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Philip Glass: Meu problema é que as pessoas não acreditam que eu componho sinfonias

Ilustração por Galya Gubchenko | Behance.net
Ilustração por Galya Gubchenko | Behance.net

Aos 80 anos, o compositor fala em seu lento caminho ao sucesso, e porque ele se considera qualquer coisa, menos um minimalista.

O compositor americano Philip Glass, que completou 80 anos em 2017, tem sido um dos mais influentes compositores do último meio século. Após ganhar notoriedade mundial durante os anos 1970 com obras como Koyaanisqatsi, Einstein on the Beach e Satyagraha, ele colaborou com Allen Ginsberg, Robert Wilson, Doris Lessing, Martin Scorsese, Ravi Shankar, David Bowie, Paul Simon, e muitos outros. O aniversário do compositor foi marcado com uma produção da Ópera Escocesa de The Trial e um final de semana dedicado aos seus 80 anos no Barbican, em Londres.

Na entrevista que segue, concedida à jornalista do The Guardian, Fiona Maddocks, o compositor faz um apanhado de sua carreira, suas influências, professores, o fato de não se envergonhar em ter dirigido um táxi e sua recusa em ser rotulado de minimalista.

Glass foi conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento em 2008. A temporada deste ano trará Camille Paglia e Graça Machel. Garanta seus ingressos aqui e confirme sua presença neste evento!

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Parece que ninguém – quer que seja você, Steve Reich, ou John Adams – gosta de ser rotulado de minimalista. O que devemos chamar você se não isso?

Vamos falar nisso. O problema é que ninguém agora está mais fazendo minimalismo. Foi a música que compusemos nos anos 1970. Está há 30 anos fora de moda. É uma ideia maluca usar uma descrição feita por jornalistas e editores para definir todos os tipos de música. É um termo mais confuso do que descritivo. O que eu faço? Escute minhas composições. Escrevi 26 óperas, 20 balés, não sei quantas trilhas sonoras para cinema. Escrevo trilhas de teatro. Escrevo concertos e sinfonias também. Estou trabalhando em uma nova trilha sonora para cinema agora.  Então vou começar um trabalho para o teatro. Meu problema é que as pessoas não acreditam que eu escrevo sinfonias. Mas acabo de estrear minha 11ª Sinfonia. São vários estilos de música. Talvez eu faça coisas demais.

 

Mas é a descrição que pegou: Philip Glass, o grande minimalista americano...

Se as pessoas me chamassem de um compositor de óperas americano seria em virtude do que eu faço, na verdade. Isso é a realidade. Deus nos perdoe se formos precisos. Não estou inventando. Seria mais fácil dizer que eu sou um compositor islandês que escreve música serial? Isso ia ajudar? Eu sou um compositor de teatro.

Muitas pessoas querem ouvir o que eu fiz nos anos 1970 e 1980. E você sabe o que eu faço, eu toco. Eu falo com Paul Simon ou alguém desse nível e é a mesma coisa. Eu pergunto, “o que você toca nos shows, Paul?”, e ele responde, “eu toco umas músicas novas e os meus hits”. E é verdade. Se você for num show do Paul Simon, você quer ouvir Bridge Over Troubled Water. Seu trabalho recente, aliás, é lindo, mas não é por causa dele que as pessoas compram ingressos. Elas querem ouvir as antigas. É a mesma coisa comigo quando toco com o The Philip Glass Ensemble. Estamos juntos há 40 anos. Tocamos as conhecidas, os hits.


Então você está dizendo, então, que toca... minimalismo!

Ora, sim, admito que eu faço parte da confusão. Retrabalhamos uma peça de 1971. E, adivinha, é minimalismo! Ok, ok, ok, eu sou tão ruim quanto os jornalistas [risos].

 

Crescendo em Baltimore, nos Estados Unidos, você satisfez sua curiosidade musical ouvindo o estoque da loja de discos de seu pai. Nesse período, qual foi a descoberta mais marcante?

Nenhum em especial, apesar que eu ouvia de tudo – o que chamávamos de “hillbilly”, Buddy Holly e rhythm and blues, bem como Beethoven e coisas que eram muito modernas na época - Shostakovich e Bartók. Mas no que se refere aos discos da loja, sempre havia música contemporânea – Charles Ives, o grande compositor americano; E a segunda escola de Viena – Berg, Webern e, em menor grau, Schoenberg. Eu encomendei um livro sobre harmonia básica – não conseguia encontrar nas livrarias locais – e o segui ao pé da letra. Era bastante tradicional!

