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Leonardo Padura: “Histórias universais não precisam de tanta tecnologia”

Ilustração: René Portocarrero
Ilustração: René Portocarrero

Cuba, país carregado de simbologias que vão além de seus elementos culturais essenciais, definitivamente não é um consenso. Política, social e economicamente, o país é usado como exemplo para o bem e para o mal, e causa um certo fascínio curioso até mesmo para quem não concorda com muito do que acontece lá. 

Leonardo Padura, prestigiado escritor cubano, ganhou notoriedade por seus romances policiais. Em 2016, o autor - que ainda vive na capital de Cuba - teve a tetralogia da década de 1990 Estações Havana publicada pela primeira vez no Brasil. Também no ano passado, foi lançada uma série baseada em sua obra, composta por quatro episódios - um para cada livro - e intitulada Quatro Estações em Havana. O roteiro da obra cinematográfica foi escrito pelo próprio Padura, e por sua esposa Lucía López Coll. 

A história e a realidade de Cuba ganham, assim, uma representação de acordo com a visão de um de seus cidadãos mais engajados na literatura cubana. O resto da população mundial, que enxerga o país com a mediação de diversos estereótipos e ideias pré-concebidas, pode se identificar de alguma forma com personagens de um contexto sócio-cultural diferente do próprio. 

Em entrevista concedida ao jornal O Globo, Padura fala sobre a experiência de participar da escrita e produção da série, sobre a universalidade de certas histórias e sobre a realidade atual de seu país. Leia abaixo o material na íntegra!

Padura é conferencista do Fronteiras do Pensamento 2017. O escritor fala no mês de agosto em São Paulo e Porto Alegre.


Com tantas tramas policiais que ostentam tecnologia, por que ver uma tão clássica?

Os romances foram escritos nos anos 1990 e até hoje são traduzidos para novos idiomas. São livros que têm uma permanência. Acredito que a chave desta permanência também foi passada à série. A partir dos livros e das telas, qualquer um agora pode mergulhar em um mundo tão peculiar quanto Cuba, e de uma perspectiva universal. 

Em que sentido?

Essas histórias não se limitam à circunstância cubana, porque também falam de temas como o medo, a corrupção, a ambição, toda essa parte obscura da condição humana. E, para abordar histórias universais, não precisamos de tanta tecnologia. Muitos desses temas já nos falavam os gregos há 25 séculos! Não tenho dúvidas de que a série tem nível estético alto e que como produto cinematográfico pode competir com este tremendo mercado de cinema noir. 

Outra chave é o detetive Mario Conde, o seu Sherlock Holmes...

Sem dúvida. Mario Conde é quem dá caráter a essas histórias. Não é um super-herói, é uma pessoa normal, mais perdedor do que vencedor. Tem sensibilidade e cultura, o que causa empatia. 

Quais exigências você fez ao diretor da série, o espanhol Félix Viscarret, na adaptação?

Não queríamos competir em cenas de ação e violência com outras séries habituais. Teríamos de localizar esta história num contexto cubano, com uma luz adequada, uma certa atitude dos personagens, e Félix entendeu. O contexto urbano é um dos protagonistas desta história. Desde os lugares mais degradados até os mais desgraçadamente luxuosos. Nos últimos anos, filmou-se apenas a parte degradada de Havana, numa “estética da ruína”. E nós queríamos ir além disso, porque é a primeira vez que um thriller cubano alcança o circuito mundial de distribuição. 

E como reescrever uma história que, originalmente, se passa na Cuba de 1989?

Tivemos de adaptar o roteiro para uma data indefinida nos anos 1990. Em 1989, só havia automóveis soviéticos em Havana. Seria muito difícil filmar este cenário. A cidade mudou muito depois do fim da União Soviética. Mas também não queríamos que estivesse muito próxima do presente, para manter detalhes dessa estética: eu queria que, quando Conde falasse ao telefone, fosse num aparelho de disco. Como escritor de policiais, estou muito mais próximo de um estilo noir mais social. No noir social, todo elemento da investigação está posto em função da história humana e do conflito social que se está refletindo. O “quem-matou-quem” nunca me importou. O que me importa é que através da história de um crime seja possível refletir uma sociedade tão complexa como a cubana. 

