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O lugar da arte na religião e na era tecnológica

Campo de Papoulas em Argenteuil, 1873 - Claude Monet
Campo de Papoulas em Argenteuil, 1873 - Claude Monet

Camille Paglia, filósofa e crítica cultural norte-americana, fluente em diversos assuntos - das artes clássicas, passando por estudos de mídia, até questões de gênero e sexualidade -  é direta e contundente em suas críticas.  Muitas delas, direcionadas ao feminismo contemporâneo, tornaram-se polêmicas e deram à intelectual uma visibilidade ainda maior.

Em entrevista à jornalista Eliana de Castro para a Fausto Mag, Paglia falou sobre arte, tecnologia e religião, fazendo relações entre diferentes temas com facilidade. Uma das ideias defendidas por ela foi o ensino da história, arte e arquitetura das religiões na educação básica. Leia abaixo!

Camille Paglia é conferencista da série especial do Fronteiras em Salvador. Adquira já o pacote promocional para as três conferências!


Nas Artes, qual é o pior sintoma da pós-modernidade?

A arte vanguardista de oposição, que atacou o establishment cultural, político e religioso, nasceu na insurreição do Alto Romantismo, no fim do século XVIII (1700s). Esse movimento dissidente contou com diversos grandes heróis, que fizeram enormes sacrifícios por ele, suportando até a fome e o ridículo. Entre eles, temos os pintores Courbet, Monet e Jackson Pollock. No entanto, na minha opinião, a vanguarda encerrou-se com Andy Warhol, que teve grande influência sobre mim nos meus tempos de faculdade. Quando a Pop Art abraçou a propaganda comercial e as estrelas de Hollywood, a fórmula oposicionista da vanguarda já estava morta e acabada. O chamado “pós-modernismo” nasceu depois da Pop Art. É um termo que rejeito com toda a força, pois o considero totalmente desprovido de sentido. Não existe essa coisa de pós-modernismo. Continuamos na era do modernismo, que começou no início do século XX, com o Cubismo de Picasso, o Dadaísmo de Duchamp e o Expressionismo Alemão. Tudo aquilo que se pretende pós-moderno já estava contido e definido em “A Terra Desolada”, de T.S. Eliot, com sua paisagem estéril e coberta de fragmentos desconexos do passado cultural.

Por que se deu o título pós-modernismo, então?

O pós-modernismo como fenômeno é um subconjunto do pós-estruturalismo, que se valeu da linguística antiga e ultrapassada de Ferdinand de Saussure para postular que tudo o que sabemos (ou pensamos saber) é mediado pela linguagem. Essa alegação absurda – que pode ser facilmente rebatida com a simples observação do cotidiano de escultores, pintores e dançarinos, todos fundamentados no universo material – foi difundida nas universidades nos anos 1970 e hoje em dia envenenou também o mundo da arte. O pós-estruturalismo é uma postura de ironia cínica, “desconstruindo”, desestabilizando e alegando o tempo todo que qualquer obra de arte, em última instância, subverte a si mesma. O pós-estruturalismo nega que exista qualquer ordem ou sentido na história – o que é manifestamente falso quando examinamos a evolução dos estilos na história da arte. Por exemplo, o neoclassicismo como reflorescimento do humanismo greco-romano constitui uma refutação óbvia dos clichês pós-estruturalistas.

Quais foram outras influências?

O pós-modernismo também foi impactado pela Escola de Frankfurt de análise da cultura popular – outro sistema maçante e fora de moda, criado na década de 1930, antes mesmo do nascimento da televisão! A Escola de Frankfurt, baseada no marxismo, é repleta de suposições ofensivas sobre a mídia moderna: ela postula que a grande massa do público comum é estúpida e passiva, e, por isso, é presa fácil da lavagem cerebral operada por impérios de mídia conspiradores e malignos. Essa é uma visão estúpida da cultura popular. A verdade é exatamente o oposto: as pessoas escolhem o que gostam – no cinema, na televisão e na música – e votam nisso com seu dinheiro. Os impérios de mídia são operações comerciais que buscam apenas o lucro. Assim, os próprios impérios de mídia é que são passivos contra forças externas – e não as pessoas, que detêm o poder real. Tanto a Escola de Frankfurt como o pós-estruturalismo são arrogantes e elitistas, impregnados de desprezo pela gente comum que alegam defender.

