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Gilles Lipovetsky: "Medo do estrangeiro nos domina"

A Era do Vazio, O Império do Efêmero. Os títulos dos principais livros de Gilles Lipovetsky indicam sua abordagem da condição contemporânea: um universo hiperindividualista e hiperconsumista, que prometia emancipação em relação a tradições e um gozo material ininterrupto, mas acabou por criar aquilo que ele descreve como "hedonismo ansioso".

A repetição do prefixo "hiper" é uma das marcas do pensador francês. Ele contrapõe à expressão pós-moderno (no sentido de diluição do moderno) o conceito de hipermodernidade, vendo nesse estágio - o presente - uma hiperbolização de vetores como o direito individual, a tecnociência, a democracia e o mercado, que para ele se tornaram incontornáveis. Para o bem e para o mal.

No início de junho, o filósofo francês participa de debate especial com Eduardo Giannetti no Fronteiras do Pensamento. A partir de seus diferentes campos, a dupla de pensadores discute a sociedade do consumo, o individualismo e, é claro, o império do efêmero.

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Com a palavra, Gilles Lipovetsky: "Medo do estrangeiro nos domina"

O Brexit, o fluxo de refugiados e o terrorismo estão fazendo a Europa repensar uma identidade que parecia estável, resolvida?
Gilles Lipovetsky - Há na Europa de hoje uma grande inquietação identitária, provocada pela globalização econômica, gerando nas coletividades o medo de serem submersas por outras nações, de perderem suas identidades. Um medo que se manifesta no sucesso dos movimentos populistas e traduz a fragilização de indivíduos em geral não muito diplomados e com atividades econômicas na base da pirâmide social.

Esse processo se acelerou na década de 1990 e no começo do século 21, marcando a novidade de nossa época em relação aos anos 1960 e 1970, que não conheciam essa inquietação, que se apoiavam na fé no progresso, na crença de que poderíamos tratar dos grandes problemas pela política e pela tecnologia.

Um livro recente de Alain Finkielkraut, "A Identidade Infeliz", afirma que nossas sociedades são fraturadas e vivemos uma identidade diferente de épocas anteriores, quando os franceses, por exemplo, não tinham dúvidas sobre sua identidade. Hoje, o medo do estrangeiro nos domina.

Alain Finkielkraut é conferencista confirmado no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre. Conheça o filósofo.

O ressurgimento dessas questões não contrasta com sua descrição do hiperindividualismo contemporâneo?
O mundo "hiper", tanto na economia quanto no plano do indivíduo, se traduz por um tipo de frenesi de consumo e informação que demanda maior autonomia das pessoas, mas ao mesmo tempo nos fragiliza, porque liquida antigas formas de controle da sociabilidade pela tradição e pela religião. Tradição e religião não desaparecem, existem sempre, mas não são mais estruturantes, não nos dão mais força interior. As pessoas estão marcadas pela insegurança no trabalho e por conflitos pessoais, rupturas de casais etc.

Essa insegurança pessoal se difunde no coletivo. A individualização do modo de vida, a perda do poder da política e a globalização convergem para causar esse estado de insegurança. O mal-estar identitário que observamos é manifestação disso.

Esse mal-estar, que o sr. descreve como "ansiedade do hedonismo", precede a questão das identidades nacionais?
Exatamente. Desde o iluminismo do século 18, a ideologia do progresso, calcada na ideia do desenvolvimento da ciência, da técnica e da democracia, prometia mais razão, mais liberdade e mais bem-estar. Era a ideologia otimista da marcha da história.

O paradoxo é que temos cada vez mais ciência e tecnologia, democracias estáveis, mas isso não resultou no melhor dos mundos, mas num mundo inquieto, que se materializa, em primeiro lugar, no trabalho, porque a globalização neoliberal fez com que a competição seja planetária e a situação econômica possa mudar rapidamente. Não há mais estabilidade. É raro que seu ofício e sua empresa sejam os únicos durante toda sua existência.

Em segundo lugar há uma insegurança íntima e afetiva. A multiplicação dos divórcios, o dilaceramento dos casais e questões como a guarda dos filhos fazem com que as pessoas saibam, quando casam ou decidem viver juntas, que há uma probabilidade grande de que isso não dure para sempre.

Em terceiro lugar, há uma insegurança global que atinge a personalidade: depressões, estresse, ansiedade, consumo de psicotrópicos e tranquilizantes.

