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Elisabeth Roudinesco responde: Édipo e as questões de gênero

Reconhecida intelectual francesa, Elisabeth Roudinesco é uma das maiores especialistas em história da psicanálise. Convidada do Fronteiras desta semana, sobre o tema do projeto em 2016, A grande virada, Roudinesco proferiu a conferência Ainda podemos sonhar com outra vida?

Segundo a historiadora, a ideia de “grande virada" pode ser caracterizada como a passagem do antigo para o novo. Porém, nos dias de hoje, ela seria a morte de algo antigo, mas que ainda não foi substituído pelo novo, o que gera um crescente anseio por mudanças e reflexões globais sobre os desastres e os progressos atuais.

Frente à ameaça totalitarista na Europa, ao descrédito na política tradicional e ao sentimento de perda de representação social, é importante saber equilibrar pessimismo e otimismo: 'É preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade', sugeriu a psicanalista, que concluiu com um possível caminho para a sociedade: “Resistir pelo espírito, pela vontade e por ações positivas às ideologias destruidoras do mundo contemporâneo, apoiando-nos sobre o presente e sobre uma herança do passado para pensar o futuro. Transformemos o desespero em esperança mesmo que a gente saiba que isto vai levar tempo".

Logo após sua conferência, Elisabeth Roudinesco respondeu as perguntas do público, dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais. Desta vez, a questão selecionada veio de Marcela Cavallari. Confira abaixo:

Como as construções psicanalíticas de 100 anos atrás, sobretudo a temática do Complexo de Édipo, podem contribuir para as novas realidades de gênero?


Elisabeth Roudinesco: Eu não gosto do Complexo de Édipo. Sempre digo isso. Freud era um fanático pelo seu Complexo de Édipo, mas o que eu sempre considerei como o gênio de Freud foi ele ter trazido, em pleno século XX, na virada do século, a ideia da tragédia.

O gênio de Freud é ele ter dito, a cada neurótico, e isso vale para a nossa época, 'você não é um coitado, você é um príncipe. Você se chama Hamlet e se chama Édipo.' É isso que nós temos que repetir hoje. Isso gerou um grande entusiasmo e agitação em Viena. Há vários testemunhos sobre isso, como Elias Canetti, que dizia 'é incrível o que acontece em Viena. Todo mundo se acha Édipo.' É melhor achar que é Édipo do que ser fanático por uma poção mágica.

Mas, com relação à sua pergunta, sobre a psicologização do Complexo, sobre os psicanalistas reacionários que consideram que o Complexo de Édipo não pode funcionar para algumas formas atuais de família, tudo isso é absolutamente ridículo.

Você falou sobre os estudos de gênero, que evidentemente trouxeram coisas importantes, de não reduzir a questão da sexualidade à anatomia e à natureza. É algo construído, mas, se olharmos bem, Freud já pensava nisso, ele sabia que havia uma construção social e psíquica da sexualidade que não correspondia necessariamente à anatomia.

Mas, cuidado: hoje, há um excesso e há fanatismo dos adeptos das questões de gênero. Eles consideram que tudo é construído. Hoje, temos a tendência de dizer, por um lado, que tudo é químico. Por outro, que tudo é construído. São os dois. Eu adotaria uma posição entre os dois. Os fanatismos são o verdadeiro problema. Vai haver um dogmatismo nos estudos de gênero como houve um dogmatismo psicanalítico, é evidente, mas, de qualquer forma, foi muito progressista trazer essa renovação, levantar essa noção de gênero.

Roudinesco também respondeu a outras perguntas vindas da plateia sobre temas como o futuro da psicanálise, a revolução de Freud e a histeria contemporânea. Confira abaixo as principais ideias da historiadora:

Por que o pensamento de Freud se impôs em Viena, no século 19?

Freud abandonou o fanatismo dos sexólogos. Em vez de se ocupar das performances sexuais, da masturbação, do corpo, ele, em certo momento, fez uma revolução simbólica que foi dizer, no fundo, que tudo isso é normal. Havia três problemas na época: a mulher histérica, a criança masturbadora e o homossexual, que eram considerados três formas de perversão. Freud disse não, a histeria feminina é uma neurose, a masturbação infantil existe e a homossexualidade é uma escolha sexual, não é uma degeneração. Freud fez uma revolução simbólica mais do que uma revolução científica. Eu li todos os psicólogos da época, mas nenhum é fascinante como Freud. Freud fascinou os intelectuais, as multidões e, ao mesmo tempo, era um homem conservador, voltado para o passado.

O que é a psicanálise?

É preciso compreender que psicanálise não é outra coisa que não uma filosofia da existência com uma dimensão clínica. Na medicina da antiguidade, os filósofos eram médicos e Freud lançou essa ideia da terapia da alma. A psicanálise é herdeira da filosofia, não devemos esperar uma noção de progresso dela. Quando estudamos filosofia, não questionamos se Platão ou Kant estão ultrapassados, não. Mas, não podemos tratar as doenças hoje como no tempo de Hipócrates. A medicina se tornou uma ciência, mas o tratamento psíquico resiste à ciência.

A histeria contemporânea

Creio que as angústias são as mesmas. O que mudou, me parece, é que, dos anos 1960 para cá, temos muito mais neuroses narcisistas do que histéricas, porque, em uma sociedade com menor frustração, as angústias são mais narcísicas. Estamos em uma sociedade de performance hoje, então, há a angústia de não ter uma boa performance.

O futuro da psicanálise

É preciso que os psicanalistas se adaptem ao sujeito moderno e eles estão fazendo isso com terapias breves, por exemplo. Eles têm razão, porque as análises clássicas são muito longas. As pessoas querem mais empatia, menos silêncio na relação com o analista. Então, eu insisto muito para que os psicanalistas façam um pouco de tudo, cursos de três semanas, aconselhamento, tudo que as outras terapias fazem. Não há razão para reduzir a psicanálise à exploração do inconsciente. O sujeito moderno não quer mais a mesma coisa que antes, ele quer mais empatia, rapidez e é preciso atender estas demandas, mas do ponto de vista da psicanálise, não do ponto de vista do comportamentalismo. É preciso responder com os meios da clínica psicanalítica, que é superiora às outras abordagens terapêuticas, com a condição de se libertar dos vícios da cura.

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