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Marcelo Gleiser: ''A ciência se torna fascinante quando você não fica só na teoria''

Ilustração: Matt Forsythe
Ilustração: Matt Forsythe

A formação ortodoxa em diferentes áreas do conhecimento tem como característica marcante um alto nível de especialização, e muitas vezes carece de diálogo com outras disciplinas. A origem desta cultura do aprofundamento num ramo específico está, entre outros elementos, nos primeiros anos de estudo na vida de cada um, ainda na escola.

Hoje, mais do que uma alternativa, a formação interdisciplinar é fundamental para preparar os jovens para um mercado de trabalho que exige do profissional a capacidade de transitar entre habilidades de diversos campos, e de fazer conexões entre as áreas para compreender melhor a sociedade. Assim, no que tange a ciência, o físico brasileiro Marcelo Gleiser tem, nos dias atuais, ainda mais relevância em suas contribuições intelectuais.

Autor de A dança do universo, A harmonia do mundo, Poeira das estrelas, dentre outros títulos, Gleiser defende a produção literária sobre ciência a partir de uma linguagem acessível, e de relações com o cotidiano das pessoas. Em entrevista à revista Nova Escola, ele reforça a importância do ensino científico nas escolas de uma maneira instigante para as crianças e jovens, para que se formem adultos mais interessados nos mistérios do mundo em que vivemos, e mais envolvidos com ciência, independentemente da atuação profissional de cada um.

Marcelo Gleiser foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2007.


Aprender ciência é tão importante quanto aprender a ler, escrever e fazer contas?

Sem dúvida. Todo cidadão tem o direito de saber como o mundo em torno dele funciona. Há 400 anos tudo se explicava pela religião. Havia a famosa resposta "porque Deus quis". Hoje temos a opção de pensar sobre o que está à nossa volta usando a razão. Nesse sentido, uma das funções do ensino da ciência é combater o obscurantismo. Se podemos oferecer essa compreensão por meio do que a ciência já descobriu, damos uma tremenda liberdade às pessoas, que podem pensar por si mesmas.

O avanço científico é um motivo para a escola valorizar o ensino da ciência?

Querendo ou não, vivemos numa sociedade completamente dominada pela ciência. Ela está em tudo: nos remédios, nos alimentos transgênicos, no ambiente poluído, nos computadores. Há ainda a energia nuclear, a engenharia genética, a clonagem, as células-tronco. Sem um conhecimento básico de ciência, a pessoa não pertence ao mundo moderno. Se um governo tem como missão preparar os cidadãos para o futuro, necessita ensinar ciência. Só as pessoas bem-informadas podem participar do processo democrático.

O que o professor pode fazer para manter o interesse natural das crianças em saber o porquê de tudo?

Incentivar os alunos a pôr a mão na massa, transformando a curiosidade em algo produtivo. É por meio das experiências que eles se tornam agentes da descoberta e viram cientistas. Na adolescência, contudo, ocorrem mudanças metabólicas que desviam o olhar da garotada. Os estudantes prestam mais atenção no outro sexo, e o interesse pela ciência cai vertiginosamente. A escola só consegue manter o desejo de aprender se fizer com que a ciência continue relacionada à vida deles.

Como relacionar as aulas de Ciências ao dia-a-dia dos jovens?

O professor pode falar dos problemas do mundo atual e de como a ciência está ligada a eles. A energia nuclear e a possibilidade de que terroristas coloquem a mão em uma bomba e destruam uma cidade, por exemplo, podem ser abordadas. Se for levada só na teoria, a aula realmente fica "um saco", como dizem os alunos, e aí é natural que percam o interesse. Se isso ocorrer, eles dificilmente voltam a se empolgar com o tema.

Quais são os principais problemas do ensino de Ciências hoje no Brasil?

