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“Eu me preocupo com o futuro da paz na Europa”, diz Nobel de Economia

Ilustração: Jasper Rietman
Ilustração: Jasper Rietman

Quando pensamos em construir uma sociedade melhor e mais justa, há muitos valores que são parte do senso comum, e teoricamente representam desejos de todos nós. Tais anseios podem ser sintetizados na busca por um mundo com mais oportunidades e melhores condições de vida para todos. Onde não haja fome, violência e sofrimento. No entanto, os caminhos para chegar lá são longos e complexos, e definitivamente não são consenso.

O economista norte-americano Eric Maskin, Prêmio Nobel de Economia de 2007 - juntamente com Leonid Hurwicz e Roger Myerson - traz alguns elementos importantes para traçar estes caminhos. Destacando a relevância de se ter a educação como prioridade em termos orçamentários e reconhecendo os efeitos de desigualdade gerados pela globalização, Maskin fala sobre o Brexit, os programas sociais brasileiros e o presidente norte-americano Donald Trump, em entrevista ao jornal O Globo.

Eric Maskin é professor da Universidade de Harvard e autor de trabalhos que serviram como base para estudos de organizações industriais, financeiras e para outros campos das ciências econômicas e políticas.

O economista foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2009.


O senhor foi um dos economistas laureados com o Nobel que se posicionou publicamente contra o Brexit. Diante do resultado, quais os maiores riscos?

Na economia, o maior risco é um retorno para as elevadas tarifas e para as restrições no comércio e no mercado de trabalho, o que é ruim para todos. Mas também há os riscos políticos. Uma razão para a Europa estar em paz há quase 70 anos é a cooperação econômica. No momento em que o Reino Unido sai da União Europeia, outros países podem decidir sair também e pode se imaginar até uma desintegração da União Europeia. Ninguém sabe. Certamente é um passo na direção errada. Eu me preocupo com o futuro da paz na Europa se isso ocorrer. Historicamente, a Europa tem sido o continente mais violento no mundo. A ideia de um período de 70 anos sem guerra é uma novidade e está ligada ao fato de existir tanta cooperação agora. Se essa cooperação se deteriorar, ninguém sabe o que vai ocorrer.

É uma ameaça à globalização?

É uma ameaça à globalização e é uma grande pena. Apesar das reclamações sobre a globalização, ela tem sido um instrumento poderoso para levar prosperidade aos países em desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, se beneficiou enormemente da globalização, assim como a China. É verdade que há elevada desigualdade nesses países. Mas é possível lidar com a desigualdade sem eliminar a globalização. Você deve ter programas contra desigualdade ao lado da globalização para neutralizar a desigualdade que ela pode criar. O Brexit certamente coloca a globalização em risco.

Como os trabalhadores são afetados?

A globalização tende a criar mais desigualdades entre os trabalhadores dos países em desenvolvimento. Os trabalhadores mais capacitados são os que conseguem as novas vagas criadas pela globalização, e aqueles sem habilidades ficam para trás. Então o intervalo entre eles cresce. Isso é verdade. Mas a maneira de atacar o problema não é atacar a globalização, mas dar aos trabalhadores menos capacitados mais treinamento e educação para que possam competir no mercado de trabalho global também. O Brasil agiu nessa direção. O Brasil tem um programa de transferência condicional de renda de muito sucesso em que famílias pobres recebem subsídio se concordarem em enviar seus filhos para a escola. O sucesso ocorre não apenas porque ganham maior renda, mas porque as crianças são educadas e podem ganhar mais por elas mesmas. O programa é muito importante para enfrentar a desigualdade.

Mas o Brasil enfrenta um grande problema fiscal. Como isso pode afetar?

Entendo que quando há um problema fiscal é preciso equilibrar o orçamento de alguma forma, mas acho que é um grande erro reduzir gastos em educação. Educação é um importante investimento para o futuro: há outras coisas com prioridade mais baixa. Educação deve ser a prioridade porque é importante para lutar contra a desigualdade, mas também porque a população é o ativo mais importante de um país. E a educação é a melhor maneira de dar às pessoas a oportunidade de ter sucesso por elas mesmas.

Muitos ligam o fenômeno do Brexit e a popularidade de Donald Trump à desigualdade. Como vê isso?

É verdade. Mas eu acho que o problema não é tanto a desigualdade, mas o fato de que os salários para a classe média estão estagnados há muito tempo. E uma grande razão para isso é a crise financeira de 2008/2009 e a profunda recessão que se seguiu a ela. O grande problema é que tivemos uma profunda recessão e ainda não nos recuperamos dela. E muitos que estão sofrendo com essa recessão confundem suas críticas. Eles acham que é por causa da globalização, da imigração, mas é na verdade a consequência de uma recessão muito profunda. De certa forma, Donald Trump é uma fraude porque ele dá a explicação errada para o sofrimento das pessoas. É inegável que as pessoas estão sofrendo, mas a razão não é a que ele dá. Não é por causa da imigração. Não é por causa de acordos de comércio ruins.

(Via O Globo)