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Carlo Rovelli responde: o futuro da matéria

O físico italiano autor do best-seller Sete breves lições de física, Carlo Rovelli, abriu a temporada 2017 do Fronteiras do Pensamento com sua conferência denominada O que é ciência?

A pergunta pode ser objetiva, mas não tem conclusões fechadas. O que Rovelli levou ao palco do Fronteiras foi sua percepção aberta, curiosa e questionadora do mundo em que vivemos.

Ele sintetizou a história e a essência do conhecimento científico em dois grandes acontecimentos: o primeiro aconteceu na antiguidade, com a descoberta por Anaximandro, filósofo pré-Socrático, de que o mundo tem um formato arredondado e flutua em meio ao céu, cercado pelo sol, pela lua e pelas estrelas. O que soa bastante óbvio e até primário para nós nos dias de hoje, na época foi revolucionário. Para chegar a essas conclusões, o filósofo e matemático grego precisou antes observar o céu, contemplar a natureza e se sentir instigado a descobrir a lógica por trás do movimento do céu em relação à Terra.

A segunda história que Rovelli contou foi a de seus estudos no desenvolvimento da teoria da gravitação em loop. São pesquisas em torno de duas teorias que resumem nosso conhecimento do mundo até o momento: a Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein, e a Mecânica Quântica, de Werner Heisenberg. A busca pela solução de divergências entre estas duas teorias, segundo o conferencista, é motivada pela mesma lógica da antiguidade: usar o que já se sabe para despertar nossa curiosidade e querer saber mais. Rovelli destacou diversas vezes durante sua fala o papel central da dúvida, da incerteza e do reconhecimento de que sabemos pouco, para que tenhamos a coragem de nos dedicar a pesquisas científicas.

Assim que encerrou sua fala, Carlo Rovelli respondeu às perguntas da plateia, e à Pergunta Braskem, escolhida a partir das questões enviadas pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais. Confira abaixo

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Muitos afirmam que o universo é composto por 95% de energia e matéria escuras. E que, no futuro, este tipo de matéria se esgotará e resultará em um completo nada frio e escuro. Qual a perspectiva da existência da matéria e da energia escuras a partir da gravidade quântica? E o senhor acredita neste tipo de previsão para o futuro?

Uma das descobertas recentes na última década é sobre essa matéria escura. Astrônomos olharam o céu e se deram conta de que há muito mais coisas no universo do que as estrelas, a poeira espacial que nós vemos. E o que é a matéria escura, nós não sabemos. É um dos mistérios. Eu acho que iremos descobrir em breve. Há muitas ideias, nós não sabemos qual está certa. Há experiências que foram feitas, teorias que foram desenvolvidas, este é o exemplo típico de um novo fenômeno que ainda não conhecemos bem, e nós vamos descobrir.

Outra coisa que foi descoberta recentemente é que o universo não apenas se expande, mas está acelerando. Essa expansão está acontecendo cada vez mais depressa. Portanto, o que nós já sabemos é que ele vai se tornar cada vez mais amplo e cada vez mais frio. Mas é óbvio que isso vai acontecer num futuro distante. Há dez anos nós não sabíamos que havia expansão acelerada no universo. Talvez daqui a dez anos nós mudemos de ideia de novo. Mas eu não me preocuparia muito com o que vai acontecer daqui a dez bilhões de anos, nós temos problemas mais urgentes.

Rovelli respondeu também a outras perguntas do público. Confira abaixo algumas das reflexões:

Você se refere, em seu livro Sete breves lições de física, a um conceito de que a passagem do tempo é uma ilusão. Você acha que as pessoas poderiam entender este conceito de uma forma mais sensorial, para além de uma equação matemática?

A natureza do tempo é uma das questões mais fascinantes e confusas na física fundamental. Nas equações básicas que nós temos na física, não há tempo. Mas então, qual é a coisa que nós sentimos como o tempo que passa, se o tempo não está no mundo? Essa é a parte mais interessante e ainda não entendida da questão.

Acho que temos que olhar para nós mesmos, e não para fora. Pensem na rotação do cosmos. Por que o cosmos gira? Copérnico entendeu que nós rodamos, e não o cosmos. Nós entendemos esse fenômeno enorme olhando o movimento da Terra. Nós vivemos no tempo, claro, para nós o tempo não é uma ilusão, é uma realidade importantíssima. Eu acho que nós vamos entendê-lo quando compreendermos melhor nossa própria natureza. Nós fazemos parte da natureza, mas somos uma parte muito complicada dela. Temos lembranças, expectativas, processos termodinâmicos. Eu acho que nós vamos perder o tempo do universo, mas vamos entender o tempo compreendendo a nós mesmos.

O tema dessa temporada do Fronteiras do Pensamento é civilização. Qual a importância da ciência para a nossa civilização e nossas sociedades?

Nossa civilização se baseia no conhecimento e na ciência. A medicina se baseia na ciência. Antes da medicina moderna, a expectativa de vida era de 30 anos. Ou seja, eu e a maior parte dessa plateia estaríamos todos mortos se não fosse pelo desenvolvimento da medicina moderna. Esse microfone funciona porque Maxwell e Faraday, cientistas, entenderam a ciência, nós construímos grandes coisas porque temos as equações de Newton, então toda a vida moderna se baseia na ciência.

A ciência não é a solução de tudo, e não é a única fonte de informação e conhecimento de que dispomos. Muitas coisas em nossas vidas não utilizam a ciência. Eu me apaixono e tomo várias decisões ignorando totalmente a ciência. Mas se a sociedade se afastar da ciência e parar de ter fé na força dessa maneira de pensar, eu acho que o risco é grande. E acho que hoje está acontecendo isso em muitos lugares do mundo. O fato de haver negação da evolução, ou das mudanças climáticas, e o fato de que há forças políticas fortes no mundo inteiro que reagem contra a crença na evidência dos fatos é um perigo sério para todos nós.

Qual é a sua explicação para essa negação das pessoas em relação à ciência?

Parcialmente porque nada é totalmente bom ou totalmente mau. Tudo está misturado. A ciência também produziu a bomba atômica, substâncias químicas que poluem a natureza, então algumas pessoas reagem contra isso. Algumas pessoas reagem contra uma certa arrogância dos cientistas. Alguns dizem que a ciência pode resolver todos os problemas, e obviamente não pode. Então no momento que os cientistas se sentem superconfiantes, há um movimento contrário. A ciência muitas vezes não tem soluções, e às vezes tem más soluções. E a outra razão é que a ciência perturba muitas forças que estão apegadas à tradição, e se sentem ameaçadas pela natureza crítica e rebelde do pensamento científico.

Como você acha que um cientista deve se comportar em relação a essas pessoas que acreditam mais em mitos e na religião, do que na ciência?

Em primeiro lugar, homens e mulheres cientistas têm opiniões e religiões diferentes, o que é bom, porque não deve haver um único ponto de vista na ciência. Eu acho que a melhor atitude é o respeito. Devemos respeitar as diferenças com relação à nossa visão de mundo. Eu não acho que a religião propriamente dita esteja em conflito com a ciência. A religião diz respeito à nossa vida interior, espiritual. Não há conflito entre isso e a ciência. Mas quando algumas religiões querem dizer como o mundo foi criado, ou como é o cosmos, se baseando na Bíblia, isso está errado. O cosmos não tem nada a ver com Deus. Eu não acredito em Deus, eu sou ateu. Mas acho que as pessoas que acreditam em Deus não estão erradas em nenhum ponto. Essa crença é real e importante para elas e para a sociedade como um todo. É mais complexo do que escolher entre ciência e religião. Elas podem coexistir.