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Moisés Naím: "O mundo está mais difícil para os tiranos"

Moisés Naím (foto: Joaquin Sarmiento/Hay Festival Cartagena)
Moisés Naím (foto: Joaquin Sarmiento/Hay Festival Cartagena)

"Hoje, grupos de estudantes conseguem influir na situação política de um país, pequenas empresas recém-criadas podem mudar a forma de funcionamento de toda uma indústria. E o mundo está cada vez mais difícil para os monopólios e para os tiranos."

É o que afirma Moisés Naím, escritor venezuelano que foi editor-chefe da revista Foreign Policy por 14 anos e Diretor Executivo do Banco Mundial. Naím é o principal colunista internacional do El País e escreve também para outros dos maiores veículos do mundo: La Repubblica (Itália), Slate (frança), The Atlantic, Huffington Post, Business Week (EUA), dentre outros. Leia abaixo a entrevista de Moisés Naím para o curador do Fronteiras do Pensamento, publicada na revista Época (16.04.2015):

Fernando Schüler, doutor em Filosofia e professor do Insper, escola de economia e negócios de São Paulo, acompanha há bom tempo a trajetória do intelectual venezuelano Moisés Naím, um dos principais pensadores do cenário político internacional contemporâneo. Naím é uma dessas cabeças brilhantes que a América Latina produz, e depois expulsa. Ministro na Venezuela pré-Hugo Chavez, Naím fez uma carreira acadêmica sólida nos Estados Unidos e foi por 14 anos editor-chefe da revista Foreign Policy. Atualmente, ele é fellow do Carnegie Endowment for International Peace, um centro de estudos.

Em 2013, Naím lançou o livro O fim do poder, uma análise do mundo fragmentado e multipolar dos dias de hoje. Schüler percebeu que Naím havia conseguido produzir uma rara síntese da época atual – a época dos indivíduos. Na ocasião, Schüler ocupava uma posição executiva e percebia como, mesmo dentro das organizações privadas, a instabilidade cresceu. A implementação de mudanças, diz Schüler, se tornara mais difícil, e as pessoas, com mais alternativas, passaram a ficar mais atentas e organizadas. Da mesma forma, os consumidores, extremamente críticos, passaram a ter mais instrumentos para fazer valer suas opiniões e interesses.

Schüler também percebeu que a ideia do Fim do Poder era uma chave para compreender a grande onda de participação social (como a Primavera Árabe) que varreu as democracias e muitas autarquias nos últimos anos. O mérito de Naím foi mostrar como uma série de mudanças quantitativas (aumento da renda, escolaridade, espectativa de vida, acesso à informação) levou a uma mudança qualitativa na vida democrática, com o surgimento do "cidadão crítico" e da fragmentação do poder.

Quando estava em Nova York, no ano de 2014, como Visiting Scholar na Columbia University, Schüler resolveu entrevistar Naím e convidá-lo para ser um dos conferencistas do Fronteiras do Pensamento, série de conferências do qual ele é o curador. Marcou uma visita ao escritório de Naím, em Washington. No final de 2014, próximo ao Natal, os dois tiveram uma agradável conversa, no belo gabinete de trabalho no Carnegie Endowment for International Peace. Dias depois da entrevista, Mark Zuckerberg, o dono do Facebook, escolheu O fim do poder como o primeiro de sua série Years of Books. Um reconhecimento natural a um trabalho inteligente e atual. A vinda de Moisés Naím ao Brasil para o Fronteiras do Pensamento foi adiada para 2016, mas ela ocorrerá, com certeza, diz Schüler. A seguir, trechos da entrevista feita por ele com Naím.

