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Brasil perde um de seus maiores poetas, Ferreira Gullar

Gullar no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Gullar no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

Ferreira Gullar faleceu na manhã deste domingo (04), no Rio de Janeiro, aos 86 anos. Um dos maiores autores brasileiros do século 20, Gullar foi eleito "imortal" da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2014.

De acordo com Maria Amélia Mello, amiga e editora de Gullar, o poeta foi vítima de uma pneumonia. Ele estava internado há 20 dias em um na Zona Sul do Rio, por causa de uma insuficiência respiratória.

É com grande pesar que damos nosso adeus ao imortal. Em vídeo inédito, extraído de sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2015, Gullar reflete sobre o espanto que o tornou um dos principais poetas brasileiros. Aplaudido pela plateia, revela quando o espanto o deixou, quando teve que abandonar a poesia e voltar a ser o mortal que nos deixou neste domingo. No vídeo, Gullar explica como nasceu um de seus principais e mais autobiográficos trabalhos, Traduzir-se:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

De Na Vertigem do Dia (1975-1980)