O pouco preparo dos professores e a falta de recursos. De modo geral, infelizmente, a ciência é ensinada no quadro-negro. O professor fala de Biologia e dos princípios da Física e da Química fazendo desenhos no quadro. Raramente são realizadas experiências simples em sala de aula para ilustrar os conceitos. Um exemplo óbvio é falar que [o cientista italiano] Galileu Galilei [1564-1642] descobriu que o período de um pêndulo não depende da massa do objeto que está sendo balançado. Isso é superfácil de mostrar e não necessita de equipamento ou dinheiro. Basta amarrar pedras de tamanhos diferentes em duas cordas e balançá-las. O período das oscilações vai ser o mesmo. Se o professor for bem preparado e souber fazer demonstrações em classe, o ensino de Ciências vai dar um pulo gigantesco.

Assista: Marcelo Gleiser - Para compreender valores básicos da ciência

A eficiência no ensino de Ciências depende da formação dos professores?

Sim. A mudança no ensino só vai ocorrer se a formação melhorar. Muitos professores não têm paixão pelo assunto e só lecionam a disciplina porque precisam. Para que essa situação se resolva, é necessário mexer nos cursos de licenciatura. Eles devem mostrar, primeiramente, que, quando a ciência é explicada por meio de demonstrações e experiências, ela vai além de uma fórmula e se torna verdadeira, concreta. Em segundo lugar, é imprescindível ligar a ciência à vida. Um ônibus é um excelente laboratório de física do movimento, por exemplo.

Qual a melhor estratégia para o professor despertar nos alunos o interesse pelos mistérios da natureza?

Mostrar que a ciência é uma das atividades mais humanas e lúdicas que existem. Pode-se brincar com ciência o tempo todo. É fantástico revelar como uma lagarta se transforma em borboleta. O aluno fica encantado ao descobrir como as coisas acontecem. O mesmo ocorre quando explicamos que o Sol é apenas uma estrela entre centenas de bilhões de outras estrelas rodeadas por planetas. A criança olha para o céu e pensa se existem outros "eus" em outros lugares. Ainda falta esse mistério no ensino da disciplina.

Como explicar ao aluno a importância das informações científicas?

Esse é o grande desafio. E há uma maneira muito simples de fazer isso: apresentar uma perspectiva histórica das coisas. Falar, por exemplo, que em 1600, na época em que Galileu e [o astrônomo alemão] Johannes Kepler [1571-1630] viveram, acreditava-se em um Universo completamente diferente do atual. A medicina era primária, "bruxas" estavam sendo queimadas. Pensava-se que o Universo era estático, que a Terra era o centro de tudo e que o Sol girava em torno dela. Os cientistas começaram a questionar isso e em 50 anos viraram todas as crenças de cabeça para baixo. Assim, o professor mostra que ao longo da história a ciência ajudou as pessoas a perceber em que mundo elas vivem.

Qual a sua opinião sobre o criacionismo?

Sem dúvida, o criacionismo tem de ser absolutamente abolido das escolas, porque é obviamente uma visão cristã. Ensinar essa corrente seria uma violação ao direito que cada um tem de escolher sua religião. Dizer que a teoria da evolução e o modelo do big-bang estão errados é contraproducente.

Como deixar claro para os estudantes que a ciência não é uma verdade absoluta?

É preciso apontar que a ciência está sempre em renovação e evolução. Ainda há muitas questões sem resposta. É verdade também que existem buracos nos registros dos fósseis, os elos perdidos. Mas isso não significa que a teoria da evolução por seleção natural esteja errada. Ao contrário, ela oferece um meio fantástico de pensar sobre como as espécies animais surgiram e evoluíram. Quando foram encontrados os primeiros fósseis de dinossauro e se perguntava por que eles tinham desaparecido da Terra, a resposta era: porque não couberam na Arca de Noé. Esse tipo de dogmatismo religioso é extremamente perigoso. Se a escola questiona a ciência e o seu valor, mina a possibilidade de as crianças crescerem como cidadãos livres. Elas vão ficar escravizadas ao obscurantismo. E isso é um crime.