Voltar para Notícias

Envie sua Pergunta Braskem para Elisabeth Roudinesco

Nascida em Paris, Elisabeth Roudinesco é uma reconhecida intelectual na área da história e da psicanálise, com presença ativa em publicações científicas e na imprensa. Filha do médico Alexandre Roudinesco e de Jeanne Aubry, uma das pioneiras da psicanálise infantil na França, é graduada pela Sorbonne, com especialização em linguística, e com mestrado e doutorado pela Universidade Paris VII.

Considerada uma das maiores especialistas em história da psicanálise, transformou a complexa doutrina freudiana em matéria-prima para best-sellers, como a História da Psicanálise na França. Discípula de Gilles Deleuze, Michel Foucault e Tzvetan Todorov, é autora de diversos livros sobre psicanálise, Revolução Francesa, filosofia e judaísmo.

Elisabeth Roudinesco é a conferencista do Fronteiras do Pensamento da próxima semana. A intelectual sobe ao palco do Fronteiras Porto Alegre na segunda (12) e do Fronteiras São Paulo na quarta (14).

Envie sua pergunta à Roudinesco de qualquer parte do Brasil para o e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de quarta-feira (14). A questão selecionada será respondida pela convidada no palco do Fronteiras SP. A resposta será divulgada no dia seguinte, em nossos canais digitais.

Em artigo exclusivo, Ana Maria Gageiro* aborda a relevância do trabalho de Roudinesco para a psicanálise contemporânea. Confira abaixo:

Sigmund Freud, em 1929, ao encerrar seu livro O mal-estar na cultura, nos adverte com esta frase premonitória: “Os homens de hoje levaram tão longe o domínio das forças da natureza que, com a ajuda delas, tornou-se-lhes fácil exterminar uns aos outros, até o último. Eles o sabem muito bem, e é isso que explica boa parte de sua atual agitação, de sua infelicidade e de sua angústia". Nossa civilização tem experimentado a vivência de laços sociais fragmentados nas novas formas de retirantes espremidos por mudanças de fronteiras produzidas por guerras, catástrofes, terrorismo e tiranias.

Na falta de referentes simbólicos na fratria, somos lançados radicalmente na experiência de um narcisismo extremo. No cerne deste dispositivo, cada um reivindica sua singularidade recusando-se a se identificar com as imagens da universalidade. Assim, vem-se abandonando a subjetividade pela individualidade dando a si mesmo uma ilusão de liberdade irrestrita, de uma independência sem desejo e de uma historicidade sem história. O homem de hoje transformou-se no contrário de um sujeito.

Elisabeth Roudinesco, ao longo de sua obra, vem nos proporcionando um olhar crítico para a subjetividade contemporânea e os desafios decorrentes dessa realidade lançados aos psicanalistas e pensadores do sofrimento psíquico. A sociedade democrática moderna quer banir de seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. Em nome da globalização e do sucesso econômico, ela tem tentado abolir a ideia de conflito social.

Daí uma concepção da norma e da patologia que repousa num princípio intangível: todo o indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária. Roudinesco ressalta que a consequência disso – o ódio ao outro – tornou-se sub-reptício, perverso e ainda mais temível, por assumir a máscara da dedicação à vítima. Se o ódio pelo outro é, inicialmente, o ódio a si mesmo, ele repousa, como todo masoquismo, na negação imaginária da alteridade. O outro passa a ser sempre uma vítima, e é por isso que se gera a intolerância, pela vontade de instaurar no outro a coerência soberana de um eu narcísico, cujo ideal seria destruí-lo antes mesmo que ele pudesse existir.

Mais pontualmente no livro Por que a Psicanálise?, Roudinesco aponta que, ao longo de 20 anos, o culto de si e o cuidado terapêutico se tornaram os grandes modelos de uma organização da sociedade ocidental que os sociólogos e psicanalistas caracterizaram como narcísica. Passamos a falar de uma “cultura do narcisismo" ou da necessidade moderna da “estima de si", como de uma injunção ao mesmo tempo negativa e positiva. Esse culto foi acompanhado por uma explosão de terapias as mais diversas, todas como modalidades de uma afirmação de si.

Observamos que, quanto mais o mundo unifica-se por uma economia de mercado e as ilusões de uma universalidade enganosa, mais a afirmação narcísica cresce como uma manifestação de uma pretensão do eu a se diferenciar da massa para melhor se adaptar: movimento estranhamente paradoxal.

Esse mergulho na cultura do narcisismo foi estudado pelos sociólogos e filósofos norte-americanos, de Herbert Marcuse a Christopher Lasch, passando por Heinz Kohut.

