Voltar para Entrevistas

Mia Couto lança antologia poética e é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com mais recente romance

Mia Couto, com o cão Chocolate, no rio Umbeluzi, em Maputo
Mia Couto, com o cão Chocolate, no rio Umbeluzi, em Maputo

Pela primeira vez, nas nove edições do Prêmio São Paulo de Literatura, há um estrangeiro entre os finalistas. É o moçambicano Mia Couto, que integra a lista de 20 autores na fase derradeira do prêmio, o maior do país em premiação individual.

Ricardo Ramos Filho, vice-presidente da União Brasileira dos Escritores e membro do júri, explica que o regulamento do prêmio só exige que "a obra seja em português e tenha saído primeiro no Brasil".

É o caso do livro de Mia Couto Mulheres de Cinzas (2015, Companhia das Letras), primeiro da trilogia As Areias do Imperador. Além do moçambicano, outros nove escritores disputam o prêmio de R$ 200 mil da categoria principal —melhor romance do ano. Entre os concorrentes estão Noemi Jaffe, Marcelo Rubens Paiva e Raimundo Carrero.

A indicação é mais um motivo de celebração para Mia Couto, que lança, também pela Companhia das Letras, sua antologia poética. Para compor a obra Poemas Escolhidos (2016), o escritor afirma ter revivido "um enamoramento adolescente que ainda está vivo, mas de cuja inicial ingenuidade eu tenho uma imensa saudade."

Sempre próximo da poesia, Mia Couto foi estimulado por seu pai, o também escritor Fernando Couto, que ensinou ao filho que a poesia não era só um gênero literário, “era um modo de estar na vida", diz o autor moçambicano em entrevista ao Globo. Confira abaixo a entrevista:

>> Assista a Mia Couto: Pelo reencantamento do mundo

“Poemas escolhidos" reúne textos publicados desde os anos 1980 até a década atual. Como se sentiu revendo sua obra poética? Que relações percebe entre os poemas mais antigos e os mais recentes?

É como se revisse e revivesse as vidas da minha vida. Não é apenas o olhar que mudou. Não se trata apenas de que o mundo agora é outro. Havia um enamoramento adolescente que ainda está vivo, mas de cuja inicial ingenuidade eu tenho uma imensa saudade. Perante poemas dos anos 1960 e 1970 eu me pergunto: fui eu que escrevi isso? Talvez a pergunta devesse ser: quem era eu nessa altura?

O senhor publicou quatro livros de poesia e mais de 20 livros de prosa. Mas sua prosa tem uma veia lírica muito expressiva. Para o senhor, qual é a diferença entre escrever um poema e um texto em prosa? Há algo que só consegue expressar por meio de um poema?

Sim. Apesar de não reconhecer fronteiras entre os dois territórios, a verdade é que elas existem. O que me dá prazer é a transgressão, a desobediência, de modo que ao fazer prosa escrevo poesia e ao escrever poesia deixo entrar a prosa. Mas reconheço que há coisas que apenas se podem dizer em verso. A forma em que me resolvi foi a seguinte: entender que há falas diversas e não existe hierarquia entre elas. Há coisas que só dizemos cantando, outras dançando, outras ficando calados. Como não sei dançar, tento fazer com que as palavras dancem por mim. A poesia fala do que não sabemos. Mas do que preserva em nós o espanto e o encantamento da infância.

>> Assista à conferência de Mia Couto no Fronteiras, "Repensar o Pensamento"

Seu pai também escrevia poemas. O que aprendeu sobre poesia com ele? Quais foram suas leituras mais marcantes na infância?
A poesia era para ele não um gênero literário. Era um modo de estar na vida. Digamos que, antes de ler Manoel de Barros, eu já tinha dentro de casa (ou seria dentro de mim?) um poeta que me ensinava o valor das coisas aparentemente sem valor. Com ele li sobretudo poesia. Mas foi um pequeno livro de Juan Ramón Jiménez chamado “Platero e eu" que me mostrou quanta poesia pode haver na prosa. Os livros apenas me mostraram a poesia que estava fora deles, que estava no mundo. Era isso que ele dizia: não fiques em casa, vai brincar, vai ler a vida.

(Na foto ao lado, Mia Couto brinca com um leopardo bebê em sua infância)

Qual foi a importância de poetas como Noémia de Sousa e José Craveirinha, que participaram das lutas de independência de Moçambique, na sua formação como escritor e como cidadão moçambicano?

Foram essenciais. Vivíamos uma condição de opressão política e de dominação colonial. A poesia era de combate, o verso era militante. Mas era sobretudo poesia. Estava para além do lado funcional e efêmero. Craveirinha e Noémia ensinaram-nos a ter uma pátria que era bem maior que aquela que os nacionalistas nos mostravam.

O senhor costuma citar diversos poetas brasileiros como referências importantes: Drummond, Cabral, Bandeira, Cecília Meireles, Manoel de Barros, entre outros. Quais foram as maiores lições que teve lendo poetas brasileiros?
Aprendi que havia uma outra musicalidade dentro da minha própria língua. Essa relação de pertença e estranheza é vital para que a dimensão poética do mundo se revele. E não foram só os poetas que foram importantes A poesia que vinha das canções de Chico Buarque, de Caetano e do Gil (só para mencionar alguns e sem esquecer Vinicius, é claro) foram uma ponte de inspiração fundamental. Não sabíamos até então que era possível cantar assim o nosso idioma. Era como ter um brinquedo na mão e descobrir tempos depois que era uma ave e podíamos voar juntos.


Assista abaixo: em entrevista ao Fronteiras, Mia Couto relembra o estímulo literário durante sua infância. Rodeado por poetas em sua família, sentia que, para ser poeta, era apenas necessário crescer. Assim, conclui, aprendeu que só poderia ser quem era por meio da poesia.

(Via O Globo e Folha)