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Desigualdade e globalização: Thomas Piketty responde a Pergunta Braskem

O economista francês Thomas Piketty foi o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo desta quarta-feira (27), no Teatro Santander. 

Para desenvolver sua fala, intitulada O avanço da desigualdade e a globalização, Piketty usou como base pesquisas apresentadas em seu best-seller, O capital no século XXI, e em pesquisas mais recentes, que têm sido produzidas em esforço conjunto com diversos países e publicadas em seu projeto World Wealth and Income DatabasePiketty dividiu sua conferência em grandes tópicos, ou melhor, em grandes “lições”, como definiu. Confira abaixo:

A dinâmica de longo prazo da desigualdade: se analisarem a experiência dos países ocidentais, disse Piketty, vemos que uma das principais lições da desigualdade durante o século XX, em especial em países desenvolvidos da Europa Ocidental e da América do Norte, é que foram necessários choques profundos – guerras mundiais, depressões, revoluções – um processo político muito dramático para que houvesse uma redução na desigualdade. O conferencista salientou como, na experiência histórica, a política se mostrou muito mais determinante na redução da desigualdade do que a própria economia.

O futuro e o retorno da sociedade patrimonial: devido a grandes choques durante a guerra, a proporção capital x renda diminuiu bastante, sustentou o economista. Mas, em longo prazo, houve uma reconstituição da riqueza e do patrimônio por meio de políticas que alteraram o valor dos ativos. Esta proporção não é necessariamente ruim, explicou o convidado. O problema, argumentou, é a igualdade no acesso ao patrimônio. Preços altos de patrimônios dificultam o acesso à riqueza por parte das novas gerações. A desigualdade se torna extrema, o crescimento se torna insustentável.

A relação entre o avanço da desigualdade e a mudança na estrutura do conflito político: segundo o conferencista, há um grande paradoxo no mundo contemporâneo. Com o aumento da desigualdade, nas últimas décadas, poderia se ter esperado que aumentasse, também, uma demanda política pela redistribuição. Era de se esperar, disse Piketty, que tivesse havido um aumento em políticas baseadas em classes. Contudo, o que temos visto é um aumento de políticas baseadas em identidade. "Políticas até xenofóbicas, como é o caso do meu país, a França, o caso do Brexit ou do Trump", afirmou. "É uma evolução de uma resposta nacionalista à globalização."

Após sua fala, Thomas Piketty respondeu as perguntas do público. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Confira abaixo esta e outras respostas:

O senhor disse em uma de suas entrevistas que livros de autores como Balzac e Fuentes o ajudaram a compreender a importância da saúde e do trabalho. Qual a influência da cultura nas suas pesquisas e no seu trabalho como economista?
Thomas Piketty:
Eu acho que a literatura tem uma maneira muito poderosa de falar sobre pessoas, relacionamentos e, acima de tudo, do impacto do dinheiro na relação interpessoal. Marx falou que aprendeu muito a respeito do capitalismo europeu lendo Balzac. Eu também. Sempre cito muito Balzac. Essa conclusão também é válida hoje. Carlos Fuentes, com esse último romance publicado antes dele morrer, La voluntad y la fortuna, fala muito sobre o capitalismo moderno no México, dos jovens e da hesitação em aceitar alguma herança. Assim como Balzac tinha a hesitação com relação à revolução. 

Eu não tenho este talento. Não consigo escrever este tipo de personagem, ter este tipo de imaginação. Então, tenho a abordagem da ciência social, que é um pouco mais árida, estatísticas etc. São formas diferentes de abordagem. São complementares. Por isso, faço referências literárias em meu livro e vou continuar fazendo isso. 

Não há uma única verdade, a verdade científica com números. Há diferentes formas de expressão que permitem captar diferentes aspectos da realidade. Temos que ser modestos nas ciências sociais. Às vezes, os economistas acham que sua ciência é perfeita, mas isso é uma piada. Os economistas deveriam perceber que somos como cientistas sociais, historiadores etc. Sabemos muito pouco. Começamos com muito pouco e tentamos avançar, coletando dados, chegando a conclusões, mas tudo será muito imperfeito. As conclusões serão muito imperfeitas. Teremos sempre opiniões diferentes. Não tenho problemas com conflitos.

A literatura, para mim, na minha experiência, é um grande estímulo para tentar responder algumas questões: como era a desigualdade na França do século XIX? Será que era como Balzac a descrevia? É um dos motivos pelos quais eu faço pesquisa nesta área. 

