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Taxar capital não é o caminho, diz Joseph Stiglitz

Stligtz:
Stligtz: "aumento da riqueza corresponde a um aumento do valor da propriedade imobiliária e não do volume de bens de capital."

Em entrevista ao site da revista eletrônica Alternet, o vencedor do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, um especialista na questão da desigualdade, critica a tese do economista francês Thomas Piketty, cujo livro O capital no século XXI, um calhamaço de mais de 500 páginas, se tornou uma coqueluche editorial. 

Piketty já tinha sido contestado por economistas com linhas de pensamento divergentes, mas o interessante deste debate é que ele se dá entre críticos da desigualdade entre ricos e pobres.

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Stiglitz vem produzindo estudos sobre desigualdade, sobretudo nos Estados Unidos, desde a década de 1960. Seu livro mais recente, The Price of Inequality (“O preço da desigualdade”, em tradução livre), afirma com todas as letras que a crescente distância entre ricos e pobres atrasa o desenvolvimento dos Estados Unidos. 

Na entrevista, ele comenta aspectos de seu ensaio apresentado recentemente na Columbia University, intitulado New Theoretical Perspectives on the Distribution of Income and Wealth Among Individuals (“Novas perspectivas teóricas sobre a distribuição de renda e riqueza entre indivíduos”) e a necessidade de a disciplina da Economia a lidar com o problema da distância entre os que têm e os que não têm.

VALORIZAÇÃO DA PROPRIEDADE

É na crítica a alguns detalhes da tese de Piketty que o debate se aprofunda. “Creio que a maioria dos leitores do livro de Thomas Piketty ficam com a impressão de que a acumulação de riqueza — poupança — é a responsável pelo aumento da desigualdade e que há, portanto, de certa forma, uma ligação entre crescimento da economia — a acumulação de capital — de um lado, e desigualdade e riqueza”, afirmou o economista americano. 

“Meu ensaio começa com a observação de que, na verdade, não se pode explicar o que tem acontecido na relação entre riqueza e renda por esta análise. Uma olhada mais cuidadosa sobre o que tem acontecido sugere que uma boa fração do aumento da riqueza corresponde a um aumento do valor da propriedade imobiliária e não do volume de bens de capital.”

Stiglitz acrescenta que, ao mencionar o valor da propriedade imobiliária, não se refere a latifúndios e terras de agricultura, mas à propriedade imobiliária urbana. 

Segundo ele, além da proporção riqueza/renda, também é considerado a valorização de outros tipos de rendas, como as rendas de monopólio. Se as rendas de monopólio crescem, se o poder de mercado de empresas relativamente aos trabalhadores cresce, como no caso da capacidade de alguns agentes, como os bancos, de obter garantias do governo — este valor cresce e se torna capitalizado.

“Isto aumenta a riqueza, mas não aumenta o capital. E, portanto, é esta diferença entre riqueza e capital que se acaba sendo crítica”, afirma Stiglitz. “A razão pela qual isso é importante é porque a partir daí se pode investigar as razões pelas quais o valor da propriedade imobiliária e de outras fontes de valor de riqueza terem crescido. Muito do meu livro The Price of Inequality é sobre por que houve um aumento na busca de renda. Mas a outra parte é mais externa em termos de valor da propriedade ou valor dos ativos. Isso, proponho, está bastante relacionado ao sistema de crédito.”

O PESO DO CRÉDITO

Segundo o economista, se há um aumento do fluxo de crédito, como se viu nos últimos anos, percebe-se que esse crédito “não serviu para mais acumulação de riqueza como em geral se usa o termo na economia, como bens de capital. O que houve foi um aumento de bolhas de um ou outro tipo.”

“O que aconteceu repetida vezes nos últimos anos”, disse Stiglitz, “é que tivemos as autoridades monetárias permitindo — por meio de desregulamentações e padrões (monetários) mais flexíveis — que os bancos emprestassem mais. Mas esses financiamentos não geraram novos negócios nem bens de capital. 

De forma desproporcional, eles foram investidos no aumento do valor da propriedade imobiliária e outras fontes físicas (prédios, imóveis etc.). E era isso que preocupava a todos. Assim, neste sentido, e nessa discussão que permeou o quantitative easing (a política de flexibilização monetária do banco central americano), ninguém relacionou isso com desigualdade ou com o crescimento macroeconômico geral.”

“As ligações com a desigualdade provêm de dois desdobramentos: um, que ocorre num nível bastante macro, sugere que, se mais das poupanças da economia levam a um aumento do valor da propriedade imobiliária, em vez do estoque de bens de capital, então a produtividade do trabalhador não crescerá. Os salários não subirão. Então, parte do que está acontecendo é que não se fez o tipo de investimento que deveria ter sido feito.”

“Mas, o outro lado, que provavelmente é mais importante, é que quando se desregulamenta, se permite que haja mais empréstimos contra garantia. E, então, aqueles que têm ativos que podem ser usados como garantia veem esses ativos se valorizarem em preços, como propriedade imobiliária. 

E assim aqueles que possuem riqueza se tornam mais ricos. Os trabalhadores, que não têm riqueza, não se beneficiam dessa expansão. Assim, a ligação é que o crédito afeta os preços das propriedades imobiliárias e os preços fixos dos ativos, e estes seguem desproporcionalmente rumo aos ricos. E esta é uma grande razão para o aumento da riqueza.”

Em sua argumentação, Stiglitz reconhece que há um efeito colateral na aplicação pura e simples de um imposto sobre a riqueza e classifica como extremamente simplista a posição de Piketty de simplesmente taxar o capital. Stiglitz sugere que o próprio governo invista parte dos recursos recolhidos de impostos no capital, de modo a prevenir um aumento da taxa de retorno de crescer.

MONICA DE BOLLE: NÃO EXISTE CONTRADIÇÃO

Para a economista Monica de Bolle, Global Fellow do Woodrow Wilson Center e tradutora da edição brasileira O capital no século XXI, não existe contradição entre o que o Stiglitz afirmou e o livro de Piketty.

— São perspectivas diferentes para o mesmo problema, não existe contradição. Stiglitz vê a diferença na distribuição de riqueza ligada à abundância de crédito, que possibilita a formação de bolhas. Quando a bolha estoura, uns têm capacidade maior de se defender que outros. Fala da situação dos Estados Unidos e olha principalmente os anos mais recentes, desde a crise de 2008. Isso não é inconsistente com a teoria de Piketty — diz Monica.

Ela explica que o principal objetivo do livro do economista francês foi mostrar o aumento da desigualdade de renda, com dados empíricos que apontam o retorno sobre o capital foi maior que o retorno sobre o trabalho nos últimos séculos. Piketty arrisca algumas explicações para o fenômeno, segundo ela, mas que não são o foco principal do trabalho.

Sobre as críticas de Stiglitz em relação à proposta de Piketty de taxar o capital, considerada simplista, Monica reconhece que é uma iniciativa “difícil de ser realizada”:

— A proposta de uma taxação global do capital é muito difícil porque exigiria que os países abrissem mão da soberania fiscal. Se nem a União Europeia, que é um bloco, abriu mão dessa soberania, é realmente ingênuo pensar que se possa fazer isso de maneira global.

(Via O Globo)