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Martha Nussbaum: "É de compaixão que precisamos"

Ilustração do livro Tough Guys (Have Feelings Too), de Keith Negley
Ilustração do livro Tough Guys (Have Feelings Too), de Keith Negley

A pensadora norte-americana Martha Nussbaum é conhecida por defender um ensino permeado de humanidades. Alinhada ao economista indiano Amartya Sen, ela é um estandarte da "abordagem das capacidades" na filosofia, segundo a qual aspectos inatos de todo ser humano devem ser cultivados para evitar uma vida indigna.

Nussbaum foi pioneira ao listar dez capacidades cujo desenvolvimento é essencial - como emoção, razão prática, saúde e controle sobre o ambiente. À Folha, ela responde três perguntas sobre a moralidade da compaixão e sobre os valores centrais na formação dos estudantes.

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Como a escola pode desenvolver empatia no aluno?
Martha Nussbaum - Faço distinção entre empatia e compaixão - e é de compaixão que precisamos. Empatia é só a habilidade de pensar como é estar no lugar do outro. Não é moral. Um torturador sabe infligir mais humilhação por causa da empatia.

Compaixão diz que os obstáculos enfrentados pelo próximo são ruins. Podemos senti-la sem imaginar a vida do outro, como quando nos compadecemos de animais.

As escolas podem desenvolver compaixão por meio da literatura e das artes, no currículo, e pela própria pedagogia, incluindo todos os alunos e ajudando-os a entender os obstáculos desiguais que alguns deles enfrentam, seja por questões econômicas ou incapacidades físicas e cognitivas.

Se a escola é pública, deve focar nos valores centrais da sociedade, expressos nas leis e na Constituição. Nos EUA, esses princípios incluem rejeição ao racismo e à hierarquia de gênero, mas não os valores específicos de uma religião sobre a outra.

Leia também: Paul Bloom: “A minha crítica é em relação à empatia como um guia moral. Como fonte de prazer, ela é imbatível"

Esses valores centrais na formação do estudante seriam os mesmos para brasileiros?
Todos os países deveriam dar apoio para que todos os cidadãos tenham chance de lutar por uma vida próspera. Minha lista de dez capacidades captura o cerne dos direitos essenciais. As nações têm liberdade para focar nos valores de suas tradições, mas não naqueles que violam direitos humanos básicos.

Como um governo deve levar o país a uma maior tolerância?
É preciso trabalhar em duas direções: pelas atitudes nas escolas, na mídia e no discurso político, promovendo imagens dignas de minorias raciais, e nas leis e instituições, tornando normas antidiscriminatórias mais duras e dando oportunidades econômicas genuínas para as minorias.

Pôr um fim na segregação habitacional é um dos passos mais importantes para uma sociedade integrada. Acredito que a ação do governo pode propelir mudança, e isso foi importante para gênero e raça no meu país.

(via Especial Fronteiras do Pensamento na Folha: acesse e confira os outros conteúdos!)

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