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Renato Mezan: os heróis, os corruptos e a crise do amadurecimento político do brasileiro

Não é de hoje que a psicanálise coloca a sociedade no divã. A análise das forças sociais sobre o indivíduo nasce junto com o próprio campo de pensamento, com seu pai, Freud, que até hoje é amplamente utilizado pelas ciências humanas, por nomes que vão de Zygmunt Bauman a Slavoj Zizek, este último tendo estudado psicanálise formalmente, na Universidade de Paris.

A explicação para isso vem daquela considerada uma das maiores historiadoras da psicanálise, a francesa Elisabeth Roudinesco, que é categórica ao afirmar que psicanálise não entra no campo das ciências biológicas, e sim no campo da filosofia, sendo hoje muito mais estudada por psicólogos do que por psiquiatras.

Por isso, psicanalistas estão presentes no palco do Fronteiras do Pensamento, desde a primeira edição do ciclo, e apresentam complexas e intrigantes panoramas da contemporaneidade, unindo os sombrios universos do sujeito às conjunturas políticas e sociais.

Foi o caso de Renato Mezan, psicanalista, doutor em Filosofia, que esteve no projeto para discutir a questão dos refugiados e do multiculturalismo no mundo. Nesta entrevista, Mezan volta seu olhar ao Brasil, trazendo uma análise sobre a relação do brasileiro com a política. O que avança, regride ou permanece o mesmo na sociedade brasileira?

Enquanto Mezan considera que a busca por um "herói" pertence à nossa formação social, ele aponta que as manifestações nas ruas são uma transformação que “veio para ficar". Protestos, diz ele, revelam um processo de consciência e amadurecimento da sociedade – numa metáfora, a fase da adolescência, que traz consigo a presença do sectarismo em alguns episódios. Confira abaixo:

Como o senhor avalia o momento de conflito que vivemos?
O conflito é a regra na sociedade, não a exceção. E justamente para limitar as consequências nefastas dos conflitos generalizados na guerra de todos contra todos é que foram sendo criadas as instituições da civilização. De um modo ou de outro, elas nascem do consentimento dos indivíduos de abrir mão de parte do seu poder – o de obrigar os outros a fazer o que eles querem – em troca de não serem obrigados a fazer o que eles querem.

Como definiria a relação dos brasileiro com as instituições?
O que se vê é que a estrutura, por uma série de razões, começou a ser questionada. E o resultado disso é um abalo sísmico, um terremoto na consciência das pessoas. As nossas instituições não são boas e a gente está pagando um preço elevadíssimo ao descobrir isso. Há promessas demais para realidade de menos. O brasileiro tem, nesse sentido, uma tendência ao pensamento mágico de que alguém vai resolver.

Buscamos um herói, um salvador da pátria?
Sim. Isso faz parte da nossa formação social. Quer dizer, o herói nacional do momento é o Sergio Moro, assim como foi antes o Joaquim Barbosa.

Isso não é perigoso?
Eu não diria que é perigoso. Acho que é uma solução mais para o pensamento infantil de idealização, no padrão “meu pai é mais forte que o seu". Pode ser uma tendência, uma generalização, mas acho que estamos em uma crise de crescimento – se quiser usar uma metáfora psicológica. Existem aspectos, digamos, mais infantis, que continuam presentes, e outros que prenunciam atitudes mais maduras. Vivemos no Brasil uma grande crise de adolescência em relação ao amadurecimento político das instituições. Faz parte da adolescência a crença do “tudo ou nada": nossa tribo é a melhor e todas as outras não prestam; os mais velhos não sabem nada e são babacas e não sei o quê. E o mesmo vale para as crianças mais novas.

Como explicar a agressividade de grupos opostos nas ruas?
Uma explicação razoável – não para a agressividade, pois essa é natural como ter dois braços e dois olhos –, mas para a expressão da agressividade de forma descontrolada é que ela seja uma reação à frustração. Faz parte do processo de amadurecimento de qualquer pessoa, criança, ou sociedade aprender a conviver com as frustrações. A manifestação da agressividade é proporcional à intolerância à frustração.

Como assim?
Pensando psicanaliticamente, a sensação de frustração que vivemos em parte é justificada porque me é dito que eu voto e que eu posso ter isso ou aquilo. Mas na hora em que vou exercer meu direito me deparo com a dura realidade de que ele é inexequível porque não há condições, em parte porque o País não tem dinheiro, em parte porque a gestão é incompetente e ou corrupta. Então isso provoca em mim uma revolta. Eu posso espernear, quebrar vidraça, espancar os funcionários, xingar, escrever no “reclame aqui", sei lá. Ou eu posso aproveitar isso e fazer como em 2013, que foi quando se deu o primeiro urro nas ruas.

Diria que a natureza humana é corrupta?
Não. Corrupto é um termo moral. A natureza humana é o que é. Spinoza começa um dos seus livros dizendo que se os homens fossem anjos, não precisariam do governo. E se a gente quer uma teoria política eficaz e que diga como as coisas são, nós temos que começar por adaptá-la ao ser humano como ele é. Ele tem inclinações e tendências naturais, funções, defesas, angústias e o comportamento humano é resultado dessas forças em conflito. Às vezes esse resultado é bom para o indivíduo e o seu grupo e às vezes ele é ruim para o indivíduo e o seu grupo.

O que poderia brecar as atitudes corruptas?
O que evita a corrupção generalizada é, primeiro, a convicção de que as leis, as instituições, são suficientemente boas para a maioria. Isso é a primeira coisa. E ainda não temos hoje, no país, essa convicção. (Via Estadão)