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Karen Armstrong: “O melhor da religião aparece quando ela se opõe à injustiça de Estado”

Ilustração: Peter Licko
Ilustração: Peter Licko

Muitas pessoas definem uma linha bastante nítida entre a espiritualidade e o plano racional. A própria separação entre estado e religião, amplamente defendida na maior parte dos países do mundo, tem base na concepção da religião como um fenômeno desvinculado da racionalidade. Seguindo essa lógica de pensamento, discutir ou pensar a religião em diálogo com a política parece não fazer muito sentido.

A escritora e historiadora britânica Karen Armstrong quebra esses paradigmas ao desenvolver um entendimento complexo e elaborado sobre as relações entre Estado e religião nos contextos de guerra ao longo da história. Para Armstrong, a base dessas relações está na preocupação com o sofrimento humano. O quanto a política e a religião não são duas formas distintas de lidar com a injustiça e as dores do homem?

O livro mais recente da inglesa, Campos de Sangue – Religião e História da Violência, publicado no Brasil em 2016, trata dessas questões. A obra resultou de mais de uma década de pesquisas sobre o judaísmo, o islã e o cristianismo.

Em entrevista ao Estadão, Karen Armstrong argumentou sobre essas questões, defendendo que uma das origens do extremismo religioso se encontra na secularização agressiva de determinadas nações.

Karen Armstrong ministrou a conferência “O que é religião?” no Fronteiras do Pensamento 2013. Confira abaixo a entrevista na íntegra!


Em Campos de Sangue, a sra. refuta a ideia de que a religião foi a principal causa das guerras e do terrorismo. Por que existe esse entendimento?

O mito da violência religiosa surgiu na Europa e na América do Norte no início da era moderna. Filósofos, como Thomas Hobbes e John Locke, e estadistas, como Thomas Jefferson e James Madison, estavam convencidos de que as Guerras Religiosas, nos séculos 16 e 17, nas quais pereceu um terço da população da Europa central, foram provocadas por disputas religiosas, e concluíram que a religião deveria ser excluída da vida pública. Embora as paixões religiosas estivessem envolvidas nesses conflitos, se o motivo fosse só essas divergências, não poderíamos encontrar católicos e protestantes do mesmo lado. Mas isso ocorria. Sempre vamos à guerra por múltiplas razões: econômicas, territoriais, políticas, ideológicas. As Guerras Religiosas eclodiram entre dois tipos de fundadores de Estados: os imperadores da Casa de Habsburgo, cujo objetivo era criar um império europeu como o otomano, e os príncipes alemães, que queriam criar fortes Estados soberanos no modelo de França e Grã-Bretanha – estes últimos prevaleceram. Nesses novos Estados o rei devia controlar o reino todo, e isso significava subjugar a Igreja, que passou a integrar esses Estados de mentalidade expansionista. Assim, o mito da violência religiosa está no próprio mito fundador do Estado liberal, pois forneceu embasamento ideológico para uma política secularizada, que separa religião e política.

A sra. escreveu que hoje, com países sempre preparados para a violência, tudo se contamina por agressões. A religião pode escapar disso?

É preciso primeiro falar da nossa relação com a violência. Desde o início da civilização, guerras foram essenciais ao Estado. O Estado pré-moderno, com economia baseada em produtos agrícolas excedentes, exigia reduzida aristocracia, não mais de 5% da população. O resto cultivava a terra, sofria o confisco, e era obrigado à vida de subsistência. Sem esse sistema injusto, contam os historiadores, o homem teria permanecido num estado primitivo, pois isso possibilitou o surgimento de uma classe privilegiada com tempo livre para criar artes e ciências das quais dependeu nosso progresso. Mas isso só poderia ser obtido pela força bruta. E a única maneira de o Estado agrário aumentar suas receitas era conquistar mais terras. A guerra se tornou necessária à economia. Esse sistema persistiu até o surgimento do Estado industrializado nos séculos 18 e 19, com a produção de armas mais avançadas. Hoje, nenhum Estado, por pacífico que seja, pode dissolver seu exército. Os atos violentos dos Estados modernos, sempre prontos a agredir, contaminam a religião, e não o contrário. Desde a antiguidade, profetas se manifestaram contra a injustiça do Estado agrário. Os Profetas de Israel, Jesus e o profeta Maomé denunciaram a desigualdade de um sistema que marginalizava. Nos tempos modernos, Gandhi, Luther King e a Teologia da Libertação se opuseram à opressão em nome da religião. O melhor da religião aparece quando ela se opõe à injustiça de Estado, e não está comprometida com a violência estrutural.

