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Envie sua Pergunta Braskem para Francis Fukuyama

"O fim da História é uma teoria sobre a modernização. O que observei, em 1989, data do artigo original, foi que não estávamos na direção do socialismo e que, se houvesse um ponto de encerramento, seria algo como a democracia ocidental liberal e um sistema direcionado ao mercado não planejado. É óbvio que temos novos desafios, porque os sistemas democráticos não são perfeitos."

Francis Fukuyama ganhou destaque mundial ao publicar O fim da História e o último homem, livro que se tornou best-seller e foi traduzido para mais de 20 idiomas. Seu trabalho mais recente, Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy, parte da fala que inicia este texto: os novos desafios da democracia, as disfunções da política contemporânea e os efeitos da corrupção.

Para Fukuyama, a principal questão é o entrelaçamento entre política e economia. O maior problema em sociedades aspirando à democracia tem sido a incapacidade de oferecer a substância do que as pessoas querem do governo: segurança pessoal, crescimento econômico compartilhado e os serviços públicos básicos, necessários para alcançar a oportunidade individual.

Francis Fukuyama é o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo da próxima quarta-feira (29). Envie sua Pergunta Braskem para o cientista político de qualquer parte do Brasil, através do e-mail digital@fronteiras.com. Compartilharemos a resposta de Fukuyama à pergunta selecionada na quinta-feira, em nossos canais digitais, patrocinados pela Braskem.

Acesse o libreto preparatório para a conferência de Fukuyama. Leia breve biografia, indicação de livros, ideias do cientista político, links para entrevistas e vídeos, bem como o artigo O fim da história e outras histórias, por Eduardo Wolf, Bacharel e Mestre em Filosofia pela USP, articulista do jornal Zero Hora e da revista Veja.

Conheça a mais recente obra de Fukuyama, Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy


Conheça o conferencista do Fronteiras do Pensamento | FRANCIS FUKUYAMA
(review via The Economist)

Uma regra BÁSICA da vida intelectual é que a celebridade destrói a qualidade: quanto mais famoso o autor se torna, o mais ele tende a produzir conversa oca. Acadêmicos famosos trocam as bibliotecas pelo circuito de palestras. Jornalistas de renome adquirem suas informações em jantas com os poderosos ao invés de realizar pesquisas aprofundadas. Muitos discursos e muitos tapinhas nas costas deixam pouco tempo para reflexões sérias.

Francis Fukuyama é uma gloriosa exceção a essa regra. Ele ganhou reconhecimento global com a publicação de “O Fim da História e o Último Homem" em 1992. Ele ganhou mais aclamação no início dos anos 2000 com seus ataques contra o movimento neoconservador que o havia nutrido. Entretanto, ao invés de se aproveitar da fama, ele dedicou a última década para produção de um estudo monumental da história do que ele chama de “ordem política". Em seu primeiro volume, “As Origens da Ordem Política", ele trata desde a pré-história até o final do século XVIII. Esse segundo e último volume trata da história até os dias atuais. Os dois livros baseiam-se em um impressionante conjunto de estudos.

Essa explosão de energia intelectual foi inspirada no fracasso parcial da revolução liberal que o autor outrora celebrou. “O Fim da História" propôs que os mercados e a democracia eram partes integrantes de uma fórmula única triunfante. Mas as duas últimas décadas geraram uma imagem mais deprimente. A China adotou uma mistura de capitalismo de Estado e autoritarismo. A democratização fracassou na Rússia e em vários países do Oriente Médio. Francis Fukuyama sugere que uma razão principal do porquê a história se mostrou mais complicada do que ele imaginava reside na qualidade das instituições políticas. Nem democracia, nem mercados podem florescer eficazmente na ausência de um Estado competente. Mas tal Estado pode produzir muitas das virtudes da modernidade sem os benefícios da democracia ou dos mercados livres.

