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Contardo Calligaris: a importância das ficções

Contardo Calligaris, um ficcionista que faz da análise a matéria-prima para as suas relevantes obras. Um psicanalista que usa a ficção para analisar os comportamentos e as fobias modernas. Em entrevista para a cobertura especial do Caderno Variedades, do jornal Diário Catarinense, Calligaris conversa com o psiquiatra e membro do Centro de Estudos Psicodinâmicos de Santa Catarina (Cepsc), Luiz Henrique Wizniewsky.

Luiz Henrique Wizniewsky: Como é a experiência de transitar do modelo de escuta psicanalítico para a produção ficcional?
Contardo Calligaris:
Comecei a escrever ficção aos nove anos, comecei minha análise aos 21 ou 22 e me tornei psicanalista aos 28. Ou seja, a psicanálise veio depois da ficção. Fora esse detalhe cronológico, sempre achei que na minha própria análise é que eu produzi meu melhor romance ia acrescentar: autobiográfico, mas nem disso estou totalmente convencido.

Wizniewsky: O longo período de escuta condicionou mais diretamente a substância dos teus livros não-técnicos?
Calligaris:
Sem dúvida. Quase 40 anos de clínica realmente assídua fizeram e fazem que a escuta psicanalítica seja o prisma pelo qual se dá minha experiência do mundo – sempre. Há outros: o marxismo, as literaturas, a semiologia, a psicologia, o idealismo hegeliano, a antropologia etc. Mas, nenhum rivaliza com a psicanálise.

Wizniewsky: O deslizamento da função de psicanalista para a de escritor poderia indicar alguma insatisfação com a terapêutica?
Calligaris:
Diria que não. Mas, acabo de terminar a (gigantesca) tarefa de roteirizar 13 aventuras do protagonista dos meus romances (13 episódios de uma hora cada). Ele (o protagonista, Carlo Antonini) foi comprado pela HBO e vai ser protagonista de um seriado, já filmado, que deve estrear em 2014. Pois bem, nessa primeira temporada, Antonini está mesmo, como ele diria, num momento de tédio.

Wizniewsky : Surgem, na mente do escritor, questionamentos éticos em utilizar, eventualmente, material da produção dos pacientes como conteúdos dos livros de ficção?
Calligaris:
Questionamentos éticos tive muito mais quando relatei casos (por exemplo, em Introdução a uma Clínica Diferencial das Psicoses). Na época, achei bem-vindo que o livro saísse no Brasil e os casos pertencessem todos à minha clínica francesa. Enfim, nas ficções, não há relatos de casos, nem casos – há fragmentos, dos quais nem sei mais se eles são fragmentos meus ou dos outros da minha vida.