Há ainda uma quarta insegurança que é sanitária: quanto mais envelhecemos, quanto mais temos boa saúde, por meio de medicamentos e cirurgias eficazes, mais temos uma obsessão em relação à saúde. Quando as pessoas se reúnem, o tema da saúde se torna onipresente. Cuidados alimentares, epidemias, emissões de gases e aquecimento climático - temos medo de tudo, e isso se deve à onipresença da informação. Hoje, de modo permanente, as mídias dão informações sobre saúde e corpo -e isso é bom, mas, ao mesmo tempo, cria uma insegurança que, junto com as outras, se soma à insegurança identitária de que falei.

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Com a eleição de Trump, passou a circular a ideia de que vivemos na era da pós-verdade. O sr. concorda com isso?
O diagnóstico não está bem claro, não é a primeira vez que se difundem falsas informações. Nas democracias, a política está associada à competição e forçosamente implica seduzir a opinião pública ou atemorizá-la -e então se difundem informações falsas. O que parece novo é a amplitude com que as "fake news" se difundem pelas redes sociais, o fato de que agora essas notícias falsas são postadas por pessoas relativamente desconhecidas, que não têm responsabilidade política pelo que divulgam.

Isso tem impacto grave. Os britânicos votaram o Brexit a partir da informação de que haveria 350 milhões de libras enviadas semanalmente à União Europeia, mas esses números eram falsos. Depois, partidários do Brexit disseram "sim, nos enganamos", mas o estrago estava feito.

No caso de Trump, o fenômeno novo é ele ser capaz de dizer contra-verdades inacreditáveis e isso não perturbar ninguém. A novidade é que se pode dizer coisas falsas sem tomar precauções, como se não tivesse importância.

Trump elevou isso a uma escala inacreditável. Mas nele não há só "fake news", não é só pós-verdade. Ele mudou a retórica política. Fazia muito tempo que não víamos um político lançar injúrias indignas sobre minorias, mulheres, quebrando o superego político e as regras do bem falar de Washington.

Há risco novamente de associação da técnica com o totalitarismo, como no nazismo?
Hoje, muitos filósofos defendem a ideia de que a técnica se conjuga com o mercado para criar um universo totalitário. Digo que vivemos num mundo hipermoderno porque os limites da técnica não cessam de recuar, o universo técnico invade tudo. Antes, a religião e as tradições regulavam os problemas humanos; hoje, há "experts" científicos para tudo. Daí a ideia da onipresença tentacular da técnica nas relações do mundo contemporâneo.

O que pensar disso? A técnica é um vetor central da modernidade e da hipermodernidade. Mas há outros, notadamente o mundo político, democrático e individualista. Não é a mesma lógica. O mundo moderno é também o mundo de valores como igualdade e liberdade, não podemos eliminar pura e simplesmente os valores que inventaram a modernidade. Há um conflito entre o mundo da técnica e o dos valores. Mas as coisas não estão fixadas de uma vez por todas.

Fala-se de um novo totalitarismo, com novas formas de Big Brother que o caso Snowden colocou em relevo, mostrando como os americanos espionaram milhões graças a novas tecnologias. Ao mesmo tempo, isso provocou escândalo e demandas de controle. Quer dizer que o poder pode exigir regras para a vigilância. O mundo da técnica não tem regras, só conhece a eficácia, ao passo que a política e os ideais morais colocam barreiras. Nesse sentido, não estamos mais no mundo do totalitarismo.

Devemos trabalhar para que valores democráticos, humanistas, não sejam engolidos pela técnica. Não devemos nem demonizar a técnica, que nos traz muita coisa, nem fazer da técnica uma religião. Devemos ter uma relação política com a técnica e trabalhar para que as nações não sejam imobilizadas pela técnica.

Como garantir que valores humanistas não sejam engolidos pela técnica em países sem democracia e com carência educacional?
A democracia é uma jovem senhora, começou sua aventura no século 18. Nos países europeus e na América, foi preciso mais de um século para chegar a uma democracia estável. Nem todos os países estão nesse nível, mas isso não quer dizer que não poderão chegar nele. A história hipermoderna vai forçosamente desenvolver a escolarização. Eis uma razão para não ser totalmente pessimista: o universo da tecnociência apela ao desenvolvimento da inteligência e da escolarização. É inevitável.

>> Entrevista originalmente publicada no Especial Fronteiras do Pensamento na Folha de S.Paulo. Acesse os conteúdos e conheça os conferencistas desta temporada.