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Thomas Piketty: esclarecendo um dos maiores best-sellers de economia

Thomas Piketty é o autor mais vendido da história da economia. Seu livro O capital no século XXI chegou ao topo das listas de mais vendidos de forma surpreendente, já que, mesmo que Piketty escreva de forma clara, o livro tem 700 páginas e trata de um tema denso, a história da riqueza e da renda.

Na obra, partindo de sua pesquisa sobre 20 países, Piketty apresenta uma fórmula simples para explicar a desigualdade econômica: r > g, o que significa que a renda sobre o capital cresceria num ritmo mais rápido do que a economia.

Na prática, Piketty quer mostrar que aqueles que já possuem um patrimônio, seja por herança, investimentos ou bônus, tendem a enriquecer de forma mais rápida do que os que ganham sua renda por meio do trabalho. A renda produzida pelo capital tenderia, afirma, a se acumular nas mãos de pequenos grupos, enquanto a renda do trabalho tenderia a se dispersar pela população como um todo. Assim, conclui ele, se os ganhos sobre o capital aumentam mais rápido do que os salários, a desigualdade aumenta.

Apesar da leitura que muitos tiveram sobre o livro, Piketty esclarece que a desigualdade em si não é a vilã da história, mas sim seu crescimento, que levaria ao real problema, a extrema desigualdade. E, mesmo assim, este não é nosso inevitável destino, como explica o economista na entrevista abaixo. 

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Uma crítica frequente a seu livro é que o senhor, ao se concentrar no crescimento da desigualdade no Hemisfério Norte, subestimou a tremenda elevação de padrão de vida nas partes mais pobres do mundo nos últimos 30 anos, graças à globalização. A crítica procede?

Thomas Piketty: Meu livro trata da história global da renda e da riqueza desde a Revolução Industrial. Analiso em detalhes os cerca de 20 países onde foi possível coletar dados históricos. É óbvio que retrato a tremenda redução na desigualdade de renda em termos globais, advinda da elevação do padrão de vida nas partes pobres do planeta, nos últimos 30 anos. Esse é um aspecto muito positivo da globalização.

Diante desses fatos positivos, por que escolheu escrever um livro pessimista, que enfatiza a desigualdade?
Discordo. Meu livro é sobre a história da riqueza e da renda. Não é um livro sobre igualdade ou desigualdade. Ele não é pessimista. Essa certamente não é minha leitura. É a sua.

Há muitas boas notícias no livro. Por exemplo, que a renda das pessoas no mundo tende a se aproximar, graças à globalização. Acredito na globalização e nas forças de mercado. Não escrevi um livro para a esquerda ou para a direita, não é um livro para celebrar ou reclamar. É uma pesquisa sobre a história da renda e da riqueza. Há boas notícias e problemas que precisam ser resolvidos. Não escrevi esse livro para marcar um ponto de vista político.

Então houve um grande mal-entendido, professor, porque todo mundo que leu e comentou seu livro viu nele uma denúncia sobre o crescimento da desigualdade...
O livro se tornou tão popular que todo mundo quer escrever sobre ele. Às vezes aparecem pontos de vista bem estranhos. Começo o livro discutindo crescimento, porque acredito em crescimento e em progresso social. Tivemos muito disso no último século.

Vivemos numa sociedade melhor graças ao crescimento, graças ao mercado e à propriedade privada. Talvez, haja gente que viva mentalmente na Guerra Fria, mas isso é problema deles, não meu. Essa não é minha perspectiva.

Digo que a desigualdade de renda é muito menor hoje do que foi no século XIX. E não acho que estejamos fadados a voltar a um cenário de extrema desigualdade. Vejo oportunidades e forças puxando em diferentes direções.

Muitos economistas dizem que a crescente desigualdade de renda no interior dos países ricos, ao contrário do que o senhor afirma, é apenas a consequência lógica da inclusão de 3 bilhões de pessoas (na China e na Índia, principalmente) no mercado de trabalho global. Essa multidão, dizem, tirou o poder de barganha dos trabalhadores na Europa e nos Estados Unidos.
Isso está perfeitamente correto. A globalização e a mudança dos padrões de demanda e oferta de trabalho global explicam uma parte importante do crescimento da desigualdade nos países desenvolvidos. Mas não explicam tudo.

A globalização aconteceu em toda parte, mas a desigualdade cresceu com mais força nos Estados Unidos do que na Alemanha, na Suécia ou no Japão. Parte da explicação parece ter a ver com a desigualdade educacional nos Estados Unidos. As melhores universidades são boas, mas a metade mais pobre da população não tem acesso a boas escolas de ensino médio ou a faculdades de boa qualidade.

