Voltar para Notícias

Economia comportamental volta a vencer Nobel

Acredito que a lição mais importante a se tirar da Economia Comportamental e das minhas pesquisas em particular é que os economistas devem ser verdadeiros cientistas sociais e prestar atenção ao mundo que os cerca. (Richard Thaler)

O norte-americano Richard H. Thaler, diretor e professor na Chicago Booth, a Universidade de Chicago Booth Escola de Negócios, venceu o Nobel por suas contribuições para a economia comportamental. Thaler, de 72 anos, recebeu o Nobel de Economia 2017 por ter desenvolvido a teoria da contabilidade mental, explicando como as pessoas simplificam a tomada de decisões financeiras e como características emocionais afetam diretamente um campo conhecido como racional, a economia. 

Thaler é mundialmente conhecido pela ideia do "nudge" na economia, um pequeno "empurrão" ou "cutucada" que incentiva ou altera uma determinada escolha individual. Este foi o tema de livro escrito em parceria com o advogado Cass Robert Sunstein, em 2008, e que chamou a atenção de grandes líderes políticos globalmente.  

No anúncio da premiação, a Academia Real Sueca de Ciências, organizadora do Prêmio Nobel, afirmou que Thaler construiu uma ponte entre as análises econômicas e psicológicas da tomada de decisão individual. "Suas descobertas empíricas e suas idéias teóricas têm sido fundamentais para criar o novo campo de economia comportamental e em rápida expansão, que teve um impacto profundo em muitas áreas de pesquisa e política econômica".

Em entrevista, Thaler explica os estudos que fizeram dele o vencedor do Nobel este ano e fala sobre a importância da Economia Comportamental para o desenvolvimento social. Não perca, também, a entrevista exclusiva do Fronteiras com outro Nobel da Economia Comportamental, Daniel Kahneman, considerado um dos pais deste campo.  

Existem muitas definições de Economia Comportamental e o que ela abrange. Qual seria a sua definição favorita?
Richard Thaler: Ao meu ver, Economia Comportamental é economia baseada em suposições e descrições realistas do comportamento humano. É simplesmente economia com maior poder explicativo porque seus modelos ajustam-se melhor aos dados.

Na sua opinião, quais devem ser os papéis da Economia Comportamental e Experimental na teoria econômica? Existem questões metodológicas específicas que os economistas devem ter em mente para fazer pesquisas de qualidade em EC?
Richard Thaler: Não acho que a Economia Comportamental requer ferramentas ou técnicas especiais. Gosto de descrevê-la como “economia baseada em evidências”. Deixe que os dados lhe digam o que está acontecendo, tanto no trabalho empírico como na formulação teórica. Mas os textos em Economia Comportamental são muito parecidos com os de qualquer outro tipo de economia. Sem truques.

Há trinta anos que suas pesquisas sobre aversão à perda, contabilidade mental e efeito dotação vêm sendo revolucionárias. Qual foi a lição mais importante que seus estudos lhe trouxeram nessa área, e que tendências vê para ela no futuro?
Richard Thaler: Acredito que a lição mais importante a se tirar da Economia Comportamental e das minhas pesquisas em particular é que os economistas devem ser verdadeiros cientistas sociais e prestar atenção ao mundo que os cerca. Comecei minhas “pesquisas” sobre contabilidade mental simplesmente observando e ouvindo meus amigos, inclusive colegas economistas, quando falavam sobre suas ideias a respeito de dinheiro. 

Como descrevo no meu livro recente, Misbehaving, comecei uma linha de contabilidade mental jogando pôquer com colegas economistas. Reparei que eles jogavam de maneiras diferentes dependendo de estarem na frente ou atrás no jogo daquela noite, apesar de o valor das apostas ser bem pequeno em relação à renda ou riqueza deles. 

Os insights que obtive ali foram usados mais tarde para explicar o enigma do “equity premium puzzle”, isto é, o fato empírico de que as ações têm retornos maiores do que os de títulos do governo em porcentagens que parecem altas demais. As mesmas ideias podem ser usadas para entender por que o volume cai quando o mercado imobiliário desacelera. Portanto, observar o comportamento do pequeno pode ajudar a entender o comportamento do grande.

Em uma resenha recente de Misbehaving na revista Regulation, o economista David Henderson disse que você vence frequentemente os debates sobre os méritos da Economia Comportamental. Você acha que a Economia Comportamental conquistou os economistas como um todo ou ainda existem resistências significativas a serem vencidas?
Richard Thaler: Creio que a maioria dos economistas com menos de 40 anos de idade não considera controversa a Economia Comportamental. A resistência vem dos economistas mais velhos da minha geração. Eu não diria que “vencemos”, mas que muitos dos melhores jovens economistas do mundo estão dedicando parte de seus esforços de pesquisa a abordagens comportamentais.

O que, em sua opinião, é um “bom” nudge? Quais são as principais fontes de objeção que você encontrou desde a publicação e o grande sucesso de seu livro Nudge (2008), escrito em coautoria com Cass Sustein? As pessoas veem nudges onde eles não existem?

Nudge Richard Thaler: As críticas mais frequentes derivam de equívocos quanto à nossa abordagem. As pessoas se esquecem de que descrevemos nossas políticas como paternalismo libertário. Tentamos formular políticas nas quais as pessoas possam desconsiderar ou recusar qualquer “nudge” a um custo pequeno ou nulo, idealmente com um mero clique do mouse. Apesar disso, nos acusam de querer dizer às pessoas o que fazer. 

Para mim, o nudge é semelhante a um GPS. Quando alguém usa um GPS, digita o endereço desejado e fica livre para desconsiderar as instruções do aplicativo, porém se perde com menos frequência. Isso também vale para nudges bem formulados. Eles ajudam as pessoas a atingir seus objetivos. Também somos acusados de tentar manipular pessoas, mas frisamos que todos os nossos nudges são transparentes. As placas em Londres que lembram os pedestres de “olhar à direita” antes de travessar a rua são “manipulações” ou lembretes úteis?

Como um dos fundadores da Economia e Finanças Comportamentais, como você descreve os desafios, revezes e êxitos que encontrou pelo caminho? Você tem alguma recomendação especial para os acadêmicos e profissionais que trabalham em países como o Brasil, onde a EC ainda não é amplamente reconhecida?
Richard Thaler: As finanças comportamentais foram recebidas com muito ceticismo no início porque as pessoas “sabiam” que os mercados eram eficientes. Só conseguimos avançar fundamentando o debate em fatos empíricos. Hoje esses fatos são razoavelmente conhecidos, e não muito polêmicos. Agora só nos resta discutir acerca da interpretação deles. Os avanços teóricos também têm sido importantes, mas quando se trata de novas abordagens parece que temos de começar pelos dados, e especificamente pelas anomalias. Esse é o modo de conseguir a atenção dos economistas.

(Entrevista via Economia Comportamental)