Fernando Schuler, curador do Fronteiras, escreveu em um artigo que a pobreza no mundo reduziu de 36% para 16% e perguntou, provocativamente, se o combate à pobreza não deveria ser mais importante do que o combate à desigualdade. O que o senhor pensa sobre isso?
Thomas Piketty: Que o senhor está absolutamente certo. Houve uma queda na pobreza no mundo nas últimas décadas e não estou tentando negar isso. O que digo é que poderíamos ter resultados ainda melhores. Num país como o Brasil, quando a metade da base da população tem 12% da renda total, e 10% do topo tem 57% da renda, acho que podemos melhorar essa participação da população da base.

Ao mesmo tempo, aumentar o crescimento econômico e o tamanho da renda como um todo. Isso não é um sonho, isso é possível. Quando olhamos as experiências históricas de outros países, a ideia de que precisamos deste tipo de desigualdade para crescer não é apoiada por dados e evidências históricas. Se isso fosse verdade, eu concordaria, não tenho problemas em refutar a desigualdade. Você precisa sim de certo nível de desigualdade para crescer e ter incentivos, tudo bem, concordo, mas é uma questão de magnitude. Você não pode justificar qualquer nível de desigualdade com este tipo de argumento. 

Na Índia, existe um problema de educação básica e é terrível. Ter um pouco mais de receita advinda da tributação dos ricos seria muito bom. Não se trata de culpar os ricos pelo que acontece com os pobres, mas se tivermos esta falta de acesso dramática a serviços públicos básicos para a população pobre, o país nunca vai se desenvolver. 

Em geral, é mais ou menos unânime que dois instrumentos muito podersosos para reduzir a desigualdade são educação e a melhoria da estrutura tributária. O Brasil tem uma das estruturas tributárias mais injustas do mundo. A maior parte dos impostos é sobre produtos, as pessoas pagam a mesma coisa por produtos independentemente do que ganham. Um dia, perguntei a um político por que a esquerda não abraça a causa da reforma tributária como prioritária no país e ele respondeu que é muito complicado falar em reforma tributária, porque as pessoas não entendem. É muito difícil abordar esta questão na democracia? Por que a reforma tributária não se torna prioritária nos países...? No Brasil, por exemplo, não é um assunto muito discutido. 
Thomas Piketty: Não estou aqui para dar lições ao Brasil. O que quero dizer é que é possível aprender com a história. Eu espero que a elite brasileira seja mais inteligente do que a elite europeia. Mesmo não sendo muito otimista, acho que dá pra melhorar, dá pra aprender com a história. No longo prazo, é do interesse da própria elite pagar mais do que 3 ou 4% de imposto de renda sobre heranças e contribuir para que os pobres do país tenham uma vida melhor. 

Como você vê a concentração de renda na Europa depois dos movimentos migratórios vindos do Oriente Médio e da África? Inclusive na Alemanha, que foi quem mais recebeu imigrantes e que, na última eleição, teve uma surpresa que foi o crescimento de uma extrema direita que há muito tempo não aparecia. 
Thomas Piketty: Sim, o senhor tem razão. Essa popularidade da extrema direita na Alemanha é assustadora e também do partido liberal, a popularidade aumentou e foi amedrontador, por sua perspectiva nacionalista. Se não reduzirmos a desigualdade unindo os grupos mais pobres, exacerbaremos outras formas de divisão, entre as quais, está a racial. A Europa poderia receber mais imigrantes. A Comunidade Europeia tem 500 milhões de habitantes e uma área muito grande, temos a capacidade de receber muitos imigrantes. 

Até 2008, com a crise financeira, havia um fluxo bastante grande de imigração para a Comunidade Europeia. Um milhão ou dois de pessoas por ano e estava tudo bem. O desemprego estava caindo, o tecido social estava conseguindo lidar com isso.

Daí, a Europa não lidou bem com a crise financeira. É muito difícil ter uma moeda única se, ao mesmo tempo, você tem 19 taxas de juros diferentes, 19 dívidas públicas diferentes, 19 sistemas de tributação corporativas diferentes concorrendo e as corporações nacionais podem intervir no sistema tributário e pagar alíquotas mais baixas do que as pequenas e médias empresas na França, por exemplo. 

Precisamos de mais Europa e não menos Europa. A Comunidade Europeia precisa ter um tributo corporativo comum, uma taxa de juros comum etc. Isso vai demorar, mas é certamente a direção para a qual devemos caminhar. Isso é importante para a Europa e para outras regiões do mundo que estão pensando em desenvolver comunidades regionais. 

É importante mostrar que é possível desenvolver uma comunidade regional, deliberações supranacionais que possam funcionar. Não apenas em termos de comércio e operações monetárias, mas também com uma abordagem à globalização que consiga promover uma pauta de justiça fiscal, justiça social, justiça ambiental junto com o comércio internacional. 

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