Mas, veja bem, eu estava consumindo um enorme repertório nessa época. Eu estava estudando música no Instituto Peabody. Aos 9 ou 10 anos, eu estava participando de missas de Bach em performances na igreja. No ensino médio, eles queriam fazer shows e o que faziam? Gilbert e Sullivan! Eu tocava flauta na orquestra. Aprendi como o teatro funciona: os músicos no fosso, o tempo, como os cantores entram e saem do palco. Não é uma maneira ruim de aprender uma profissão. Me deu uma base boa e sólida. Quando, anos depois, comecei a compor óperas, me senti confortável sobre tudo isso.

 

Você foi para a Universidade de Chicago, incrivelmente cedo, aos 15 anos, e então para a Escola Juilliard em Nova York. Mas o grande salto foi quando você foi para a Europa. Você disse que tinha dois anjos da guarda, seus dois grandes professores, Nadia Boulanger e Ravi Shankar.

Eu sempre digo que uma ensinava via medo, e o outro, via amor. Nadia Boulanger era a grande guru em Paris. Ela era tremendamente forte. Ela me ensinou Bach, Beethoven, Mozart – todas as ferramentas artísticas da música ocidental – com uma mão de ferro. Era, essencialmente, para entender a técnica. Então veio Ravi Shankar, o mestre da música erudita indiana. Eu o conheci em 1064. Então tive contato com dois dos maiores expoentes de diferentes tradições ao mesmo tempo. Eu tinha 25 e o Ravi era quase 20 anos mais velho. Eu era um estudante. Me mantive próximo a ele por um longo tempo. Colaboramos. Conversei com ele poucos dias antes do seu falecimento.

 

A sua longa imersão em música e filosofia indiana, na tentativa de ir além do turismo cultural, moldou seu estilo, em termos práticos e estéticos...

O tempo que passei na Índia, que incluiu longas e curtas visitas ao país desde o final dos anos 1960 até 2001, abriu uma porta para o mundo da música global. Até então, estava imerso na música erudita europeia. Em Kerala, entrei em contato com a Kathakali, a dança clássica do teatro indiano, que influenciou minhas óperas, como Satyagraha. Na época, ouvir qualquer coisa não ocidental não era fácil. Você não achava os discos, fora algumas coletâneas especiais organizadas por antropólogos. Se você quisesse ouvir música de Bali, tinha que ir para Bali. É difícil crer nisso hoje.

 

Você acha que cumpriu seus objetivos da juventude? Ou isso só faz sentido agora, olhando para trás?

Eu decidi cedo que não ia ser um professor de música ou um acadêmico. Portanto, assim que conclui meus estudos na Europa em 1967, formei o The Philip Glass Ensemble – sete músicos tocando teclados em uma variedade de afinações, amplificados e alimentados por um mixer... Achava que não tinha escolha a não ser me tornar um performer. Naquela altura, já havia parado de tocar flauta, mas eu havia aprimorado minhas habilidades no piano. A ideia do Ensemble era tocar as minhas composições. A gente ensaiava na minha casa, tocávamos a minha música! Esse era o acordo. Fazíamos algumas exceções e tocávamos outras coisas, quando ensaiávamos em outro lugar. E eu podia sentir a resposta do público. Eram plateias pequenas, a princípio, claro. Às vezes só umas vinte pessoas. Então fizemos mais sucesso, mas demorou muito, muito tempo antes de ganharmos algum dinheiro. Demorou uns 10 ou 15 anos.

 

Einstein on the Beach foi um enorme sucesso em 1976, mas você ainda dirigia um táxi e trabalhava de encanador.

Sim, depois de Einstein, voltei a dirigir um táxi em Nova York. Não me importava com isso. Era um trabalho interessante. Eu não tinha um agente. Eu administrava todo o lado financeiro e a bilheteria sozinho. Eu gostava disso. Cresci no mercado musical. Eu estava feliz em fazer isso. Mas demorou e deu muito trabalho. Em 1979, quando tocamos pela primeira vez no Carnegie Hall, tivemos que pagar para tocar e vender os bilhetes nós mesmos!  Eventualmente, fundei minha editora e contratei funcionários. Eu não fiz isso por eles!

 

Será que as velhas divisões entre estilos musicais – motivo para surpreendentes disputas nas últimas décadas do século 20 – agora acabaram? As pessoas agora aceitam as suas escolhas de harmonia, melodia e estrutura?

Não, não, não, não.  Essas divisões nunca acabaram. As pessoas simplesmente morreram! As pessoas que não gostam da sua música não mudam de ideia. Se você tiver sorte, vive mais que elas. Os caras mais velhos estão todos mortos agora. A batalha não foi vencida ou perdida. O exército simplesmente foi embora. O que posso dizer? É biológico. Nada mais. Eles simplesmente se foram, e a gente continua a tocar.

Fonte: The Guardian