Fernando Schüler: Você continua otimista com a evolução da democracia, como estava quando escreveu O fim do poder? É possivel dizer que há progressos em valores centrais da demoracia, como transparência, novos espaços de participação?
Moisés Naím:
Sim. O livro descreve um mundo no qual há mais oportunidades para quem antes não as tinha — pessoas, grupos ou países. As possibilidades estão abertas, e as tendências apontadas no livro parecem-me ainda dignas de aplauso. Hoje, grupos de estudantes conseguem influir na situação política de um país, pequenas empresas recém-criadas podem mudar a forma de funcionamento de toda uma indústria. E o mundo está cada vez mais difícil para os monopólios e para os tiranos. Não faz muito, diziam que [Vladimir] Putin era o símbolo do ditador que, por sua vez, era a imagem do futuro — invadira a Crimeia, estava dando à Rússia um protagonismo muito grande. Hoje, a Rússia está claramente em uma crise econômica muito severa, e Putin não parece tão vitorioso. Não creio que muitos líderes mundiais o invejem. O mesmo está ocorrendo com Nicolás Maduro na Venezuela. Ditadores e tiranos existem e continuarão existindo, mas cada vez com menos segurança e menos comodidade do que antes.

Fernando Schüler: Para falar na mais longa ditadura latino-americana, com a “normalização" das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, como você vê o caminho para uma transição do regime na ilha?
Moisés Naím: O mais importante que aconteceu foi que se acabou com uma política que todo mundo estava de acordo que não funcionava, mas que ninguém podia mudar. Ninguém acreditava que o embargo dos Estados Unidos a Cuba estava servindo a algum objetivo interessante – o embargo a Cuba serviu somente como uma desculpa para os irmãos Castro justificarem o fracasso de seu modelo e como um símbolo anti-americano para muitos na América Latina. Não há dúvida de que o regime cubano vai tratar de fazer o possível para reter o poder e seguir controlando a política, mas é muito mais difícil controlar a política quando se tem mais abertura econômica. Para o governo de Cuba, que demonstrou ser muito capaz de sobreviver aos ataques da política – veremos como lidarão com isso.

Fernando Schüler: Como você encara as sucessivas e recentes vitórias eleitorais de Nicolás Maduro, Evo Morales e outros projetos populistas de inclinação à esquerda na América Latina? É um paradoxo que, num tempo de evolução das democracias, esse modelo venha se saindo vitorioso?
Moisés Naím:
Acredito que não. Acredito que, na América Latina, houve mudanças profundas. Na Bolívia, Evo Morales tem um acordo com o setor privado, no qual o setor privado tem tido liberdades e possibilidade inéditas para um governo que se diz socialista. Evo Morales quer mesmo ir a Washington e reestabelecer relações cordiais com a Casa Branca. Na Argentina, a era dos Kirchners está chegando ao seu fim – repito: é um mundo incômodo para aqueles que lutam contra a liberdade e contra a democracia.

Fernando Schüler: Francis Fukuyama, no fim dos anos 90, apontava o fundamentalismo islâmico e do marxismo do terceiro mundo como os dois grandes inimigos do terceiro mundo. Continuam sendo estes os inimigos?
Moisés Naím:
O primeiro e o mais importante inimigo da democracia é o mau funcionamento do governo. Os governos têm de funcionar melhor, e um dos problemas que as democracias têm é que estão se transformando no que descrevo como uma “saturação de vetos". É um conceito de Francis Fukuyama, a “vetocracia", na qual há uma grande quantidade de protagonistas que têm o poder de bloquear uma decisão do governo, mas nenhum tem o poder de impor uma alternativa ou um plano de ação. O segundo inimigo é a desigualdade – a desigualdade que, nos países desenvolvidos, tem aumentado muito e que está criando todo tipo de efervescência. E o terceiro são as democracias fake, as democracias de mentira. São governos essencialmente autoritários, mas que têm todo um cenário democrático: têm eleições, têm divisão de poderes, têm um congresso com assembleia legislativa, têm um poder judiciário, têm um juiz eleitoral que garante que as eleições sejam livres e confiáveis, mas que, na verdade, quando se vê os detalhes, percebe-se que são governos que controlam e que têm controle total sobre a assembleia legislativa, têm controle sobre o supremo tribunal, têm controle sobre os tribunais e que, na verdade, são democracias apenas cenográficas. Isso é comum na América Latina, mas não apenas ali. Putin, na Rússia, é o exemplo paradigmático disso. Em teoria, há uma democracia, mas todo mundo sabe que, na prática, as instituições fazem o que Putin mandar.

