Voltar para Notícias

Em entrevista exclusiva, José Arthur Giannotti discute o drama da filosofia contemporânea

Professor emérito da Universidade de São Paulo, José Arthur Giannotti estudou com figuras como Gilles Gaston Granger e Claude Lefort. Ainda nos anos 50, fez parte do “Seminário Marx", grupo de leitura e discussão sobre O Capital que reuniu nomes como Fernando Henrique Cardoso, Fernando Novais, Paul Singer e Octavio Ianni.

Atuante no debate público durante toda sua trajetória, não limitou sua reflexão filosófica ao esclarecimento de problemas alheios: os estudos filosóficos e a vida pública se confundem em uma única grande imagem da vida, “a experiência do drama da filosofia como tal", como fala o próprio Giannotti nesta entrevista exclusiva para o Fronteiras do Pensamento, concedida a Eduardo Wolf e contida, na íntegra, na obraPensar a filosofia, à venda na loja virtual da Arquipélago Editorial.

Fronteiras do Pensamento: Essas grandes manifestações que ocorreram por todo o Brasil - as “revoltas de junho" - parecem ter exigido dos intelectuais brasileiros que fossem capazes de elucidar o que estava acontecendo naquele momento. O que me leva à seguinte questão: qual é o papel que se espera de um filósofo na sociedade contemporânea? O Brasil tem gente preparada para desempenhar esse papel?
José Arthur Giannotti:
Eu creio que os filósofos intervêm na vida pública sobretudo em momentos de crise. Nós interviemos bastante, por exemplo, durante o período da passagem da ditadura para a democracia. Agora vivemos mais um desses momentos em que voltamos a participar do debate público, mas agora com uma enorme diferença, a saber, dessa vez tivemos que nos defrontar com a hegemonia do lulo-petismo, que reagiu majoritariamente assustado considerando esse movimento de opinião popular como se fosse uma contestação ao governo como tal, quando na verdade tratava-se de uma contestação a uma forma geral de democracia.

Não acredito que o Brasil encontre-se hoje em uma posição muito favorável a essa discussão pública, e um dos motivos para isso - além dessa hegemonia ideológica a que me referi - reside no fato de nos encontrarmos em um momento de transição geracional. A minha geração está indo embora, e a nova geração parece ainda não ter se firmado ou se organizado.

Acho que isso tenha se dado em particular porque a geração entre elas foi consumida ou pelo processo de formação, consolidação e profissionalização das universidades, especialmente pela burocracia acadêmica, ou pela formação dos partidos políticos no período da transição democrática, tendo sido, neste último caso, como que degradada pelo apodrecimento dos próprios partidos no Brasil. Nesse cenário, eu não sei dizer nem se, nem como os filósofos continuarão a participar do debate público nacional. Agora, honestamente, não tenho visto naquilo que os filósofos têm dito algo de importante para o desenvolvimento da democracia no Brasil.

Fronteiras: Como explica que você e outros filósofos de sua geração - Oswaldo Porchat Pereira e Bento Prado Jr., por exemplo — tenham conseguido manter mais abertos seus interesses filosóficos e intelectuais sem prejudicar a qualidade e a profundidade dos trabalhos especializados?
Giannotti:
Não acho que seja só uma questão geracional, acho que isso tem a ver com o próprio desenvolvimento do país. Você não pode esquecer que quando eu ia para a Faculdade de Filosofia da USP, em uma reunião da Congregação, sentava ao lado de gente como Sérgio Buarque de Holanda. Mais importante, havia entre nós um tipo de convivência, de sociabilidade que é típico da universidade pequena e de elite - no sentido de altamente empenhada na busca do conhecimento. Isso, evidentemente, era uma coisa de momento; era inevitável que houvesse uma expansão do ensino superior nas décadas seguintes, e essa expansão significou, é claro, algo muito positivo, que foi a democratização do acesso à universidade.

O problema é que não houve um processo que contrabalançasse isso, isto é, não houve a formação de escolas de elite, de centros de excelência que pudessem formar as novas gerações com o mesmo padrão. Isso não quer dizer que hoje não existam núcleos de excelência nas universidades brasileiras, pelo contrário. Quer dizer apenas que nós não temos uma Ivy League nos moldes americanos, não temos as Écoles nos moldes franceses, em suma, não temos uma base institucional que dê sustentação a esses núcleos enquanto um projeto de universidade. Não é por acaso que hoje, cada vez mais, os melhores quadros da universidade brasileira estejam ligados a grupos de pesquisa no exterior.

Fronteiras: Mas não lhe parece que seria possível expandir essa situação para os grandes centros, Europa e Estados Unidos? Quer dizer, mesmo nesses lugares, hoje parece ser mais difícil encontrar os grandes homens de letras, eruditos, cultivados na tradição humanista. O trabalho especializado parece ter feito suas vítimas também por lá...
Giannotti:
Sim, isso é verdade, você tem razão. Ocorre que, se por um lado, as chamadas “ciências duras" tiveram um desenvolvimento incrível - nos anos 50 eu não imaginava que a astronomia iria se tornar uma ciência “empírica" [risos] -, no caso da filosofia, pelo contrário, a crise é muito grande. Parece haver uma crise de ideias novas. No Ocidente (eu não sei o que se passa no Oriente, então...), o quadro não me parece ser muito animador. Nós temos a filosofia americana, sobre a qual eu devo confessar que me passa a impressão de ser excessivamente autocentrada e provinciana, vivendo de um debate interno de problemas muito peculiares - (ainda) a realidade do mundo exterior, “terras gêmeas", philosophy of mind [filosofia da mente]. No caso da filosofia europeia e adjacências, o quadro é muito duro: parece que depois dos anos de 1960 não houve nada de extraordinário.

