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Valter Hugo Mãe, imprudentemente poético

Valter Hugo Mãe em Tóquio (foto: instagram do escritor)
Valter Hugo Mãe em Tóquio (foto: instagram do escritor)

Valter Hugo Mãe tem sido aclamado como uma das mais significativas vozes da literatura portuguesa atual. O escritor é conhecido por tratar cada frase e cada palavra de seus textos com o cuidado de um artesão. Sua linguagem fascinante, com um uso afetivo e, ao mesmo tempo, exigente do idioma que Portugal legou ao mundo, revela uma quase obsessão pelo texto.

Mãe não hesita em recomeçar caso sinta que a obra não está satisfatória: em Homens imprudentemente poéticos, seu mais recente romance, chegou a descartar centenas de páginas prontas. "Este livro está na sua 17ª versão. Isso significa que eu cada vez corrijo menos e abandono mais. Comecei 17 vezes este livro, com personagens distintas, muitas vezes partindo de pontos completamente diferentes, em tempos diferentes, idades diferentes das personagens fundamentais, com personagens fundamentais que desapareceram do livro, com outras personagens que apareceram apenas na 15ª versão", conta o escritor ao jornalista Edney Silvestre.

Este é o sétimo romance do autor português e acaba de chegar às livrarias brasileiras, pelo selo Biblioteca Azul/Globo Livros. Completando duas décadas de criação literária, Valter Hugo Mãe se afasta ainda mais da pátria onde ambientou seus cinco primeiros livros.

Enquanto sua obra anterior, A desumanização, se passa na Islândia, Homens imprudentemente poéticos vai ainda mais longe: para o Japão antigo, que aparece não apenas como um cenário, mas sim como um personagem importante, com seus ritos, tradições e natureza misteriosa.

No livro, o autor traz à tona os temas da morte e do suicídio, em um contexto em que este ato possui um ponto de vista distinto ao do ocidente. Segundo o autor, no Japão, “um suicida não é visto como um fraco ou desistente, é visto como alguém que entendeu sua existência e se sente preparado para se entregar à natureza".

Mãe situa seus personagens em uma aldeia próxima ao Monte Fuji, perto da região conhecida como a Floresta dos Suicidas, lugar que visitou enquanto escrevia a história, como conta nesta entrevista.

Por que Japão, Valter?
Valter Hugo Mãe: Porque o Japão tem essa lição de sociedade, da cordialidade e do respeito, construída em cima de uma história grotesca, difícil, de predação quase contínua, de castas, de uma hierarquização feroz. E, subitamente, o Japão, dentro dessa sua história bastante atroz, conseguiu uma disciplina quase espiritual, de um equilíbrio social tremendo, em que efetivamente as pessoas são muito paritárias.

Você foi ao Japão? Escreveu lá, escreveu depois, anotou?
Valter Hugo Mãe: Eu fui ao Japão antes de escrever, fui enquanto escrevia e fiz muitas notas, tirei muitas fotografias, detalhes que me pareciam inevitáveis para o meu livro. O que acontece é que ficamos com tantas pistas, com tantas coisas guardadas, que uma só linha anotada numa determinada manhã pode pode ser a proposta de um livro completamente diferente.

O que eu sinto é que, se não houver, depois, um distanciamento, se não houver, depois, um bom regresso dessa viagem, eventualmente, viramos autores de uma antropologia, como se tivéssemos a fazer uma reportagem, mais do que propriamente alcançar a literatura.

Você tem cadernos de anotação.
É verdade.

Apesar dos cadernos de anotação, o Valter tem escrito, e particularmente o romance novo, num outro meio: em telefone celular. Que história é essa?
É verdade. Os telefones, hoje, são um pequeno escritório portátil. O escritor, finalmente, tem o esconderijo perfeito. Pode passar o dia inteiro em um shopping, entre milhares de pessoas e não ser detectado, não criar uma estranheza ao seu gesto. Inclusive à sua obstinação com o aparelho, porque essa obstinação é uma coisa comum.

O que é a Floresta dos Suicidas?
A Floresta dos Suicidas existe, é um lugar perto do Monte Fuji, onde as pessoas que pensam em morrer adentram para longas meditações e para decidir se regressam à vida ou se decidem pela morte. Foi depois desta visita que eu achei que inequivocamente a Floresta entraria no meu livro. Ela é um personagem o livro e representa o animismo japonês. Interessa-me muito esta dimensão animista das culturas. Há uma espécie de elogio à evidência natural. Tem sempre o sol, a garça, o pássaro que é o Tsuru, o gesto do animal, a folha, a árvore... A poesia deles é sempre uma fotografia.

Você dedica o livro a dois grandes cineastas japoneses, que são o Ozu e o Miyazaki. Por quê?
Porque a influência de um e de outro, de maneiras distintas... O Miyazaki no fim da minha infância e o Ozu na minha vida inteira, são dois homens que me impressionaram para a estética e para a cultura japonesa.

CURIOSIDADE | Poucas pessoas repararam que, nas 200 páginas de Homens imprudentemente poéticos, há uma palavra que nunca é utilizada: o 'Não'. O escritor confirma que o fez intencionalmente e logo nas primeiras versões do romance: "Um dos desafios foi exatamente esse, o de alguma coisa que nunca poderia ser dita."

LEIA TRECHOS DE HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS

"Estavam vivos e juntos, pensavam. Estavam vivos e juntos. A felicidade poderia ser aquilo. Matsu, por incapacidade de se conter, dizia isso mesmo: a felicidade está na atenção a um detalhe. Como se o resto se ausentasse para admitir a força de um instante perfeito."

"Esperaram pelo sono para se mudarem para o dia seguinte. Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite. Acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança."

"O Japão era uma ordem generosa. Respeitavam-na. A senhora Kame também se dividia entre ficar doente dos ossos ou visitada pelo sopro da inteligência universal. Por esse motivo, procurava explicar o que sentia sem parecer queixar-se. Era como definir uma dor por gratidão. Pressentia que deveria agradecer e acarinhar aquele peculiar medo. O medo também era uma presciência."

“Estava sempre em preces, porque era o mais corajoso que tinha para fazer. A criada, como Itaro, sabia que Matsu explicava aos deuses a vida na mais terna honestidade. De qualquer maneira, a jovem cega honrava a família e toda a piedade que auferiam havia de ser sobretudo por graça dela."


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