Fernando Schüler: Você enquadraria o Brasil nessa categoria da “vetocracia"?
Moisés Naím:
O Brasil tem muito disso. Tem um sistema político com muita fragmentação, inclusive dentro do mesmo partido — há uma vetocracia dentro do PT, com suas facções, cada uma delas tem poder suficiente para bloquear as demais, mas nenhuma tem a possibilidade de indicar o caminho novo. O poder executivo brasileiro também se encontra muito amarrado – a metáfora que uso sempre, do Gulliver no país dos liliputianos, onde há milhares de pequenos seres que o amarram e impedem seu movimento. Acredito que o Brasil é um bom exemplo de gigante que está amarrado por milhares de pequenos protagonistas que têm o poder de bloquear os caminhos de todo o resto dos liliputianos. É um gigante paralisado.

Fernando Schüler: Sobre o segundo inimigo da democracia, a desigualdade. Os dados mostram que, nos últimos 30 anos, diminuiu a pobreza, mas cresceu a desigualdade. O que é mais importante para a democracia? Atacar a pobreza ou a desigualdade?
Moisés Naím:
Depende. Se estamos falando de países desenvolvidos, de alta renda per capita e com democracias maduras, ou se estamos falando de países mais pobres que estão recém começando a se desenvolver e a aumentar a renda per capita. Devido à crise financeira de 2008, mas também devido a outros fatores anteriores (globalização, novas tecnologias, etc.), cresceu muito a desigualdade em países desenvolvidos — nos Estados Unidos e na Europa ocidental, por exemplo. Passamos a ter uma classe média que se sente pressionada, pouco confiante nas possibilidades de mobilidade social e que, pela primeira vez em muitas décadas, não sabe se seus filhos terão, no futuro, um nível melhor de vida do que têm hoje. A mobilização das classes médias contra a desigualdade, nesses países, se dá por isso.

Mas há outros países, mais pobres, onde a classe média está crescendo agora. Gente pobre que agora pertence a níveis médios de crédito e de consumo. O Brasil é um exemplo, o México, a Indonésia, a Turquia. São países onde essa classe média exige do Estado serviços públicos melhores, de mais qualidade e com menor preço. E o Estado, nesses países, não vem conseguindo atender essas demandas. Por isso as pessoas saem às ruas, protestando contra desigualdade, porque, também nesses países, quando se cresce muito rápido, também cresce a desigualdade. Veja o caso da China era impossível que a desigualdade não tivesse crescido: a diferença entre, de um lado, os que vivem em Xangai e Pequim e na zona costeira, que é moderna, industrializada, competitiva, globalizada, e de outro, os camponeses, que estão no interior, vivendo em condições medievais em cidades sem eletricidade e água porável, é enorme. A realidade é que são duas conversas analiticamente muito diferentes.

Fernando Schüler: A desigualdade é o preço a se pagar pelo desenvolvimento e pelo avanço tecnológico rápidos, como na China?
Moisés Naím: A desigualdade é como o colesterol. Há o bom e o mau colesterol. Há uma desigualdade ruim, que é a desigualdade produzida pela corrupção, pelos governos incompetentes, pelos monopólios, pelo rent-seeking behavior – este é o mau colesterol, é a desigualdade ruim. Mas há uma desigualdade mais desejável, que ocorre quando alguém inventa algo muito bom, quando inventa algum medicamento que cura as crianças, quando inventa um produto que tem êxito, essa pessoa se torna muito rica e, evidentemente, aumenta a desigualdade – mas uma desigualdade causada pelo êxito e pela inovação, que contribui para a sociedade. Um jogador de futebol, ou um artista, um inventor, um cientista que tiverem êxito econômico contribuem para a desigualdade, mas essa desigualdade é melhor que a de um empresário que corrompe um funcionário público.

