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Ian McEwan: sobre crenças e linguagem

Steven Pinker e Ian McEwan (foto: John Sutera/PEN American Center)
Steven Pinker e Ian McEwan (foto: John Sutera/PEN American Center)

Ian McEwan é um grande admirador do trabalho de Richard Dawkins e foi o autor da coluna sobre a obra O Gene Egoísta, quando esta completou 30 anos, em 2006. No mesmo ano, Dawkins convidou McEwan para que o escritor participasse do documentário The Root of All Evil?, escrito e apresentado por Dawkins. O filme gerou horas e horas de entrevistas, que não constaram integralmente na edição final e a Richard Dawkins Foundation publicou este material no YouTube e nós o compartilhamos aqui.

A relação de admiração também aparece entre Steven Pinker e McEwan. “Steven Pinker é um desses cientistas extraordinários que sabem atrair a atenção dos leigos. Um dos grandes prazeres de ler seus livros é entrar nos processos de pensamento de um homem de extrema fluência", afirma o escritor britânico. Em 2007, ambos se encontraram no Festival de Literatura de Cheltenham (Reino Unido) para debater aquilo de que mais entendem, embora de pontos de vista diferentes: a linguagem. Leia abaixo um excerto de cada vídeo e assista aos materiais na íntegra:

>> RICHARD DAWKINS E IAN MCEWAN: ENTREVISTA SOBRE CRENÇAS

Dawkins: Quais são suas crenças atuais?
McEwan:
Creio que meu ponto de partida é que o cérebro é o responsável pela consciência. E mesmo que saibamos tão pouco, ainda, sobre como este cinema interno se cria, podemos ter razoável certeza de que, quando o cérebro parar de existir, quando se desfizer, se decompor, será o fim.

A partir disso, muitas coisas se seguem, especialmente, em termos morais. Nós somos privilegiados proprietários de uma breve centelha de consciência. Ela provavelmente surgiu por acidente, é um dom maravilhoso que não existe em qualquer outro lugar, não há ninguém lá em cima, este é o nosso único tempo: por isso, temos que ter responsabilidade por ele. Responsabilidade por nós mesmos e responsabilidade pelos outros.

Em outras palavras, creio que uma visão ateísta de vida lhe coloca muitos limites. Você não pode confiar, como cristãos ou muçulmanos, em um mundo noutro lugar, em um paraíso cujo caminho até ele possa ser construído, talvez fazendo sacrifícios, principalmente sacrificando outras pessoas.

Da mesma forma, não creio em paraísos na terra, como o Estado marxista utópico, pelo qual também coisas terríveis aconteceram. Quando as pessoas acreditam que há esta utopia a ser conquistada, então, é perfeitamente racional matar milhões para chegar lá, para que o resto da humanidade seja feliz para sempre.

Existe um importante centro moral em crer que é apenas isso, isso é apenas o que temos, esta vida, que devemos fazer o máximo que pudermos pelos outros e por nós mesmos.


>> STEVEN PINKER E IAN MCEWAN: BATE-PAPO SOBRE LINGUAGEM

Ian McEwan: Caso reste alguma dúvida nesta sala sobre a extraordinária importância e as consequências da semântica, poderíamos tomar apenas mais um exemplo. Trata-se daquele com que você inicia seu livro, referente à destruição das Torres Gêmeas em 11/9/2001: saber se foi um evento ou dois. Muito dinheiro dependia dessa decisão, e a semântica foi crucial para as vastas somas de dinheiro pagas por uma seguradora...
Steven Pinker: Três bilhões e meio de dólares estavam em jogo. O locatário do World Trade Center tinha uma apólice de seguro que lhe dava direito a US$ 3,5 bilhões por evento destrutivo. Durante muitos anos, numa série de julgamentos dispendiosos, os advogados discutiram se o que aconteceu no 11 de Setembro foi um evento - porque um único plano foi executado- ou dois eventos -porque dois edifícios diferentes foram atingidos.

Nesse caso, o modo como embalamos o fluxo de tempo nessas unidades que chamamos de "eventos" foi o pomo da discórdia. É outro exemplo de como tomamos os acontecimentos no tempo e de como aplicamos a mesma atitude mental que aplicamos aos objetos no espaço. Todos os conceitos que aplicamos aos objetos -por exemplo, a diferença entre conceitos genéricos como "cerveja" e quantidades distintas específicas como "mais uma cerveja"- se aplicam ao tempo.