Voltar para Notícias

Clássico de Pedro Juan Gutiérrez, "O Rei de Havana" ganha reedição no Brasil

Por Alexandre Lucchese | No ano passado, tive oportunidade de entrevistar a escritora cubana Teresa Cárdenas, que lançava na Feira do Livro de Porto Alegre a novela Cachorro Velho. De bata, turbante e sorriso largo, respondia a tudo com simpatia, mesmo quando as questões não abordavam diretamente seu livro.

Não segurei a curiosidade e, antes de me despedir, perguntei a ela sobre Pedro Juan Gutiérrez. Sempre ouvi falar que, apesar de ser conhecido internacionalmente, o autor de Trilogia Suja de Havana era ignorado como escritor em sua terra natal.

– Não, Pedro Juan é muito lido em Cuba, muitíssimo – interrompeu-me Teresa. Depois de olhar discretamente para os dois lados, como quem tem receio de ser vigiado, emendou em tom mais baixo: – Quem não gosta dele é o governo. Consegui uma vez um livro de Pedro Juan emprestado. Veio sem capa, oculto em um envelope.

Pedro Juan Gutiérrez, 67 anos, é um dos poucos escritores que ainda carrega certo ar maldito e proibido, pelo menos em seu país de origem. Rejeitado pelo regime cubano, não consegue editar seus livros em sua terra, ou os vê saírem com tiragens muito pequenas. É em discretas edições piratas que seus compatriotas o leem.

Leia também: Novo livro de Pedro Juan Gutiérrez relata perseguição a gays em Cuba

pedro juan gutierrez

No Brasil, ler Gutiérrez é muito mais simples. Editado pela Companhia das Letras, o escritor teve seu livro mais recente, Fabián e o Caos, lançado aqui em julho do ano passado. Esta semana, está voltando às livrarias sua obra máxima, O Rei de Havana, escrita em 1998 e lançada aqui em 2001. É nesta novela, com menos de 200 páginas, que se pode conhecer a literatura de Gutiérrez em todo seu brilho e intensidade.

O livro narra a história de Reinaldo, menino que perde a família de uma hora para a outra de modo insólito e é enviado para um reformatório de menores. Ao sair da instituição, sem dinheiro e sem ninguém que o protegesse, aprende a sobreviver à base de violência e sexo.

A crueza do texto de Pedro Juan já foi encarada como falta de estilo, mas não é bem assim. Apesar do tom realista, trata-se de um texto marcado por excessos – de rum, de sexo, de maconha e de fome. Reinaldo está sempre a um fio da morte, ou pela pobreza absoluta ou pela compulsão de gozar com quem encontrar pela frente. É essa tensão, muito bem tramada pelo autor, que faz de O Rei de Havana um livro difícil de largar.

A novela é um retrato de Havana desenhado a partir dos subterrâneos do vício e do crime, mas esta é apenas sua camada mais visível e superficial. É um livro com chances de sobreviver ao tempo – em Cuba ou em qualquer outro país – por mergulhar com radicalidade na mente de um jovem reduzido ao instinto animal.

(Via ZH)