Por isso te interessam mais os policiais de países periféricos?

Sim. O tipo de literatura que escrevo está mais próximo de autores de países periféricos do que dos de países da grande tradição policial, como Inglaterra, Estados Unidos, França. Autores como o italiano Leonardo Sciascia, o brasileiro Rubem Fonseca, o espanhol Manuel Montalbán, o sueco Henning Mankell, o grego Petros Markaris. Esta literatura tem uma grande virtude: é muito mais literária do que policial. Ela “rompe” com o tema. 

Como é ver Mario Conde, personagem que o acompanha há 25 anos, materializado?

É uma sensação muito estranha. O ator, o cubano Jorge Perugorría, encarnou muito bem o Mario Conde. No processo da escrita, tudo o que você constrói, o faz com palavras. O som da palavra, o significado das palavras, o ritmo das palavras, isso é o mais importante na literatura. No cinema, o mais importante é a imagem. Conan Doyle disse que nunca colocou aquela boina no Sherlock Holmes. E você consegue imaginar o personagem sem ela? 

O detetive Mario Conde investigaria a morte de Fidel?

(Risos). Realmente não sei. Com Mario Conde, me interessa entrar num mundo em que o que acontece na escala humana seja o mais importante. E o caso de Fidel tem outra dimensão. É uma dimensão quase mítica, não seria um tema em que creio que Conde pudesse fazer um bom trabalho. É um personagem muito complexo, um grande personagem com grandes contradições. 

A série desmascara os clichês de Cuba?

Estou confiante que haja uma reflexão favorável. Se for suficientemente universal, e escapar do local como obstáculo, creio que se pode chegar a espectadores distintos, no Japão, no Quênia, na Índia.

A natureza dos crimes mudou hoje em dia?

Creio que sim. As sociedades modernas estão muito mais violentas. A corrupção, o narcotráfico, o terrorismo, que já existiam, têm um peso muito maior hoje. É um fenômeno universal. E o potencial disso é terrível: o aumento da sensação de medo. Muita gente vive com medo hoje no mundo. Neste sentido, Cuba é um oásis, porque você vive aqui com relativa tranquilidade. 

Como encontra suas histórias policiais?

É como um treino de vida: saber que cada conversa que escuta é algo que te alimenta. Pode ser que use na literatura ou no jornalismo, ou que nunca use, mas é algo que se incorpora. Escuto muito o que falam as pessoas. O que é um problema, também. Hemingway dizia: cada vez que um escritor avança na carreira, vai ficando mais sozinho. Cada vez dedico mais horas ao trabalho, e me afasto da vida cotidiana. Mas sou cubano e até hoje vivo onde nasci. Bastam dez minutos de conversa para que uma pessoa nos conte toda a sua vida.

Como observador, como você diria que a juventude está vendo esta mudança em Cuba?

Houve muitas mudanças nos últimos 20 anos, não só em Cuba, no mundo inteiro. A globalização, querendo ou não, existe, e a evolução digital, querendo ou não também, nos afeta a todos. Não gosto de criticar as gerações mais novas se elas preferem as telas do celular às páginas de um livro. As gerações anteriores nos criticaram também. Cada geração merece ter seu espaço. 

Os espectadores cubanos verão a série?

É a grande pergunta. Não sei quando os cubanos poderão vê-la por canais normais. A série circula pelo “El paquete”, ou seja, via pen drive. Muita gente está vendo assim. Eu mesmo não consegui ver tudo quando estreou, só recentemente, numa viagem à Espanha.

(Via O Globo)