Se o século XIX foi o da “afirmação de si" da burguesia, e, simultaneamente, o do enclausuramento psiquiátrico que permitiu claramente definir uma “raça" de excluídos, o século XX foi o da Psicanálise que contribuiu para reintegrar, no psiquismo, a causalidade do distúrbio neurótico e, portanto, de não excluir os desviantes de sua cidade. Se o mal psíquico é interno ao sujeito, como sublinha Freud, os estigmas da norma e da patologia se modificam no sentido de uma mudança de posição causada pelas fronteiras antes perfeitamente definidas.

A psicanálise introduz assim uma subversão na sociedade burguesa, pois ela indica que o mal do qual sofre o sujeito moderno vem do interior dele mesmo. As duas disciplinas, psiquiatria e psicanálise, tem como ponto comum serem fundadas sobre uma nosografia que alia uma classificação estrutural dos males da alma a uma descrição de sua experiência existencial.

O século seguinte é de ouro e também do esgotamento desse sistema de pensamento: rapidamente se anunciou como o século das psicoterapias que não propõem nem classificação nem descrição de uma experiência existencial, mas respondem à afirmação de si por um reforço narcísico da soberania do eu. A afirmação de si da burguesia e de seu elitismo hierarquizado, caracterizado por sua devoção à família e ao seu patrimônio transmitido, a esse culto da raça que seguiu ao culto feudal do sangue, sucedeu uma sociedade de massa organizada em redes, transformando os sujeitos em individualidades múltiplas, em personalidades atomizadas ou dissociadas, em mercadorias, em corpos fatiados, breves, em sujeitos capturados pela imago do duplo no espelho. De onde emergem as novas formas de sofrimento psíquico e de novas maneiras de classificá-las, caracterizadas pela valorização narcísica e pelo abandono da ideia de uma subjetividade rebelde. Isso explica a proliferação de psicoterapias efêmeras ou à la carte parecendo adaptadas a cada indivíduo, a cada comunidade, a cada grupo. Essas terapias deixam crer que a vontade individual é mais potente que o peso do passado e da genealogia e que ela determina muito mais o destino do sujeito do que a ancoragem no universo familiar, na memória, enfim, no inconsciente no sentido freudiano.

Os pacientes não parecem mais sofrer de um recalcamento do desejo, mas de uma insatisfação existencial, de um estado amorfo e fútil, de um vazio, de uma desilusão crônica e, sobretudo, de uma incapacidade a toda relação de alteridade. Essas transformações do psiquismo e da demanda terapêutica têm a ver, em parte, com a evolução social que conduziu à emancipação sexual das mulheres e ao declínio da família autoritária. Mas elas são igualmente a consequência da maneira como a psicanálise implantou-se nos Estados Unidos. Sabemos que, no início do século, ela foi acolhida com entusiasmo ao ponto de tornar-se um instrumento de adaptação do homem a uma utopia da felicidade higiênica: uma boa saúde mental num corpo são. Ela se impõe menos por seu sistema de pensamento (como na França), e muito menos por seu rigor clínico (como na Inglaterra), que por sua capacidade de trazer uma solução concreta e imediata à moral sexual da sociedade liberal e puritana.

Pensou-se que, graças à psicanálise, o homem não seria mais condenado ao inferno de suas paixões e que ele pudesse curar-se. Em uma palavra, sonhou-se que a psicanálise cumpriria enfim, pelo conjunto da sociedade, o desejo de Narciso de ser liberado do desejo. Ora, como sabemos, nada é mais estranho ao pensamento freudiano que esse ideal higienista que supõe uma sexualidade doentia repousando sobre o princípio da confissão, da transparência, da condenação de toda forma de dissimulação em se tratando de vida privada. Freud tinha tanta consciência desse desvio que manifestou sempre uma violenta hostilidade à psicanálise dita americana.

Ao final dos anos 1970, situamos um declínio da psicanálise nos Estados Unidos. Ela parecia não conseguir mais responder à multiplicidade das demandas clínicas de tipo narcísico. Tudo se passava como se a irrupção das massas no movimento social chegasse a uma espécie de desencanto em relação ao ideal de uma sociedade conquistadora, em que os sujeitos pudessem se identificar aos grandes heróis do cinema hollywoodiano.

