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Niall Ferguson: "O contrato entre as gera­ções, um dos pilares da democracia, está sendo rasgado"

O britânico Niall Fer­guson está naquela liga dos professores universitários em que a medida do sucesso não é mais o número de citações em artigos acadêmicos. Professor de história na Universidade Harvard e palestrante requisitado tanto na Europa como nos Estados Unidos, tornou-se uma celebridade — na medida em que um professor de história pode ser uma celebridade.

Já esteve na lista das 100 pessoas mais influentes da revista americana Time, foi consultor do senador John McCain, que disputou a Presidência dos Estados Unidos em 2008 com Barack Obama, e viu seu livro A Ascensão do Dinheiro ser transformado em uma série de televisão

niall ferguson

Voltou a ter destaque pelo lan­çamento do livro A Grande De­ge­neração — A Decadência do Mundo Ocidental (Editora Planeta). Na obra, defende que democracia, capitalismo, respeito às leis e sociedade civil — em suma, as maiores instituições ocidentais — estão em crise e que as políticas adotadas pelos governos dos Estados Unidos e da Europa só fazem piorar a situação. 

É por isso, diz Ferguson, que o Ocidente apresenta menor crescimento e maior desigualdade do que no passado. Leia a seguir trechos da entrevista.


Niall Ferguson é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento. O historiador britânico é o convidado do projeto nos dias 27, em Porto Alegre; e 28, em São Paulo, de onde responderá a Pergunta Braskem, enviada por vocês, nossos leitores e seguidores digitais. Envie sua pergunta para Niall Ferguson através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 28. Divulgaremos a resposta do conferencista no dia seguinte, 29.


O senhor diz que a democracia está em crise. Quais são as evidências?
Niall Fer­guson: Há várias. Nos países ricos, o crescimento econômico se mantém terrivelmente baixo desde 2008. A desigualdade social hoje é tão acentuada quanto era durante a década de 20. Isso sem falar que a política está cada vez mais polarizada. Além disso, há uma desilusão generalizada, especialmente entre os mais jovens, cujas perspectivas para o futuro são  piores do que as que qualquer geração enfrentou desde a Grande Depressão.

O fraco desempenho econômico é suficiente para concluir que as instituições estão em crise?
Niall Fer­guson: Sim, principalmente na Europa. As instituições do bloco têm se revelado altamente ineficazes. Mas o mesmo vale para os Estados Unidos, que têm perdido competitividade. Hoje, é mui­to mais fácil abrir uma empresa em partes da Ásia do que, digamos, em Boston.

Como disse o ex-premiê inglês Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que experimentamos de tempos em tempos. É por isso que as economias bem-sucedidas da Ásia, como Taiwan e Coreia do Sul, fizeram a transição para a democracia. Mas a questão é: que tipo de democracia funciona melhor? Hoje parece altamente discutível que os Estados Unidos tenham o melhor sistema.

Por quê? 
Niall Fer­guson: O sistema americano é baseado na ideia de separação entre Executivo, Le­gis­lativo e Judiciário, no qual um fiscaliza o outro. Mas isso não impediu que o governo americano adotasse uma política fiscal desastrosa. Ao permitir o aumento da dívida para tentar melhorar a situação econômica atual, estamos tirando recursos das gerações futuras.

As crianças que estão nascendo hoje pagarão mais impostos lá na frente para tapar esse buraco e, provavelmente, terão menos be­nefícios. O contrato entre as gera­ções, um dos pilares da democracia, está sendo rasgado. 

Se é verdade que as instituições ocidentais estão se degenerando, qual é a alternativa? 
Niall Fer­guson: A melhor alternativa é o modelo ocidental de antigamente, em que o papel do governo central era mais limitado e o mercado era muito menos penalizado pela regulação, que ficou mais complicada nos últimos anos. 

Mas não foi justamente a falta de regulação que provocou a crise mundial há cinco anos?
Niall Fer­guson: Isso é um mito. O mercado estava mais regulado em 2007 do que em 1990, depois do relaxamento das regras nos anos 80. Instituições que perderam dinheiro, como a companhia hipo­tecária Fannie Mae, estavam sob a supervisão do Congresso. O problema é que a regula­mentação era complexa e as ins­ti­tuições não a cumpriam. Por isso, insisto em dizer: mais regulação não resolverá nossos problemas.

(Via Exame)


O próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento é o historiador Niall Ferguson, um dos mais renomados historiadores da Grã-Bretanha. Professor e pesquisador na Universidade de Stanford, é autor de 14 livros, incluindo Império – Como os britânicos fizeram o mundo moderno A ascensão do dinheiro – A história financeira do mundo. Ferguson sobe ao palco do Fronteiras no final de novembro. Acesse o libreto especial sobre a vida e a obra do historiador.