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Gilles Lipovetsky: "Educação não é algo passível de prazer ininterrupto"

"Vício da leveza faz com que alunos trabalhem copiando e colando o que encontram na internet. O resultado é o caos."

Conhecido como o filósofo da hipermodernidade, o francês Gilles Lipovetsky afirma que a escola não é bem de consumo ou luxo, mas uma exigência para todos em uma sociedade democrática e humanista. Ainda, destaca que a ideia de "escola sempre divertida" é um devaneio típico da civilização da leveza, descrita em sua mais recente obra.

"Mesmo na civilização da leveza, nem tudo pode ser leve o tempo todo. Precisamos formar pessoas que pensem, que criem, que façam o mundo progredir. E não se faz o mundo progredir com leveza. É necessário uma escola respeitosa, humanista e compreensiva — não leve", defende nesta entrevista repleta de falas desafiadoras até mesmo às visões mais inovadoras da educação. 

O autor de O império do efêmero esteve no Fronteiras do Pensamento 2017 e voltou ao Brasil no final de setembro, para evento sobre educação no Rio de Janeiro. Confira abaixo a conversa com Lipovestsky:

O senhor tem falado sobre o “desinvestimento” público e a perda de sentido das grandes instituições morais, sociais e políticas. Como isso afeta os sistemas de ensino?

Lipovetsky: Já há alguns anos as instituições públicas estão em crise, e as pessoas não confiam na sua legitimidade. Mas o sistema educativo está relativamente protegido. Mesmo os jovens com menos acesso à educação compreendem que a escola é necessária e a veem como sinônimo de progresso. 

O problema é que os sistemas educativos funcionam bem para as elites, mas não para os que nascem em situação desfavorável, não só no Brasil, mas mesmo na França e até na Inglaterra. Há jovens que passam dez anos na escola sem aprender a ler, que são incapazes de compreender uma linha de texto. Como esperar que essa pessoa encontre um lugar na sociedade?

Por isso a ideia atual de que a escola fracassa enquanto forma de ascensão social. A educação precisa ser capaz de permitir que os mais fracos socialmente participem de verdade do movimento democrático. E isso só se resolve investindo nas primeiras séries, nas crianças bem pequenas, pois é algo que não se consegue corrigir depois que crescem. 

Também é preciso dar atenção maior às escolas em áreas mais pobres, investindo em classes menores e educação mais individualizada para que essas crianças possam ter sucesso.

Seu livro mais recente fala sobre a “civilização da leveza”, na qual tudo é virtual, lúdico e sem profundidade. Como a educação se insere nesse contexto?

Lipovetsky: Fala-se de uma escola divertida, onde os alunos não se entediem, mas aprender é difícil, exige esforço, treinamento, repetição. Precisamos aceitar que educação não é algo passível de prazer ininterrupto. 

Mesmo na civilização da leveza, nem tudo pode ser leve o tempo todo. Precisamos formar pessoas que pensem, que criem, que façam o mundo progredir. E não se faz o mundo progredir com leveza. É necessário uma escola respeitosa, humanista e compreensiva — não leve. 

Provavelmente, teremos que rever todo o método pedagógico, corrigir aqueles que não falam mais à repetição e à memorização, e criar estruturas rígidas para ajudar não só os alunos da elite, mas todos a prosperarem. Temos necessidade de uma educação que recomponha uma cultura geral, com currículo mais rico, que permita interpretar, argumentar, expressar um pensamento racional e coerente. 

O vício da leveza faz com que alunos trabalhem copiando e colando o que encontram na internet. O resultado é o caos. Cabe à escola lutar contra o caos da facilidade.

Qual o papel da educação nesse mundo onde o acesso à informação parece ilimitado?

Lipovetsky: Penso que a boa educação é aquela que permite à pessoa distinguir e hierarquizar a informação. A escola deve oferecer ferramentas que permitam fazer a distinção entre o valor do conteúdo de um blog e um texto de Platão, entre a notícia de um jornal sério e a daquele no qual não se pode confiar. 

O conteúdo está disponível facilmente, mas e depois? O conhecimento do fato é importante, mas não tanto quanto o do quadro conceitual, que permite entender o que pesquisar e estudar. Quando se tem repertório intelectual, a desorientação frente à oferta de informações é menor. Deve-se ensinar a ser inteligente, pois a memória hoje está no computador, mas o pensamento, não. E, sem o pensamento, estamos perdidos.

Onde fica a educação na era do consumo de experiências?

Lipovetsky: O ensino precisa fugir do modelo de consumo experiencial, cada vez mais comum. Aprender não é experiência, é cognição. A escola é onde se forma o espírito, é o que permite aos jovens acessar o mundo que eles não conhecem. Você consome aquilo que conhece, que deseja, mas a educação existe para fazer sair do seu próprio mundo, para abrir outros universos.

O senhor fala que a exigência absoluta da sociedade do século XXI é a educação. Qual a responsabilidade do Estado nesse cenário, principalmente em países de grandes desigualdades sociais, como o Brasil?

Lipovetsky: Educação não é um luxo, mas uma exigência em uma cultura democrática e humanista. A escola deve oferecer as ferramentas elementares, como ler, escrever e contar, mas também permitir o desenvolvimento global do indivíduo. Em uma sociedade muito desigual, com pessoas sem acesso à educação e escolas de níveis muito diferentes, não vamos atingir esse dever com pequenas medidas pedagógicas e, sim, com grandes escolhas políticas. 

É responsabilidade do Estado desenvolver o sistema educativo de forma a corrigir as desigualdades sociais. Não para suprimi-las, mas para garantir que elas não impeçam a mobilidade social. Uma política inteligente precisa fazer um esforço considerável para impedir que a educação se transforme em bem de consumo ou luxo. 

O orçamento que os governos dedicam aos sistemas de ensino precisa ser entendido não como gasto, mas como exigência, e é necessário investir na qualificação dos professores. Sem dinheiro e sem educadores competentes, não há escola de qualidade. A educação deve ser para todos, e é um perigo para o bem democrático que seja absorvida pela força do dinheiro. (Via O Globo)