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Leymah Gbowee: As mulheres da política são julgadas mais duramente do que os homens

Crédito: Doug Linstedt | Unsplash
Crédito: Doug Linstedt | Unsplash

Leymah Gbowee, ganhadora do prêmio Nobel da paz em 2011 e conferencista da temporada 2013 do Fronteiras Braskem do Pensamento, concedeu entrevista ao jornalista Ebong Udoma, da Radio WSHU.

Ela falou ao jornalista sobre o seu ativismo político na Libéria, sobre unir pessoas de diferentes religiões em objetivos comuns, o final do conflito civil na Colômbia e o papel dos jovens, especialmente as mulheres jovens, na construção de um mundo melhor.

A temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento ainda trará ao Teatro Castro Alves a ativista e política moçambicana Graça Machel (5/9). MAS ATENÇÃO: os ingressos são limitados, garanta já o seu!

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Leymah, você ganhou o prêmio Nobel pelo seu trabalho para unir cristãos e muçulmanos na segunda guerra civil da Libéria. Naquela ocasião, quais eram os obstáculos?

Durante a guerra, todos se recusavam a ideia de que, a fora as divisões políticas e étnicas, a religião tinha um papel fundamental no estado em que nos encontrávamos como um povo. Entretanto, com o tempo viemos a entender que as facções em guerra surgiam devido ou ao grupo étnico, ou as diferenças religiosas.

Então, quando decidimos entrar em ação, quisemos fazer algo que era completamente inclusivo – mulheres de diferentes grupos econômicos, étnicos, políticos, geográficos e, também, religiosos.

 

Qual a proporção entre cristãos e muçulmanos na Libéria?

Algo por volta de 51% e 49% ou 52% e 48%.

 

Então é bem dividido?

É dividido bem igualmente. Entretanto, quando decidimos entrar em ação, as pessoas de diferentes grupos étnicos conseguiam facilmente se encontrar e conversar sobre nossas diferenças. No que se refere as diferentes religiões, elas diziam que não havia problema. E você sabe que uma forma de resolver um problema é assumir que ele existe. Quando as pessoas estão em um estado de negação, fica difícil. Então, quando trabalhamos com mulheres cristãs e muçulmanas, tentar mobilizá-las ao redor da fé era a parte mais difícil.

Mas assim que começamos a nos reunir, foi fácil para nós começar a identificar os problemas que haviam. Depois que nos unimos, não nos focamos mais nas diferenças religiosas, e procuramos mais identificar o que nos unia. As coisas que tínhamos em comum, e o fato de que todas éramos mulheres.

 

Isso me leva a perguntar sobre o que temos visto nos Estados Unidos com a tentativa de fechar as fronteiras para os muçulmanos por parte do governo. Como a sua experiência na Libéria se compara com o que está ocorrendo nos EUA hoje?

Primeiramente, segundo as ideias do Dalai Lama e do Arcebispo Desmond Tutu, as diferenças básicas das religiões são o nome, a maneira que rezamos e veneramos. Mas se você observar os princípios e valores, especialmente no que tange paz, vidas humanas e tudo que damos valor, elas são iguais – ame o seu semelhante como a si próprio, tome conta dos fracos, órfãos, viúvas e assim por diante. E penso que essa hoje é a mensagem que precisamos disseminar. Então que nosso foco não seja se somos hindus, budistas, cristãos ou muçulmanos, mas na humanidade que compartilhamos.

 

Vamos falar de algo que gerou bastante controvérsia quando você esteve envolvida no movimento para trazer paz na Libéria. O que ganhou notoriedade nacional foi a greve de sexo. Você já afirmou que isso teve pouco ou nenhum efeito prático nos homens, mas que foi extremamente valioso para conseguir a atenção da mídia.

Quando falamos que íamos fazer greve de sexo, honestamente não estávamos pensando na mídia. Nosso objetivo era chamar a atenção dos homens da Libéria, mesmo não sendo combatentes, mas conhecendo combatentes, que precisávamos conversar, pois eles precisam entender as razões para terminar a guerra.

Mas quando aconteceu, toda aquela atenção da imprensa que antes não estávamos tendo nos mostrou que isso era, na verdade, uma excelente ferramenta para divulgar nossa causa.  Penso que no mundo que vivemos, por mais injusto que isso possa ser, a mídia só vai dar atenção a coisas que sejam de natureza sexual ou violenta. A paz não vende jornais como a guerra, assassinatos, sexo, estupro e abuso.

 

Hoje o seu objetivo é empoderar as mulheres da Libéria e da África, aliás, você acaba de celebrar o quinto aniversário da Fundação GBowee. No que vocês estão tendo sucesso?

Em cinco anos, arrecadamos 1,2 milhões de dólares em doações. Pagamos os estudos de 100 estudantes em sete países. Hoje impactamos as vidas de 2.500 estudantes na Libéria – e indiretamente dezenas de milhares. Mas a beleza para mim não está nos dólares, no sentido do que pudemos gastar, a beleza está no número de jovens mulheres que agora tem um futuro melhor do que antes.

