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Bebês de três pais: biotecnologia a favor da saúde?

"Não estamos alterando as características de uma criança ou melhorando humanos de forma alguma. Os cientistas estão apenas tentando garantir que uma doença debilitante e, às vezes, fatal não ocorra e que as futuras gerações não sofram desta tristeza horrível" - Lord Robert Winston (foto), médico britânico pioneiro na fertilização in vitro

Na terça-feira (03), a câmara baixa do parlamento inglês aprovou a chamada "lei dos três pais" ( three-parent baby law), uma medida que permite a participação de três pessoas na concepção de bebês utilizando a técnica da fertilização in vitro.

Os bebês de três pais recebem o DNA normal da mãe e do pai e também uma pequena quantidade de DNA mitocondrial saudável de uma doadora mulher.

As doenças genéticas associadas às mitocôndrias afetam os órgãos que necessitam de muita energia – como o cérebro, o coração ou o fígado. Esta energia é usada para todas as funções celulares. Cada pessoa herda suas mitocôndrias da linha materna – elas estão nos ovócitos e, por isso, passam de mães para filhos. Se uma mãe tiver uma doença genética das mitocôndrias, vai transmiti-la ao filho.

Quando há mutações nestes genes mitocondriais, podem surgir diferentes tipos de doenças: surdez, diabetes, doenças cardiovasculares, epilepsia e até doenças mentais. No Reino Unido, há 3.500 mulheres com mutações no DNA mitocondrial que podem passar essas doenças aos filhos, de acordo com relatório do Parlamento inglês. Não há tratamento para estas doenças.

A lei estava sendo discutida desde 2008, devido a questões bioéticas. Críticos no Parlamento britânico alertaram para aspectos de segurança e possíveis efeitos na saúde, com a elaboração e a aprovação da lei acontecendo de forma muito rápida. Sobre a técnica, Fiona Bruce, deputada do Partido Conservador, que defendeu voto contra, alertou: "Isto vai ser passado ao longo de gerações, as implicações não podem ser previstas". Na votação, 382 membros do Parlamento votaram a favor da mudança da lei, enquanto 128 deputados votaram contra. Antes de a técnica chegar às clínicas, a Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana do Reino Unido terá de autorizá-la. O Reino Unido é o primeiro local do mundo a aprovar a lei.

A discussão entre a comunidade científica britânica foi grande, pois a lei quebraria o consenso internacional de que a engenharia genética não deve modificar óvulos ou esperma para alterar características de crianças. Porém, de acordo com Lord Robert Winston, professor da Imperial College London e médico pioneiro na fertilização in vitro, "a transfusão de mitocôndrias não é diferente de uma transfusão de sangue – sendo que a diferença é de que os tratamentos mitocondriais duram através das gerações futuras." Winston também lembra que a técnica da fertilização in vitro foi aprovada sem completa certeza dos efeitos.

Winston vem criticando a evolução da reprodução assistida na mídia inglesa. Para Winston, o que ele chama de mercado da fertilidade se beneficia de um entusiasmo nas descobertas no campo da reprodução. Segundo ele, a união entre este entusiasmo e o desespero do paciente é uma "mistura tóxica". O cientista defende uma reflexão mais ampla das descobertas para evitar que ricos tenham acesso a melhorias genéticas que pobres não poderão pagar.

Mesmo assim, no que se trata da lei dos bebês de três pais, ele argumenta que não se trata de alterar a inteligência ou a força de um filho. "Não estamos alterando as características de uma criança ou melhorando humanos de forma alguma. Os cientistas estão apenas tentando garantir que uma doença debilitante e, às vezes, fatal não ocorra e que as futuras gerações não sofram desta tristeza horrível".

Judeu ortodoxo, Winston responde à oposição religiosa dizendo que, mesmo sob os olhos da religião, a técnica deve ser permitida: "se tratamentos mitocondriais podem prevenir doenças, isso deveria ser celebrado por estarmos usando a inteligência que deus nos deu."

Leia a matéria com Winston no Telegraph.uk
Veja o especial de ciência com Winston no Guardian

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