E quais são os resultados disso?

O resultado final de quatro décadas de pós-modernismo permeando o mundo da arte é que, hoje em dia, existem pouquíssimos trabalhos interessantes e importantes sendo feitos no campo das belas artes. A ironia era uma postura ousada e criativa quando Duchamp a adotou, mas hoje é uma estratégia inteiramente banal, esgotada e tediosa. Foi ensinado aos jovens artistas que eles deveriam ser cool e hip e, assim, dolorosamente autoconscientes. Eles não são estimulados a serem entusiasmados, emotivos e visionários. Eles foram privados da tradição artística por um ceticismo capenga em relação à história, que lhes foi ensinado por pós-modernistas ignorantes e solipsistas. Em resumo, o mundo das artes não renascerá até que o pós-modernismo desapareça. O pós-modernismo é uma praga para a mente e para o coração.

Com a tecnologia transformando a vida moderna, não deveria haver mais tempo disponível para a contemplação?

A revolução industrial produziu diversos mecanismos mágicos de economia de trabalho, cruciais para o avanço das mulheres na sociedade moderna. Por exemplo, a máquina de escrever, criada no século XIX (1800s), permitiu que as mulheres trabalhassem em empresas nas quais os homens sempre haviam sido os escribas, escrevendo com pena e tinta. As mulheres, com suas mãos pequenas e maior destreza, tornaram-se especialistas em máquinas de escrever. Em um primeiro momento, o emprego de secretária – antes domínio exclusivamente masculino – foi muito liberador para as mulheres, que passaram a poder se sustentar e deixaram de ser dependentes de seu pai ou marido. Por isso é tão irônico que na metade do século XX o emprego de secretária tenha sido denunciado como uma armadilha de baixos salários para as mulheres, que já naquele momento aspiravam a posições gerenciais e de poder na empresa.

Há outros “aparelhos mágicos”?

Outros aparelhos extraordinários para economizar trabalho são a lavadora e a secadora automáticas, que liberaram as mulheres da tarefa de lavar roupas manualmente, um processo muito lento e exaustivo. Mas hoje isso também se tornou uma espécie de armadilha, uma prisão no isolamento dos lares burgueses, já que que as mulheres da era agrária desfrutavam da solidariedade do grupo na hora de levar a roupa para lavar nas margens do rio. De fato, foram exatamente o alegre burburinho e a cantoria de jovens lavadeiras que acordaram o náufrago Odisseu na costa da Feácia, no poema épico de Homero.

De alguma forma, eles se tornaram paradoxos?

Esse padrão de tecnologia moderna, que chega como um presente libertador mas acaba por se tornar uma maldição aprisionadora, é exatamente o que ocorreu no mundo digital. O computador pessoal nos libertou da máquina de escrever, e a internet nos trouxe o milagre da comunicação global instantânea. Contudo, em toda parte, a classe profissional se tornou escrava de seus computadores e iPhones, que se intrometem em cada minuto de nossa vida. Em vez de ter mais tempo para a contemplação, nós temos menos. Não há pausa, descanso ou possibilidade para ativação e cultivo de um ritmo interior, já que somos bombardeados por trivialidades impulsivas de todos os lados. Estamos condenados a um estado perpétuo de ansiedade nervosa e sobressaltada. As redes sociais se tornaram um vício generalizado, especialmente entre os jovens, que precisam checar seus iPhones constantemente ao longo do dia. Não há dúvidas de que, sob o impacto da tecnologia digital, o cérebro humano está sendo remodelado de maneiras ainda obscuras. A informação explodiu, mas temos apenas dados puros, sem uma visão ou reflexão mais amplas. A pergunta permanece: haverá espaço para a arte no futuro digital?

O sentido religioso da humanidade está enfraquecendo? A religião ainda tem força para inspirar a Arte?

