer com prostitutas; sexo com a esposa era para fazer filhos, por isso era rápido, durando apenas alguns minutos. Mas agora é mais hedonista. Estatísticas demonstram que práticas sexuais são mais variadas. Devotamos mais tempo ao sexo do que costumávamos. Antes pensava-se que, se o sexo deixasse de ser tabu, a sociedade iria degenerar e nossas vidas seriam repletas de luxúria e orgias. Pensava-se que, caso nada fosse proibido, as pessoas teriam uma vida sexual completa e gratificante, e fariam sexo em todos os lugares. Mas não é verdade. As pessoas têm um pouco mais de parceiros sexuais do que no passado, mas nem tantos. A sexualidade de alguma forma se autorregulou sem proibições. Dito isso, um lugar onde existe uma sexualidade intensa e desenfreada é no consumo imaginário da sexualidade; na pornografia. Na internet as pessoas têm acesso a vídeos e fotos que são... ultrajantes! On-line, as pessoas consomem sexo em imagens mais do que na vida real.

Um dos seus trabalhos é intitulado A felicidade paradoxal. O que você quer dizer quando se refere à felicidade do homem individualista como paradoxal?

Tudo em nossa sociedade de consumo celebra a felicidade, a satisfação perpétua; em lojas, tendências de moda, na publicidade. O mundo em que vivemos é um paraíso na Terra comparado a um passado de guerras, fome e extermínios. As principais causas da tragédia desapareceram.

Entretanto, as pessoas não sentem essa felicidade...

As pessoas hoje em dia se preocupam com muitas coisas: seus filhos, seus trabalhos, elas não estão felizes em seus relacionamentos e têm problemas de autoestima. Quando falo de paradoxo, quero dizer que possuímos os elementos objetivos da felicidade, mas na nossa experiência cotidiana a felicidade que sentimos internamente não é proporcional a esses fatores objetivos. Há uma discrepância. Nos preocupamos ainda mais intensamente do que no passado, pois não existem mais tradições, religiões não definem mais o comportamento das pessoas, tudo depende de nós. É por isso que estamos tão preocupados em encontrar nosso lugar no mundo, com o nosso futuro. É como uma tesoura, subindo um lado e caindo no outro. Esse é o paradoxo que eu tentei analisar.

Por que você pensa que os cidadãos perderam interesse e comprometimento com a vida pública e a política?

Não é que o interesse esteja faltando, mas sim tornou-se individualizado: as pessoas estão interessadas em algumas coisas e não em outras. Os cidadãos não confiam mais em seus políticos, por serem desonestos e falharem em representar seus interesses. A política não é mais coisa dos sonhos. Os grandes sonhos – revolução, nação, todas as mitologias da modernidade – não nos movem mais. Mas não creio que estamos vendo uma desconexão total com a vida política. Ao menos parte da população entra em ação para apoiar várias causas como o meio ambiente e a cultura, mas fora dos partidos políticos. Então, penso que precisamos de um diagnóstico mais diferenciado e devemos evitar adotar uma visão apocalíptica de nossa era. O que desapareceu foi a religião da política: comunismo, a revolução, a conquista das sociedades democráticas. Tudo isso foi acompanhado de fascinação, zelo, paixão. Em minha opinião, é a paixão política que entrou em queda, pois a verdadeira paixão agora está direcionada à esfera privada: ser bem-sucedido na vida ou no trabalho, ser feliz, ter bons momentos em família, ter certeza de que seus filhos são felizes. A política não dá mais sentido à vida das pessoas. Mas isso não significa que as pessoas não estão interessadas. Observe a desastrosa eleição de Donald Trump. Tradicionalmente, a participação política nos Estados Unidos é fraca, mas até lá vemos novas formas de protesto. Não é verdade que exista apatia total, é mais complicado. Há toda uma miscelânea de tendências contrastantes.

Você realmente crê que não há ideologias na política?

Não existem mais ideologias abrangentes. A vida política, com seus vários interesses e eleições, foi reduzida a uma forma de gestão. A política agora é tida como profissão, não existem mais estadistas.

Isso depende de nossa interpretação.

Bem, desde Tocqueville e Nietzsche tem se dito que nossa sociedade democrática produz mediocridade. Mas esse é um ponto de vista pessimista do mundo do qual eu discordo. Existem elites que seguem se desenvolvendo, o número de pessoas que vão à universidade continua a crescer, a ciência continua operando milagres. O desejo humano de descobrir a verdade através da ciência é uma aventura fascinante.

Continuamos avançando tecnologicamente e cientificamente, mas e quanto ao social? Há menos solidariedade atualmente?

Creio que, no que tange à solidariedade, tendemos a idealizar demais o passado. Sabemos hoje que em civilizações antigas, em cidades pequenas... não é verdade que todos demonstravam solidariedade. Havia um ódio assustador, caça às bruxas, rivalidade, inveja. É verdade que uma sociedade materialista encoraja as pessoas a pensarem mais a seu próprio respeito. Mas a ideia de solidariedade não morreu, foi reconstituída de outra maneira. É menos orientada pela religião e mais pelos direitos humanos; é embebida de uma cultura mais secular. Na Europa institucionalizamos um estado de bem-estar social que é provavelmente o mais forte do mundo. Poderíamos dizer que não é suficiente, mas não poderíamos dizer que vivemos em um mundo sem solidariedade.

Como podemos experienciar moralidade e espiritualidade em um tempo em que valores tradicionais estão sendo transformados pelo individualismo?

Não é verdade que valores estão desaparecendo de nossa sociedade. O que mudou é que não somos mais orquestrados pela religião. Valores estão sendo individualizados. Por exemplo, todos reconhecem a liberdade como um valor, mas nem todos a entendem da mesma forma. Aqueles que apoiam o casamento gay estão afirmando sua fé em liberdade, e eles veem isso como algo legítimo e bom; enquanto que outros pensam o oposto, dizendo que é ruim devido ao seu efeito nas crianças, e assim por diante. O moralismo não é mais controlado pela tradição e a religião, é determinado pela sociedade e pelo indivíduo.

E isso leva ao conflito...

Sim, e cabe ao Estado estabelecer um conjunto de regras pelas quais podemos viver juntos. Seguidamente dizemos que sem uma tradição robusta e forte a sociedade iria desmoronar, pois não haveria nada para unir as pessoas. Mas não é o que vemos. Tradições perderam sua importância, mas isso não levou a violência e destruição. E isso é o paradoxo: a união que foi criada pela tradição desapareceu, mas isso não causou a destruição da sociedade. Isso mostra que podemos viver em sociedades destradicionalizadas e até viver em paz.

(Via ABC)