Voltar para Notícias

Alberto Manguel responde a Pergunta Braskem

Um homem apaixonado pela literatura, pelos livros e pela leitura. Esse é Alberto Manguel. O escritor argentino vive isolado no interior da França, sem celular, sem internet, mas rodeado por seus mais de 30 mil livros. Nesta quarta-feira (05), no palco do Fronteiras do Pensamento São Paulo, no Teatro Cetip, Manguel proferiu a conferência intitulada A biblioteca no inferno.

Após sua fala, Manguel respondeu a Pergunta Braskem, selecionada a partir das questões enviadas para o e-mail digital@fronteiras.com de todas as partes do Brasil. Confira sua resposta:

Pergunta enviada por Rosely A. Daltério:
Se solicitado a recomendar a um adolescente a leitura de uma única obra, que título recomendaria, e por quê? Como incentivar um adolescente a ler?

Resposta Alberto Manguel:
"As duas perguntas não têm resposta. Eu não poderia recomendar um livro a quem não conheço, assim como não poderia recomendar um prato de comida ou uma excursão, uma viagem ou música. Nós somos todos diferentes, temos gostos e necessidades diferentes. Então, é difícil recomendar. Poderia recomendar não ler certas obras, isso sim, porque existem livros que não deveriam ser lidos por ninguém, de tão ruim que são.

Em Roma, um poeta se queixava de que as pessoas não liam seus poemas e iam para o circo se divertir. Hoje, diria que estão jogando videogame ou estão navegando na internet. O dificil de responder esta pergunta, é que não é um problema isolado. Não podemos considerar o problema da leitura fora do seu contexto social. Vivemos em uma sociedade de valores opostos à leitura, com propósitos financeiros. A leitura, que não tem proveito financeiro e requer tempo, paciência, concentração, apreciar as dificuldades, é exatamente o contrário do que a sociedade valoriza.

Mas respondendo a pergunta sobre como incentivar a leitura. Tem um poema célebre que pergunta: o que fazer diante da beleza? E a resposta que o poeta dá no último verso é: você tem que mudar a sua vida. Então, temos que mudar a sociedade que vivemos. Essa é a única maneira. É claro que existem certas coisas que podemos fazer, como dar o exemplo e pôr livros à disposição de quem quer ler. No México, por exemplo, foram criados programas onde um certo leitor contagia os outros e se formam grupos, especialmente nas zonas muito violentas do país. O governo percebeu que essas "salas de leitura" fazem a violência diminuir nessas regiões. Isso é uma coisa extraordinária, mas que Gandhi teria percebido isso também."

Leia também os principais temas abordados por Alberto Manguel em resposta às perguntas enviadas pelo público:

A relação com Jorge Luis Borges
"Cada vez que eu falo, seja no Brasil ou na Turquia, há certas perguntas que sempre me fazem, como: "Como foi ler para Borges?", "Como será ler no futuro?" Eu tive esse enorme privilégio. Conheci Borges quando eu era adolescente. Ele precisava de alguém que lesse para ele, porque havia ficado cego. Ele não escolhia seus leitores pela voz, inteligência ou pela amizade. Éramos muitos que líamos para ele. Esse aspecto era de servir à leitura de Borges. Associado a isso eu podia escutar os comentários que ele fazia em voz alta. Mas não apreciei a importância desse dom que me foi dado. Achava que só estava ajudando um pobre velhinho cego."

Livros que tratam o mal como entretenimento
"Essas interpretações dependem da leitura que fazemos dela. Podemos ler, por exemplo, Macbeth, como se leu na época, como contemporâneos que leram a obra e a viam como podemos ver um faroeste ou o episódio de uma série policial na televisão. Ou, uma leitura como Borges, que entendia que era um retrato da condição humana. Cada leitor transforma o livro. Podemos reconhecer uma obra que não tem um tema evidente sobre o mal. Por exemplo, A volta do parafuso, de Henry James, que parece ser a história de um fantasma. Mas podemos ler neste mesmo conto a aparição do mal como um espírito que contamina as crianças e a governanta que esta cuidando deles e esta obcecada por este mal."