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Manuel Castells: “Cada universidade deveria ser livre para inventar”

Ilustração: Eva Vázquez
Ilustração: Eva Vázquez

A era digital mudou nossas formas de consumo, a qualidade de nossa atenção, a capacidade de executarmos mais de uma atividade ao mesmo tempo, nossa relação com a informação e a maneira como aprendemos. Os estudos nessa área estão constantemente se desenvolvendo, assim como a tecnologia em si. Por isso mesmo, as instituições precisam ter especial engajamento na adaptação às mudanças.

Uma das categorias institucionais mais relevantes neste sentido é a educacional. Pode-se, para o sociólogo espanhol Manuel Castells, obter resultados muito satisfatórios na dinâmica da educação de um país se os potenciais da era da informação forem bem aproveitados. Estudioso sobre o impacto das redes sociais e da tecnologia nos diversos aspectos da sociedade, Castells é um dos intelectuais mais respeitados do mundo em sua área.

Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, leciona nas áreas de sociologia, comunicação e planejamento urbano e regional e pesquisador dos efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade em geral. Manuel Castells foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2013 e 2015.

Em entrevista ao jornal O Globo, o sociólogo fala sobre suas teorias aplicadas à área da educação, ressaltando a importância da mudança na própria formação e condições de trabalho dos professores para se explorar as possibilidades do mundo conectado. Leia abaixo a entrevista completa!


Em seus livros, há uma reflexão intensa sobre a sociedade estruturada em rede. Qual é o impacto dessa realidade na educação?

A sociedade em rede viabiliza focar ensino e aprendizagem na análise de informação para transformá-la em conhecimento e habilidade para estudantes de todos os níveis, aumentando sua autonomia e transformando os professores em líderes desse processo. Um pouco nos termos do método Paulo Freire, mas agora apoiado por uma tecnologia poderosa. Porém, os professores precisam de nova formação, não para o uso da internet, já que eles são usuários assíduos, mas em termos de que tipo de pedagogia seguir. Para isso, é necessária uma melhora na educação e nas condições de trabalho. Por outro lado, a escola precisa evoluir de um modelo autoritário para um participativo, com uma rede interativa entre professores, estudantes, administradores e pais. Essa é a reforma necessária para levar ao sistema escolar as promessas e possibilidades da sociedade em rede.

E como tudo isso influencia na estrutura das universidades?

As universidades se tornaram globalmente conectadas usando amplamente informação e tecnologia da comunicação. Internamente, os estudantes interagem constantemente entre si e com seus professores, compondo de fato uma comunidade virtual, ao mesmo tempo em que eles também interagem no mundo real, no campus e em sala de aula. Materiais necessários para ensino e pesquisa podem ser acessados on-line. Atualmente, 97% da informação no mundo está digitalizada e 80% está disponível na internet e em outras redes. Esse fenômeno levou ao rápido desenvolvimento de universidades virtuais, operando inteiramente em plataformas digitais, estendendo o alcance da educação superior para pessoas que já têm vida profissional ou não podem estar fisicamente presentes numa universidade. Mas, de certa forma, todas as universidades hoje em dia são parcialmente virtuais, já que todos os professores e estudantes estão interconectados, criando um ambiente híbrido composto por interações virtuais e na vida real.

Quais os obstáculos no caminho das principais funções das universidades?

As principais funções da universidade são: treinamento da força de trabalho; produção e distribuição de conhecimento; geração e difusão de valores sociais, seja para conservar valores tradicionais, seja para contribuir com mudanças culturais; e promoção de mobilidade social ao viabilizar educação de nível superior para as pessoas de classes menos abastadas terem chances de mobilidade em termos profissionais e intelectuais, mesmo não sendo parte de famílias influentes. Algumas dessas funções são difíceis de articular, como o conflito entre ensinar bem e publicar para os professores, a contradição entre mobilidade social para um grande número de pessoas e educação de qualidade restrita a uma pequena elite e o contraste entre o potencial das tecnologias de rede e a tradição de burocracias verticais como formato prevalecente das universidades.

Como essas dificuldades podem ser superadas?

Não existe uma receita de bolo para superar essas diferenças, cada universidade deveria gerenciar seus próprios processos e ser livre para inventar. Isso requer verdadeira autonomia para as universidades, sem a interferência de governantes. Os governos deveriam fornecer verba de acordo com as necessidades da sociedade, mas as universidades decidiriam por elas próprias como usar esses recursos. Porém, a verba seria distribuída segundo o cumprimento de metas estabelecidas pela sociedade, não pelo mercado. Essa avaliação incluiria não só excelência acadêmica, como também qualidade de ensino e promoção social para todos, abrindo a universidade para os menos privilegiados.

Quais os pontos positivos e negativos do modelo de universidade adotado no Brasil? O que o senhor acha que precisa ser melhorado?

Meu amigo Fernando Henrique Cardoso uma vez disse que o Brasil não é um país pobre, mas um país injusto. A mesma coisa se aplica às universidades. Apesar de algumas falhas burocráticas, as maiores universidades públicas do Brasil são comparáveis àquelas dos Estados Unidos e da Europa. A Universidade de São Paulo produz cerca de 40% dos artigos científicos da América Latina e é completamente conectada com redes de pesquisa globais e com as tendências de ideias que moldam o mundo do pensamento e da inovação. Pode-se dizer algo similar sobre várias das maiores universidades federais, e elas são relativamente acessíveis para a classe média. No entanto, a grande maioria das universidades brasileiras é particular, voltadas para o lucro, muitas delas de péssima qualidade, porque o que conta é a habilidade de produzir diplomas que supostamente ajudam a arrumar emprego. Sim, é sempre melhor ter um diploma do que não ter, mas no geral muitos desses diplomas são na verdade treinamentos profissionais para especialidades de curto prazo que podem desaparecer amanhã. A classe média, uma minoria no Brasil, se beneficia de boas e acessíveis universidades públicas, enquanto as famílias de baixa renda se desdobram para pagar mensalidades altas para mandar seus filhos para universidades particulares de baixa qualidade. O Brasil deveria fazer como o Chile, que estava em situação semelhante e adotou severa regulação governamental no sistema de universidades particulares com fins lucrativos.

(Via O Globo)