Fernando Schüler: O que você diz para os políticos da era do fim do poder, como os países devem agir para superar as limitações do fim do poder?
Moisés Naím: Não há uma receita mágica. Não tenho uma frase, uma palavra que seja a solução total. Mas, minha intuição me diz que é preciso refundar, melhorar e modernizar os partidos políticos. Os partidos do fim da Guerra Fria, a partir do começo dos anos 90, em todas as partes do mundo, tiveram um desempenho muito ruim, perderam sua capacidade de atração para as pessoas. Ao mesmo tempo, as organizações não governamentais cresceram e se tornaram influentes. Os partidos políticos deixaram de ser o habitat natural para os idealistas e passaram a servir aqueles que tinham interesses pessoais — fazer carreira, entrar no governo, etc. Quem tinha interesse em efetiva participação política passou a recorrer a organizações não governamentais – que são muito boas, eu mesmo participo de várias delas. Mas é preciso modernizar os partidos políticos. Não se pode haver uma democracia verdadeira se não há partidos políticos. Não existe uma democracia de ONGs – elas sempre têm objetivos muito específicos, exclusivos, focalizados: lutar contra a pobreza ou contra a violência sexual. Os partidos políticos precisam ter opinião sobre tudo: do funcionamento de escolas primárias à política nuclear. Muitas das debilidades que vemos na política e nos governos são um reflexo das debilidades dos partidos políticos.

Fernando Schüler: Você acompanhou muito de perto a vida política e econômica da América Latina nos últimos 20 anos. Na sua avaliação, que lideranças públicas se destacaram de maneira positiva?
Moisés Naím: Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, do México, e Ricardo Lagos, do Chile. Destacaram-se e tiveram grande êxito em aspectos muito importantes, apesar de as pesquisas de popularidade não lhes serem favoráveis. Acredito que tenham sido presidentes extraordinários, líderes que ajudaram a criar o bem-estar que se tem hoje em dia. No Brasil, nada teria sido possível sem as bases estabelecidas por Fernando Henrique Cardoso. Ernesto Zedillo estabilizou a crise econômica do México e construiu as bases para uma democracia que permitiu, pela primeira vez, que um outro partido, e não sempre o PRI (Partido Revolucionário Institucional), pudesse chegar ao poder. E Ricardo Lagos foi um pioneiro da democracia no Chile, um presidente extraordinário. É muito interessante que esses presidentes de grandes realizações tenham menos apoio da opinião pública que presidentes como Lula, por exemplo.

Fernando Schüler: Como você vê a situação da Venezuela?
Moisés Naím:
Vejo com enorme preocupação. Na Venezuela, já não se podia conseguir comida, desodorante, pasta de dente ou medicamentos para pessoas com doenças crônicas com o petróleo a 120. Imagine valendo 50. A vida cotidiana se transformou em um pesadelo. Meu prognóstico é que o governo vai tratar de se manter no poder com base na repressão, asfixiando completamente os espaços de democracia. E lamento muitíssimo que a conduta do Brasil, que até agora tem sido um cúmplice silencioso da tragédia venezuelana, continue a mesma. O silêncio é triste, o silêncio do Brasil me ofende. E não pode ser que uma presidente que foi torturada, que foi uma lutadora social, que foi uma jovem mulher que estava nas ruas lutando contra uma ditadura militar, quando há centenas de jovens e mulheres na prisão na Venezuela, que estão sendo torturados, que estão sendo exilados, que estão sendo maltratados pelo governo, não é possível que a presidente Dilma Rousseff não diga uma só palavra em relação à repressão e à conduta inaceitável que ela não aceitava quando era jovem e combatia a ditadura, e que agora tolera e permite com sua conduta de indulgência e silêncio em relação ao regime de Chaves e Maduro.

(via revista Época)