Fronteiras: Ou seja, até aquela geração francesa que nos dá Foucault, Derrida... Depois disso, nada?
Giannotti:
Não, nem é tanto isso, deixe-me explicar melhor. A questão fundamental é a seguinte: de onde vem essa grande crise na filosofia que eu estou descrevendo? Creio que ela é consequência da incapacidade, por parte dos filósofos, de oferecer uma reflexão que levasse até as últimas consequências os impasses a que chegaram os dois maiores filósofos do século 20, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein. A incapacidade de realmente enfrentar os impasses e dilemas por eles deixados levou a um recuo: é como se, diante de tamanho abismo, as pessoas tivessem por fim se retraído. Então, veja o que aconteceu com a chamada fenomenologia e o heideggerianismo na França, para ficarmos com um caso clássico.

Lá, o melhor momento da fenomenologia vem com o último Merleau-Ponty, mas no máximo chegando a uma teoria da linguagem tácita, além do quê, extremamente tributária da concepção de linguagem e comunicação de moldes aristotélicos, em que você tem uma espécie de linguagem mental, com todos os seus instrumentos mentais, que formam uma linguagem e, sobretudo, que correspondem a uma linguagem objetiva. É um esquema geral que é predominante na linguística de [Ferdinand de] Saussure e toma conta do pensamento de [Gilles] Deleuze, de [Michel] Foucault, de [Jacques] Derrida. Quer dizer, é algo que está na matriz deles. E o resultado é que eles se escapam do desastre quando vão para a história!

Em Deleuze, isso é muito evidente: quando ele escreve Logique du sense (Lógica do sentido, 1969) c'est de la merde...[risos]; quando ele escreve o Essai sur la nauture humaine selon Hume (Ensaio sobre a natureza humana segundo Hume, 1953), é de alta qualidade. Aliás, quem se saiu melhor nessa turma de franceses todos foi o Foucault, justamente porque foi escrever história das ideias - ele não teve que enfrentar, em Les mots et les choses (As palavras e as coisas, 1966), essa questão das palavras e das coisas no terreno da construção da própria linguagem: o território dele era o das “arqueologias do saber". Ou seja, uma vez diante do abismo - para voltar ao tema da crise da filosofia sobre o qual falávamos -, não parece ter havido o devido enfrentamento...

Fronteiras: Por que não parece mais possível pensar a universidade em termos de uma instituição de elite, tal como você descreveu a USP dos anos 50?
Giannotti:
Hoje se pensa a universidade quase exclusivamente como um enorme processo de inclusão social, sem que se perceba, aliás, que essa suposta inclusão pode ser apenas um enorme fazer de conta.

Fronteiras: O que você quer dizer com “fazer de conta"?
Giannotti:
Veja bem, eu já havia dito, no início dos anos 80, que a universidade estava adotando um modelo de faz de conta: alunos e professores faziam de conta que estudavam, ensinavam e pesquisavam, mas na verdade questão alguma era suficientemente aprofundada. Hoje as pessoas fazem cursos de Filosofia ou de História, obtêm seus diplomas, mas não conhecem suficientemente o que deveriam conhecer, e, se você pedir que escrevam algo, vai perceber que, em geral, não têm nada a dizer. Há poucos dias, tive contato com alguns livros didáticos, pedagógicos mesmo, da área de História e fiquei realmente chocado. Foi uma dessas situações que nos dão vontade de matar ou morrer... [risos]. Eu nunca tinha visto tanta bobagem junta! E esse é o tipo de material que os nossos “licenciados" utilizarão, depois, nas salas de aulas com alunos do ensino primário e secundário...

Fronteiras: E você acha que isso tem a ver com o “espírito do tempo"?
Giannotti:
A meu ver, isso é típico do que eu chamo de “ignorância altaneira". O sujeito é tão ignorante que sequer se dá conta da dimensão de sua estupidez, julgando-se no cimo. Agora, veja bem, esse processo de expansão das universidades e do sistema de ensino superior em geral foi altamente prejudicado pelas “UniLulas". Foram universidades criadas na base do “querer fazer", sem uma concepção adequada do que seja uma universidade, com recrutamentos e seleções apressadas e que terão, como um de seus resultados, a burocratização de jovens professores.

Jovens de vinte e poucos anos assumindo como professores estáveis em instituições cuja natureza do trabalho não é muito clara - é social? É acadêmica? - parece-me uma armadilha para a burocratização. Quantos desses jovens estarão de fato produzindo com a qualidade desejada e no ritmo esperado, digamos, daqui a 15 anos? Sendo a estrutura da universidade pública o que é hoje, creio que estamos na verdade ossificando as novas gerações.

Talvez, se possa ver nas chamadas “revoltas de junho", com suas reivindicações por melhorias na educação, um sintoma de que as pessoas sabem que, em algum sentido, estão sendo enganadas por toda essa propaganda. Por outro lado, parece-me que seguem querendo ser enganadas, pois acham, na sua grande maioria, que é apenas uma questão de mais verbas, quando na verdade é uma questão de planejamento - que, aliás, não pode sair de uma cabeça maluca em Brasília, sem nenhum contato real com a vida universitária.