Com a secularização se tornou possível apontar a influência da religião nos atos violentos?

Ficou mais claro que o que chamamos de violência religiosa tem sempre motivação política. O Estado secular liberal foi produto do início da era moderna, no século 18. Data daí um novo conceito de religião no Ocidente, que a considerava uma busca pessoal, separada da vida pública. Mas essa foi uma inovação liberal. Até então a religião nunca havia sido concebida como atividade à parte, desvinculada da política. O sagrado estava em tudo. Termos usados em outras línguas que traduzimos como “religião”, como “din”, em árabe, referem-se a um modo de vida. Antes, até 1700, separar a religião da política seria impossível – como tirar o gim de um coquetel. Eram inextricavelmente unidas. E isso não ocorria porque as pessoas fossem estúpidas para distinguir, mas porque o sofrimento humano e a injustiça são assuntos de importância sagrada.

A sra. diz que as sociedades serão cada vez mais laicas. Como vê a evolução até aqui?

O secularismo é bom para a religião porque a liberta da violência inerente ao Estado. Mas é responsável pela horrível violência em sua breve história. Duas Guerras Mundiais foram lutadas não por religião, mas pelo nacionalismo secular. Houve o genocídio armênio, perpetrado pelos ateístas Jovens Turcos, e os Gulags de Stalin, de inspiração secular. O Holocausto mostrou as horríveis falhas do nacionalismo, com sua ênfase na etnia e cultura nacionais. E veja que, pelo menos, no Ocidente o secularismo foi conceito nosso. No mundo muçulmano ele foi imposto nos séculos 19 e 20, com crueldade, e caiu em descrédito. A Irmandade Muçulmana se radicalizou quando o presidente Nasser mandou milhares a campos de concentração nos anos 50, por distribuírem panfletos religiosos. Nas prisões o secularismo era visto como grande mal, e o fundamentalismo sunita nasceu ali.

Qual o papel da religião nos atentados do Estado Islâmico em Paris ou em Bruxelas?

De novo, uma combinação de política e religião. Os líderes do Estado Islâmico eram todos generais no exército disperso de Saddam Hussein. Eles são seculares, baathistas socialistas. No caso do Estado Islâmico, observamos a pior forma de secularismo e religiosidade depravada.

É mais comum a interpretação equivocada dos livros sagrados, pelo viés da violência?

Como a política é sempre um elemento que faz parte do terrorismo articulado na religião, é fácil encontrar justificativas nas escrituras. A palavra jihad e derivados ocorre só 47 vezes no Alcorão, e só em 10 ela se refere à guerra. Muitos dos jihadistas têm conhecimento limitado do Alcorão. Dois jovens que deixaram a Grã-Bretanha para combater na Síria em 2014 encomendaram o livro Alcorão for Dummies. Isso me preocupa, então estou escrevendo um livro sobre a interpretação dos textos sagrados em todas as religiões. Hoje lemos as escrituras com um literalismo e estupidez sem precedentes.

Líderes religiosos podem minimizar a violência?

Sim, mas será preciso um ressurgimento. Pois, com a secularização agressiva, os clérigos regulares, que conhecem a complexidade do islã, foram marginalizados. Ficou um vazio espiritual, os muçulmanos foram privados da orientação instruída e incultos como Bin Laden se aproveitaram. Todo clérigo influente no mundo muçulmano, liberal ou salafista, denunciou energicamente o Estado Islâmico. E clérigos importantes condenaram o 11 de setembro.

A sra. fala de religião como instrumento pela paz. Quais exemplos podem inspirar nossa sociedade?

Vou citar um. Em hebraico, a palavra traduzida como “amor” é “hesed”: lealdade. Não significava amor emocional. Era um termo legal usado em tratados internacionais: dois reis, antes inimigos, prometeriam “amar-se” reciprocamente. Ou seja, se ajudariam, de forma prática, nas dificuldades. É esse amor que devemos dar aos chamados inimigos, por um mundo pacífico.

Qual sua opinião sobre o papa Francisco?

Sou grande fã. Ele é um mestre do gesto, que fala de forma muito mais eloquente do que as doutas encíclicas. Mostra às pessoas como se comportar, em vez de dizer a elas o que pensar.

(Via Estadão)