Apenas os intelectuais míopes do Ocidente acreditam que a religião está perdendo força. A crença religiosa está se intensificando no movimento evangélico do protestantismo, que está se expandindo por nações outrora inteiramente católicas, incluindo o Brasil. E o fundamentalismo islâmico, com sua minoria jihadista e fanática, também está crescendo por todo o mundo. É certo que as denominações principais do protestantismo, como os episcopais e os presbiterianos, estão perdendo importância, conforme suas congregações se tornam ricas e elitizadas e, portanto, “sofisticadas” demais para demonstrar fervor religioso. Mas existe uma longa história de revivalismo na religião, momentos em que uma crença apaixonada se manifesta de forma emotiva e incendeia tudo ao seu redor. Por exemplo, o Grande Despertamento, que varreu os Estados Unidos no século XVIII e começo do século XIX (1700s e 1800s).

A verdade é que o humanismo secular, que começou com o avivamento da cultura greco-romana no Renascimento italiano, tornou-se estéril e niilista. Em alguns momentos, o humanismo secular ofereceu a arte como substituta da religião ortodoxa e puritana. Mas os intelectuais de hoje, intoxicados pelo jargão distorcido e pretensioso do pós-estruturalismo e do pós-modernismo, não acreditam mais na arte. Eles não acreditam em nada e, com isso, criaram um vácuo cultural preenchido apenas pela cultura popular, que, infelizmente, ao longo das três últimas décadas, decaiu em qualidade e profundidade. Embora eu seja ateia, respeito imensamente todas as religiões e considero os símbolos e crenças religiosos tremendamente inspiradores. A religião possui uma dimensão metafisica crucial, uma visão do universo e da existência humana que não aparece de forma alguma nos conceitos políticos limitados forjados pelo marxismo, que enxerga apenas a sociedade. Uma das razões da banalidade e da mediocridade de grande parte da arte contemporânea é que a maioria dos artistas não possui mais um instinto para a espiritualidade.

É possível entender a arte sem entender a religião?

Muitos dos maiores marcos culturais e artísticos da humanidade foram inspirados pela religião. É literalmente impossível para qualquer pessoa entender a totalidade da arte sem respeitar também a religião. Todavia, é difícil prever se a religião será capaz de produzir arte relevante no presente ou no futuro. Em primeiro lugar, o protestantismo é iconoclasta desde seu início: reformadores protestantes como Martinho Lutero e João Calvino acreditavam que as pinturas e esculturas das igrejas católicas eram exemplos heréticos de idolatria e que, portanto, tinham de ser destruídas. A cristandade evangélica permanece orientada pelos cânticos congregacionais endossados por Martinho Lutero (que também escrevia hinos de louvor), mas ela não abraça ou estimula as artes visuais de maneira significativa. O Islã é ainda mais conservador, com a produção de imagens ainda tão limitada quanto era no tempo dos patriarcas hebreus do Velho Testamento. Com efeito, em 2001, os fundamentalistas do Taleban destruíram os colossais Budas de Bamiyan e, no início de 2015, os jihadistas do Estado Islâmico destruíram esculturas assírias ancestrais no Iraque.

Existe uma saída?

Há vinte e cinco anos, propus que as grandes religiões do mundo (Hinduísmo, Budismo, Judaico-Cristianismo e Islã) fossem incluídas no cerne do currículo educacional de todos os países. Todo mundo estudaria os principais textos, a arte, a arquitetura e os locais sagrados de cada religião. Essa é a única maneira de alcançar um entendimento verdadeiro da história e dos povos do mundo. No entanto, se minha proposta algum dia for colocada em prática, ela provavelmente será derrotada em duas frentes. Os conservadores religiosos fariam forte objeção a outras religiões recebendo o mesmo status que a sua, e os esquerdistas se oporiam ao ensino de religião em sala de aula, entendendo-o como uma violação de seu rígido dogma secular. O desdém sarcástico que tantos intelectuais seculares expressam pela religião é uma estupidez que minou a imaginação de jovens artistas aspirantes em toda a parte. Existe apenas uma solução, que permanece inalterada desde os tempos de Sócrates: cada indivíduo é responsável por sua própria educação e instrução.