Considero possível preservar a globalização e as forças positivas de mercado que vêm com ela e, ao mesmo tempo, desenvolver instituições sociais, educacionais e fiscais mais inclusivas.

É possível que o crescimento da desigualdade aconteça como um efeito colateral do crescimento da prosperidade, como os casos de China, Índia e vários outros países sugerem?
É claro que é melhor ter desenvolvimento com desigualdade do que pobreza com igualdade, como na China dos anos 1970.

Não tenho problema com a desigualdade, desde que seja do interesse comum, em particular do interesse dos segmentos mais pobres da sociedade. Não há nenhuma dúvida, do meu ponto de vista, que algum grau de desigualdade é desejável. Mas, quando a desigualdade se torna extrema, ela não é mais útil para o crescimento. Pode até atrapalhar.

A desigualdade extrema tende a vir com pouca mobilidade e cria estruturas que perpetuam a desigualdade ao longo do tempo. Na Europa antes da Primeira Guerra Mundial, 90% da riqueza nacional pertencia aos 10% mais ricos. Era excessivo. Não queremos retornar a isso.

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Por que os pobres no Brasil ou na China deveriam se importar com alguns se tornarem obscenamente ricos, se eles também melhoram de vida?
A desigualdade não é um problema em si. É uma questão de proporção. Quando a desigualdade se torna extrema, ela não é mais útil para o crescimento. A parte difícil é determinar o ponto ideal de igualdade ou desigualdade. É preciso fazer concessões. Mais desigualdade nem sempre é bom; mais igualdade certamente nem sempre é bom. É uma questão complicada. Não é simples concluir por uma opção ou pela outra.

Quando a desigualdade é boa para a sociedade?
Começo meu livro citando o artigo primeiro da Declaração dos direitos do homem, de 1789. Ela afirma que as distinções sociais devem se basear apenas no bem comum. É o que penso. A desigualdade é boa quando ajuda o bem comum.

Se todos ganhássemos o mesmo, independentemente do que fizéssemos, provavelmente estaríamos numa situação de pobreza, como a China 30 anos atrás. Ninguém quer voltar àquela situação. Igualdade e pobreza não são uma solução.

capital pikettyO senhor explica longamente em seu livro como a concentração de riqueza e oportunidades funcionava na sociedade do século XIX. Mostra como a Grande Depressão e as duas Guerras Mundiais criaram uma sociedade mais democrática e igualitária. As instituições políticas modernas são suficientes para evitar que voltemos à economia do século XIX?
No século XX, os grandes choques políticos do período de 1914 a 1945 – que incluem guerras e revoluções – tiveram um grande papel para reduzir as desigualdades e para induzir as elites ocidentais a acertar reformas fiscais e sociais que recusavam antes de 1914. Isso não significa que não podemos fazer melhor desta vez, sem guerras e revoluções.

Acredito firmemente que podemos desenhar instituições que coloquem as forças de mercado em prol do interesse comum. Minha principal conclusão é que precisamos de mais transparência sobre a dinâmica de renda e riqueza, para que possamos adaptar nossas políticas a qualquer evolução que se observe.

Por que o senhor propõe um imposto internacional sobre a riqueza?
Proponho que os países adaptem seu sistema de impostos sobre propriedade ao fluxo de riqueza dos dias de hoje, façam com que os impostos sejam progressivos e incidam sobre o total da riqueza, inclusive financeira. Isso foi feito na Grã-­Bretanha, com apoio dos dois maiores partidos.

Acho, também, que os países têm feito progressos na direção da coordenação financeira internacional. Seria um erro imaginar que mais progresso não possa ser feito. Cinco anos atrás, as pessoas pensavam que o sigilo bancário na Suíça duraria para sempre. Foram necessárias apenas algumas sanções americanas para que os bancos suíços começassem a partilhar as informações sobre transações financeiras. É possível.

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Muita gente ataca suas ideias sobre impostos com base no que acontece na França, de onde os ricos têm fugido para outros países…
Não escrevi um livro sobre a França nem sou porta-­voz do governo francês. Represento um projeto internacional de estudo que nada tem a ver com a França.

Se o senhor quer que eu diga o que penso sobre o governo da França, posso lhe dizer que ele tem sido terrível, em parte porque aumentou demais os impostos.

Os últimos dois governos tentaram reduzir o déficit com impostos. Tem sido um desastre, porque mataram o crescimento. Não tenho nenhum problema em dizer que essa política é um desastre.

(Via Época)