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Wim Wenders, visionário do cinema, estreia ópera

Crédito: Thiago Picolli
Crédito: Thiago Picolli

Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento em 2008, o cineasta alemão Wim Wenders, além de fazer um apanhado de sua carreira como diretor, falou sobre os limites e as fronteiras do cinema e da arte como um todo.

Ele disse que “a identidade não é, não vem de opções ilimitadas, aleatórias. A identidade é moldada e produzida pela experiência; você não a tem do nada. A experiência só é possível onde há abertura ao outro, à vida, a Deus, à curiosidade, ao aprendizado, às fronteiras e também à liberdade”.

Nessa entrevista ao New York Times, Wenders explica como ultrapassou as fronteiras do cinema e como uma experiência de frustração com a sétima arte acabou levando-o a se encantar por uma ária de Bizet, e como essa história encontrou um fechamento, no convite para colaborar com um dos seus regentes favoritos.

 Wenders foi conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador em 2008. A temporada 2017 já começou e trará ainda aos palcos Camille Paglia e Graça Machel. Garanta seus ingressos


Wim Wenders estreia ópera em Berlim

1978 foi, segundo o Wenders afirmou em recente entrevista, “um ponto baixo em minha vida”. O projeto cinematográfico que havia o trazido para São Francisco, Califórnia, parecia estagnado. Aos 33 anos, ele se sentiu sem rumo.

O alento veio em visitas noturnas (que logo também seriam diurnas) ao Tosca, um bar Art Deco que se tornou sua segunda casa. Apropriadamente para um lugar com um nome inspirado em uma diva, a jukebox tocava apenas óperas. Logo, Wenders estava ouvindo repetidamente um único compacto: a melancólica ária cantada pelo abandonado personagem Nadir, o pescador, parte da raramente encenada ópera de Bizet, Les pêcheurs de perles (Os pescadores de pérolas).

Quase quarenta anos depois e Wenders, agora famoso por filmes como Asas do desejoBuena Vista Social Club e Pina recebe uma ligação do diretor musical do teatro Staatsoper, Daniel Barenboim, o convidando para uma colaboração. Wenders é o mais recente em uma crescente lista de cineastas a quem o mundo da ópera alistou, buscando novas perspectivas e uma dose de glamour hollywoodiano.

“Como poderia recusar?”, disse Wenders sobre o convite. “Eu vi Barenboim regendo ou fazendo apresentações solo por todo o mundo. Receber um convite aberto para uma colaboração era bom demais para ser verdade, e eu aceitei imediatamente”.

Então veio a hora de escolher o repertório. Finalmente, Wenders, retornando a sua obsessão californiana, propôs Os pescadores de pérolas, um melodrama orientalista sobre dois amigos que competem pelo amor de uma sacerdotisa – fora a ária do tenor, o outro ponto alto da ópera é a amizade entre os dois, expressa em um dueto chamado Au fond du temple saint (Abaixo do santo templo), um dos mais belos momentos do espetáculo).

Barenboim, nunca tendo regido essa ópera, leu sua partitura minutos após a sugestão de Wenders, que lembra do maestro fazendo a leitura e ao mesmo tempo já invocando a música. Eles concordaram (ambos mantiveram segredo sobre os detalhes da produção, fora que ela se passa em uma praia).

Apesar de ter dado início à sua carreira aos 21 anos, quando Wenders trocou seu saxofone por uma câmera e escolheu o cinema em vez da música, ele afirma que a música desempenha um forte papel em sua vida. Ópera não faz parte do seu repertório diário – ele cita Bach, rock, blues e batidas africanas como favoritos – mas afirma que a ária de Nadir ainda lhe causa arrepios a cada audição.

“Música sempre ajudou”, ele afirma. “Eu fiz vários filmes dedicados à música. E trabalho ouvindo música alto, e minha mulher fica surpresa como eu consigo trabalhar com todo esse barulho. Mas, para mim, é o contrário: como eu conseguiria trabalhar sem música?”.

Diretores de cinema seguidamente sofrem para entrar no mundo da ópera, amedrontados pela inflexibilidade do andamento, pela impossibilidade de pós-produção e os desafios de grandes coros, incluindo Os pescadores de pérolas.

“É uma atividade muito diferente do que levar o público ao cinema”, diz Wenders, “O coro é enorme, temos 86 pessoas no palco”.

Mas ele considera que alguns de seus conhecimentos cinematográficos o ajudaram nesse trabalho.

“Acho que sou um dos poucos diretores que se mantiveram coerentes com a ideia de que um filme precisa, às vezes, de planos bem amplos”, ele afirma. “Muitos filmes hoje em dia são feitos inteiramente de close-ups, e eu amo planos abertos. O palco, nesse caso, não era amplo o suficiente, e queríamos fazer o cenário mais amplo possível de encaixar ali. E então, o fato de eu gostar de planos abertos ajudou, e claro eu sei um pouco sobre música e luz” – no primeiro ato, em meio a um palco quase completamente escuro, a sacerdotisa, Leila, está usando um véu branco luminoso que é acesso de forma que ela se pareça feita de marfim ou mármore.

Para um artista acostumado a exercer um controle quase completo nos filmes que realiza, Wenders parecia, contudo, feliz em compartilhar o crédito pelo produto final.

Barenboim, diz Wenders, “possui um incrível ouvido e seu tempo é perfeito”.