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Marcelo Gleiser: o currículo de ciências é antiquado

Adolfo Stotz Neto: Com sua experiência em ministrar Astronomia nos Estados Unidos, como explicar a diferença deste ensino em países como o Brasil, onde a disciplina passa praticamente desconhecida nos bancos escolares?

Marcelo Gleiser: Infelizmente, o currículo de ciências no Brasil é bem antiquado; os alunos do ensino elementar pouco aprendem sobre ciências, especialmente ciências físicas. Existem poucos recursos, pouco equipamento para experimentos, e um currículo que precisa ser renovado, tornado mais interessante para as gerações atuais.

Stotz Neto: Na sua visão, a Astronomia é importante para o desenvolvimento pessoal e intelectual? Foi para você?
Gleiser:
Na verdade, sou físico e não astrônomo; mas minha área de pesquisa, a cosmologia, está intrinsecamente relacionada com a Astronomia. Sempre tive um grande fascínio pelos céus, pelo que pode existir em outros planetas e luas; e sempre quis entender a origem das coisas, desde a vida ao universo como um todo. Tive a sorte de ter sido exposto a excelentes livros quando criança, um privilégio que infelizmente poucos têm, mesmo no Brasil de hoje.

Stotz Neto: Como você vê as novas teorias cosmológicas que sucedem o Big Bang, mais particularmente o trabalho do físico brasileiro Mario Novello e sua hipótese do Universo eterno e cíclico?
Gleiser:
O Mário faz um trabalho consistente, tentando entender como o universo pode ter evitado o momento inicial único. É uma área importante, mas existem problemas com relação a um universo eterno, especialmente no que tange a uma quantia chamada entropia (unidade de grandeza termodinâmica); difícil entender como que infinitos ciclos existiram no passado, sem que haja um aumento da entropia; mas tenho certeza que o Mário deve ter uma resposta para isso. Existem outras versões da mesma ideia, usando teorias bem especulativas em mais de quatro dimensões espaço-temporais.

Stotz Neto: A Astronomia é a mãe da ciência e Galileu é considerado o pai. Quais outros astrônomos você considera como importantes para o desenvolvimento da ciência e quais foram os que estabeleceram paradigmas que mudaram a história da humanidade?
Gleiser:
Não sei se o Galileu é considerado pai da astronomia; é mais pai da física moderna, vista que a astronomia era já praticada na antiguidade, desde os babilônios aos gregos e islâmicos. Mesmo assim, a lista de astrônomos é grande: Copérnico, Tycho Brahe, Kepler, Newton, William Herschel, Edwin Hubble, Harlow Shapley etc.

Stotz Neto: Na imensidão do Universo, estaremos sós?
Gleiser:
Ninguém sabe a resposta a esta pergunta; na prática estamos, pois mesmo se existirem outras inteligências na nossa galáxia, as distâncias são tão vastas que uma comunicação é extremamente improvável. Portanto, temos que repensar nossa importância cósmica, como seres pensantes num universo em que a vida é extremamente rara. Isto nos remete a um novo nível de responsabilidade e ética cósmica, como preservadores da vida