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Jan Gehl: "A boa arquitetura é sobre a interação entre a vida e a forma"

(ilustração: gehlpeople.com)
(ilustração: gehlpeople.com)

Durante 40 anos, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl estudou o comportamento humano nas cidades. Seu ponto de partida foi o que ele chamou de A vida entre edifícios: “Primeiro a vida, depois espaços públicos, só então edifícios – o inverso nunca funciona."

Este trabalho deu origem à sua obra homônima, uma referência na arquitetura mundial. A curiosidade pela vida que existe entre os edifícios o levou a estudar a forma como os seres humanos usam as ruas, como caminham, olham, conhecem, interagem – é a chamada escala humana, cidades projetadas não para serem vistas do céu, com silhueta recortada no horizonte, mas vividas e admiradas a partir da rua, pensadas para a pessoa que caminha.

Em entrevista ao projeto DutchDesign, Gehl fala sobre os princípios que o norteiam e que o fizeram um dos profissionais mais reconhecidos na arquitetura, por sua capacidade de transformar a vida por meio da qualificação dos espaços urbanos.

O ESTUDO DA VIDA HUMANA

Quando olho para o campo de trabalho sobre o qual me debrucei e para quem mais trabalhou nele pelos últimos 40 anos, posso contar cerca de oito ou dez pessoas que se dedicaram e concluíram seus estudos. É surpreendente que a vida dos habitantes urbanos, dos homo sapiens, seja pesquisada de maneira tão ineficiente comparada à dos gorilas nas montanhas, dos tigres de bengala, dos pandas na China.

Diariamente, vemos programas na televisão sobre a vida selvagem e raramente vemos algo sobre o comportamento do ser humano e dos habitantes urbanos, sobre o que é bom para eles. Todos nós achamos que sabemos muito sobre o ser humano e sua vida urbana, então, deixamos de pesquisar a respeito disso. E porque achamos que sabemos, esquecemos o tempo todo. Existem locais aqui em Copenhagen, por exemplo, em que esquecemos completamente sobre o que é bom para o homo sapiens, e pensamos apenas naquilo que pode ser bom para os arquitetos, algo que é completamente outra história.

A SÍNDROME DE BRASÍLIA

Neste livro, que contém basicamente tudo que aprendi em quatro ou cinco décadas trabalhando nisso, olhei diretamente para o passado, para os dias de Jane Jacobs, quando houve esta grande mudança de paradigma.
- tivemos que construir cidades com muita rapidez ou expandi-las com muita rapidez
- a chegada do grande número de automóveis

Estas duas coisas juntas geraram uma imensa mudança de paradigma. Subitamente, em vez de construir cidades a partir de pessoas, em direção aos espaços e em direção aos prédios, os planejadores começaram a subir em aviões e sobrevoar e, quando um local parecia adequado visto lá de cima, o projeto era executado. Ninguém tinha os detalhes para garantir que havia uma boa cidade lá embaixo. Tudo isso começou de uma maneira muito equivocada em torno de 1960.

Chamei esta mudança, no livro Cidades para pessoas, de A síndrome de Brasília, em que uma cidade parece adequada vista do avião ou do helicóptero, mas lá embaixo, entre os prédios, é muito ruim. Ninguém dispensou qualquer atenção para isso e ninguém percebeu como isso era importante.

A BOA ARQUITETURA

A boa arquitetura não é sobre a forma, é sobre a interação entre a vida e a forma. O problema é que a vida é muito difícil de estudar e a interação tem inúmeras complicações. Por estes motivos óbvios, a forma está no centro de todas as faculdades de Arquitetura que eu já estive e a vida foi praticamente esquecida. A interação é algo sobre o qual quase não se fala.

Eu fui treinado para ser um modernista, mas, anos após minha graduação, me casei com uma psicóloga, que tinha muitas opiniões sobre como arquitetos não se interessavam pelos seres humanos – o que era muito verdadeiro. Isso, evidentemente, despertou meu interesse e comecei a estudar a interação. Minha carreira está baseada na interação e estou muito sozinho neste campo, o que é bom para minha empresa, porque não temos concorrentes no mundo, ninguém faz o que fazemos: cuidamos da escala humana com uma base de 40 anos de pesquisa.