Apesar de sua potência institucional e de sua expansão em todos os setores da psiquiatria, apesar mesmo da evolução clínica impulsionada pela terceira geração de psicanalistas, a psicanálise foi atacada com a mesma força com que ela foi adulada em outros tempos. Assim, os participantes do antifreudismo dos anos 1980-2000 utilizaram os argumentos empíricos idênticos aos argumentos já utilizados para criticar os pioneiros do freudismo: recusar a cura freudiana alegando sua ineficácia terapêutica, propondo, em oposição, as terapias biológicas, farmacológicas ou cognitivas fundadas numa concepção experimental do homem e reduzindo o psiquismo a neurônios, e a subjetividade a comportamentos instintivos. Essas múltiplas terapias fazem um bom casamento entre si, pois têm como denominador comum o ideal de uma afirmação narcísica do eu.

Dito de outra maneira, se a psicanálise se implantou no solo americano adotando um ideal que Freud sempre rejeitou, um ideal que prometia liberar o homem do peso de sua culpa, do sexo, de seu desejo ou de sua obsessão pela morte, a psicanálise foi rejeitada, pois não tinha nenhuma das promessas em nome das quais ela tinha sido transformada em uma utopia da felicidade.

O paradoxo dessa situação é que a psicanálise, em sua versão americana, contribuiu para sua própria derrota servindo a um ideal que não era o seu.

Segundo Roudinesco, o culto de si foi contemporâneo a uma crise de confiança nas virtudes do sistema adaptativo nos Estados Unidos. A um florescimento do engajamento político (revolta do campo, guerra do Vietnã), sucedeu-se um sentimento de fracasso e a procura de novas formas de construção de si. Anos mais tarde (1985-1990), assistimos a uma generalização do cuidado terapêutico como solução de dobrar-se ao desengajamento político e à crença num fim da história, conduzindo ao desejo de aniquilamento de si. Essa busca do novo, próprio a uma geração engajada na política, depois decepcionada com a política e desengajada por fim de suas próprias esperanças de mudar o mundo, é magnificamente contada no livro de Philip Roth Pastoral americana (1998).

Inscrita no movimento de uma globalização econômica que transforma os homens em objetos, a sociedade depressiva não quer mais ouvir falar de culpa nem de sentido íntimo, nem de consciência nem de desejo nem de inconsciente. Quanto mais ela se encerra na lógica narcísica, mais foge da ideia de subjetividade. Só se interessa pelo indivíduo, portanto, para contabilizar seus sucessos, e só se interessa pelo sujeito sofredor para encará-lo como uma vítima. E, se procura incessantemente codificar o déficit, medir a deficiência ou quantificar o trauma, é para nunca mais ter que se interrogar sobre a origem deles.

Assim, como salienta Roudinesco, o homem doente da sociedade depressiva é literalmente “possuído" por um sistema biopolítico que rege seu pensamento à maneira de um grande feiticeiro. Não apenas ele não é responsável por coisa alguma em sua vida, como também já não tem o direito de imaginar que sua morte possa ser um ato decorrente de sua consciência ou de seu inconsciente.

Entretanto, deve-se constatar que somente a psicanálise foi capaz, desde suas origens, de realizar a síntese dos quatro grandes modelos da psiquiatria dinâmica que são necessários a uma apreensão racional da loucura e da doença psíquica. Com efeito, ela tomou emprestado da psiquiatria o modelo nosográfico, da psicoterapia o modelo de tratamento psíquico, da filosofia uma teoria do sujeito, e da antropologia uma concepção de cultura fundamentada na ideia de uma universalidade do gênero humano que respeita as diferenças. A psicanálise, portanto, não se alinha à ideia hoje dominante, de uma redução da organização psíquica a comportamentos. Se o termo “sujeito" tem algum sentido, a subjetividade não é mensurável nem quantificável: ela é a prova, ao mesmo tempo visível e invisível, consciente e inconsciente, pela qual se afirma a essência da experiência humana.

*Ana Maria Gageiro é professora do Programa de Pós-graduação em Psicanálise da UFRGS e coordenadora da Casa dos Cata-Ventos, projeto de Pesquisa e Extensão que atende crianças em situação de vulnerabilidade num espaço dentro da Vila São Pedro, projeto inspirado no da Casa da Árvore do Rio de Janeiro.


O artigo acima, intitulado A subjetividade como essência da experiência humana, foi originalmente publicado no libreto preparatório para a conferência com Elisabeth Roudinesco. O libreto também contém biografia, indicações de livros, links com a intelectual, bem como algumas de suas ideias: “Não podemos trabalhar a obra de Freud como um texto atemporal, temos que retornar à sua origem, à sua gênese, à maneira como ela se situa historicamente."