 

Você acaba de vir de Bogotá, na Colômbia, onde finalmente eles chegaram a um acordo de paz depois de décadas de guerra civil, e você falou que os colombianos deveriam manter vigia no trabalho do seu presidente. O que você quis dizer com isso?

O presidente Santos ganhou o prêmio Nobel. Ele é o presidente de uma Colômbia em processo de paz. Ele está na frente disso. Eles manterem vigia significa ter certeza que não haverá obstáculos em seu processo e que ele vai continuar ocorrendo e que todos os recursos necessários estarão disponíveis, incluindo o seu tempo e energia.

 

Vamos falar da Libéria novamente. No dia 16 de janeiro de 2018, a presidente Ellen Johnson Sirleaf terminará o seu segundo mandato. Ela foi a primeira mulher eleita presidente no continente africano. O que você pensa que isso significa para o empoderamento feminino na África?

Acima de tudo, a eleição da presidente Sirleaf fez com que toda uma geração de mulheres jovens na Libéria possa se olhar no espelho e dizer “se ela conseguiu, eu também vou conseguir”. Não estou falando especificamente de se tornar presidente, mas de ser atingir os objetivos que desejam.

O outro lado disso é que as mulheres da política são julgadas mais duramente do que os homens. E a presidente Sirleaf fez o que pode pela Libéria. Como você sabe, nos desentendemos. Eu gostaria que ela tivesse tido apenas um mandato. Um mandato teria colocado a Libéria em curso para reabilitação e reconciliação. Eu disse recentemente que teria a transformado em uma versão feminina de Nelson Mandela.

Mas fazer um segundo mandato, dar cargos públicos para seus filhos, fez as pessoas olharem para ela de outra forma. Isso não apenas diminuiu sua influência, como levou todas nós – as mulheres da Libéria que pretendem ser líderes no futuro – a um momento em que os homens começam a se perguntar porque deveriam nos conceder o poder. Então o trabalho de apenas uma mulher está sendo usado para avaliar as lideranças femininas futuras no país.

 

Você esteve nos EUA para a convenção PeaceJam, da Universidade Estadual de Connecticut. Qual a importância de estar aqui para você?

Como você sabe, ganhei o prêmio Nobel aos 39 anos. Me perguntaram qual era o legado que eu queria deixar. Eu achava que ter ganho o prêmio já era um legado, mas minha equipe me mostrou que se eu tivesse ganho o prêmio aos 79 anos, eu já teria tido toda uma trajetória e poderia parar, mas aos 39? Pensei muito nisso e percebi que duas coisas que estavam faltando para mim eram trabalhar com jovens, educação e liderança. Então iniciei essa jornada.

Ir em convenções com jovens me ajuda a alcançar o objetivo de inspirar os jovens a serem tudo aquilo que desejam. Então trago a minha experiencia de vida, sem teorias, mas quem eu sou na prática.

Para mim, os jovens são a próxima geração. Estive em Nova York recentemente e me perguntaram como eu fazia para dar voz aos jovens. Respondi que nós estamos ensinando as mulheres desde bem jovens que elas são importantes. Não era como nos anos 1930, quando as mulheres eram criadas para serem vistas e não ouvidas. Hoje as ensinamos a serem vistas, ouvidas e que falem o que pensam em voz alta. Desde que são bebês até a maioridade, essa mensagem é reforçada. Então elas entram no mundo adulto, vão para a faculdade e encontram um mundo ainda patriarcal. Os homens não querem saber de mulheres intelectuais, mulheres que falam o que pensam são julgadas, e assim por diante.

E o questionamento que eu coloquei para aquele grupo era como fazer para ajudar nossas jovens depois da maioridade. Penso que meu papel atualmente, nesta ou em outras convenções, é conversar com jovens sobre como é o mundo adulto. Não a bolha na qual elas viviam na escola e na casa dos pais. O mundo adulto vai desafiar os valores com os quais os jovens foram socializados. Como defender o seu ponto de vista? Acredito que podemos ajudar as jovens a entenderem que nós vamos conseguir mudar o mundo. Isso é a primeira parte da importância de estar aqui.

A segunda parte da importância de eu estar aqui é me manter jovem, me manter focada. Tenho o privilégio de ir a diversos países, e nas sedes da ONU e da EU e conversar com líderes globais. Que mensagem eu quero passar para reles? É a mensagem que vem da mídia ou das vozes das jovens? Para mim, a importância disso é que me mantém humilde e autêntica. Pois ao interagir com os jovens, posso dizer que é com eles que eu trabalho, que são as suas vozes que eu represento na ONU para falar sobre a questão do empoderamento da juventude. Então é muito importante para mim. Se eu deixasse de ir a esses eventos e ficasse somente na minha comunidade, perderia a razão de ser.

Fonte: WSHU.org