A construção do Estado é difícil. Fukuyama argumenta que a Europa e os Estados Unidos têm por muito tempo levado o mundo fazendo o trabalho pesado. Eles herdaram fortes códigos legais medievais. Eles introduziram serviços públicos baseados em méritos no século XIX. Na maior parte, eles introduziram as franquias em massa depois de criarem máquinas estatais eficientes. O homem que uma vez falou sobre “o fim da história" agora fala em “ir para a Dinamarca".

Ele compara a façanha da Dinamarca e de outros países que criaram Estados bem-sucedidos com dois tipos de fracasso. O primeiro é o fracasso das instituições de se manterem atualizadas com as mudanças sociais, como em grande parte da América Latina. Depois de um dilúvio de reformas nos anos 1980, o governo do Brasil é uma confusão de departamentos de primeiro-escalão e cargos de confiança. O segundo é o fracasso institucional generalizado. O fracasso da Primavera Árabe foi essencialmente um fracasso de capacidade governamental. No Egito, a Irmandade Muçulmana falhou em discernir a diferença entre vencer uma eleição e ganhar poder total, então a classe média do país relutantemente retornou ao autoritarismo.

Entretanto, essa não é uma simples história do ocidente contra o resto, ou do mundo desenvolvido contra o mundo subdesenvolvido. Fukuyama chama a atenção para o fato de que o sul da Europa está muito atrasado em relação ao norte: Grécia e Itália seguem distribuindo empregos com base em cargos de confiança. Mas seus apontamentos mais interessantes são na direção do Leste Asiático. A China produziu um Estado altamente competente, constituído por funcionários civis de primeira linha escolhidos através de exames escritos e capazes de monitorar os negócios de um vasto império. Segundo ele, o que vemos hoje na China é uma retomada dessa tradição depois de um colapso que durou um século: o Partido Comunista Chinês está voltando atrás na história para provar que você pode criar um Estado competente sem os benefícios das tradições ocidentais de democracia ou de Estado de Direito.

O livro é, às vezes, frustrante. Fukuyama frequentemente sobrecarrega o leitor com seu conhecimento; as primeiras duas partes do livro, sobre o Estado e as instituições de política externa, são muito longas, enquanto as duas partes seguintes, sobre democracia e decadência política, muito curtas. Mas duas coisas mais do que compensam os ocasionais fracassos do autor.

Primeiro, a qualidade de seu intelecto. Ele enche o livro de sacadas que farão você parar para pensar. Os Estados Unidos preservaram as principais características da Inglaterra de Henrique VIII depois que a Inglaterra já as havia abandonado, ele afirma, incluindo a ênfase na autoridade da lei comum, uma tradição de auto-regulamentação local, a soberania dividida entre muitos indivíduos e o uso de milícias populares. A construção remendada dos Estados na África pode em parte ser explicada pelo fato de que esse é o continente menos populoso do mundo: foi apenas em 1975 que a sua densidade populacional alcançou os níveis europeus de 1500.

Segundo, seu desespero acerca do estado atual da política estadunidense. O autor afirma que as instituições políticas que permitiram que os Estados Unidos se tornassem uma democracia moderna bem-sucedida estão começando a entrar em decadência. A divisão de poderes sempre criou potencial para o impasse. Mas duas grandes mudanças transformaram esse potencial em realidade: os partidos políticos estão polarizados em linhas ideológicas e poderosos grupos e interesse vetam as políticas que não gostam. Os Estados Unidos se degenerou em uma “vetocracia". O governo é quase incapaz de resolver muitos de seus problemas mais sérios, da imigração ilegal à estagnação dos padrões de vida; O país pode até estar se degenerando em o que Fukuyama chama de sociedade “neopatrimonial", na qual dinastias controlam bloqueios de botos e infiltrados políticos trocam poderes por favores.

A mensagem central de Fukuyama nesta longa obra é tão deprimente quanto a mensagem central de “O Fim da História" era inspiradora. Inicialmente lenta, mas em aceleração, a decadência política pode eliminar as grandes vantagens que a ordem política proporcionou: uma sociedade estável, próspera e harmoniosa.