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Envie sua pergunta para Amós Oz

Amós Klausner, com 15 anos de idade, abandonou o nome familiar para Oz quando ingressou em um Kibutz. Crítico daquilo que ele chama de clichês patrióticos e chauvinistas, o escritor Israelense já foi chamado diversas vezes de traidor. As acusações fizeram ele refletir sobre a natureza da palavra, fazendo dela o elogio do desvio. Avesso a rótulos, como esquerda, direita, salvação nacional ou internacional, o escritor reflete em suas obras sobre como respostas simples podem levar à desumanidade. 

Uma das principais temáticas de sua obra, o conflito entre Israel e Palestina foi centro do livro Como curar um fanático (2016), que reúne um conjunto de ensaios do autor. Elogiando o pensar contra a corrente, Amós Oz classifica a conformidade e a uniformidade como maneiras mais sutis de fanatismo. “Com frequência o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, o culto de indivíduos carismáticos pode bem ser outra forma difundida de fanatismo”, afirma o escritor. 

Amós Oz é o conferencista do próximo encontro do Fronteiras do Pensamento 2017. Envie sua pergunta através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de segunda-feira (26). Oz responderá à questão selecionada diretamente do palco da conferência em São Paulo. Divulgaremos a resposta do escritor na terça (27) em nossos canais digitais, patrocinados pela Braskem.  

Em artigo especial para o Fronteiras do Pensamento, Susana Ramos Ventura* apresenta um panorama da literatura do autor, associando-o à figura do contador de histórias que pertenceu à primeira geração de escritores a produzir literatura no estado de Israel. Assim, revisita histórias de seus antepassados, resume elementos do seu presente e desvenda a natureza humana através de seus personagens, muitas vezes símbolos de questões político-ideológicas, religiosas e sociais que atravessam transversalmente a cultura israelense.


A ARTE DE IMAGINAR PARA CONSTRUIR A PAZ | Susana Ramos Ventura 

O conjunto de contos Onde os chacais uivam (1965) – que se ambienta num kibutz – e o romance urbano Meu Michel (1968) colocaram Amós Oz no mapa literário israelense, iniciando uma produção intensa e vigorosa, que hoje constitui um vívido painel humano da vida de um povo e de um país. O contraponto representado pela temática dos dois primeiros livros: a vida coletiva no kibutz, experiência vivenciada pelo próprio autor durante cerca de 30 anos, e o cotidiano de um jovem casal numa grande cidade narrado pela ótica feminina em primeira pessoa mostram o início da construção do amplo painel social ao qual Amós Oz se dedicaria nas seguintes décadas. 

Nascido em Israel em 1939, Amós Oz é o escritor israelense mais traduzido no Brasil e no mundo hoje, e pertence à chamada “Geração do Estado” – a primeira a escrever e publicar após o efetivo estabelecimento de Israel como Estado. Romancista, ensaísta, contista, crítico, age na construção de sua obra como um arquiteto, empenhado socialmente em dar testemunho de seu tempo e dos desafios que couberam aos judeus no mundo contemporâneo. 

Professor de literatura na Universidade Ben Gurion, a partir da década de 1970, passou também a atuar ativamente na imprensa escrita e falada, firmando suas posições sobre os rumos políticos de seu país. Militante da esquerda israelense, ele é participante atuante do Movimento Shalom Achshav (Paz Agora). Como ativista pela paz e argumentador diante dos desafios das questões de Israel, Amós Oz ficou tão ou mais conhecido no mundo do que como o grande escritor que primordialmente é. 

Profícuo em tudo o que realiza, trabalhador incansável em seu diálogo cotidiano com as questões mais pungentes de seu país e de seu povo, um dos pontos mais importantes de seu discurso tem sido a defesa da possibilidade de conciliação entre a tradição e os ideais de justiça social e respeito para todos. 

A cada uma de suas publicações no Brasil, podemos acompanhar, junto com as resenhas em jornais, as entrevistas concedidas por telefone, em que o autor costuma responder tanto a questões atinentes ao livro lançado no momento quanto àquelas sobre seu país. Esta profusão de entrevistas é característica do autor, que acompanha a disseminação de sua obra pelos diferentes lugares onde ela é traduzida e dá seu testemunho sobre as circunstâncias da edição, respondendo também aos questionamentos da comunicação social e que versam, em geral, para além do conteúdo do livro em si, sobre o que houver de mais candente em Israel no momento do lançamento. 

Numa de suas obras literárias mais conhecidas, o romance de cunho autobiográfico De amor e trevas (2002), Amós Oz revela que seus avós paternos emigraram, quando ainda eram noivos, de Odessa, na Rússia, para os Estados Unidos, voltando de lá, de maneira bastante surpreendente, um par de anos mais tarde, na contramão do que fizeram centenas de milhares de outros judeus oriundos da Europa Oriental, que se fixaram no Novo Mundo com bilhete apenas de ida. Mais tarde, ambos desembarcaram em Israel, onde passaram o restante de suas longas vidas. Amós Oz reflete então que, se os avós tivessem seguido o que planejavam inicialmente, possivelmente ele mesmo teria nascido em algum lugar próximo de Nova York, caso em que teria “escrito em inglês romances engenhosos sobre as paixões e as angústias dos imigrantes de chapéus altos e sobre as fossas neuróticas de sua progênie deprimida”. Essa afirmativa mostra que o projeto de escrita do autor estaria focado, fosse em que quadrante fosse, em sua condição de judeu na contemporaneidade e naquela de narrador das múltiplas vivências possíveis de seu povo em algum ponto do mundo. O estilo mostrado nessa curta citação incorpora vários elementos da prosa bem forjada de Amós Oz: rapidez de construção de imagens, uso de uma linguagem fluida e refinadamente humorada, e a surpresa do emprego de palavras inesperadas, que desafiam e surpreendem os leitores. 

De amor e trevas é um amplo painel tanto da formação familiar do autor quanto daquela do Estado de Israel, com ênfase na infância de Oz, com laçadas para o passado em que desvenda as origens de seus antepassados – por consequência, de parte da população de Israel – e, sobretudo, dos desafios vividos pela sociedade durante o período de dominação inglesa (1920-1948). 

Amós Oz, como escritor, é sobretudo um habilíssimo contador de histórias, que investiga desvãos da alma de seus personagens com precisão, narra com desassombro os tortuosos caminhos em que são conduzidos pelos seus desejos, ao mesmo tempo em que cria uma teia narrativa que fisga os leitores de maneira inescapável. Seus livros são, também, o palco em que discute aspectos da sociedade israelense de modo a descortinar, a cada obra, ângulos ainda não explorados anteriormente. Por isso, como num programa que vai sendo construído livro a livro, seus leitores são convidados a conhecer aspectos diversos da complexa sociedade israelense e dos dramas individuais que, ocorrendo em todos os lugares do mundo, têm ali a marca daquelas específicas circunstâncias a determiná-los e a, talvez, dirigir algumas das possíveis saídas a questões que são de todos os seres humanos: amores, desamores, desencontros, dificuldades de toda ordem e redenções às vezes improváveis, mas possíveis. 

Em todas as suas obras literárias, Amós Oz confere protagonismo a personagens que representam diversos lados das questões de cunho político-ideológico, religioso e social que perpassam a sociedade israelense e que ele analisa com minúcia e, conferindo voz às suas criaturas, jamais silenciando os aspectos com os quais discorda ideologicamente, mas sim utilizando a ficção para discutir de maneira vívida cada um deles. Particularmente representativo dessa capacidade de imbricar o social e o individual é o romance epistolar A caixa-preta (1987), onde, em 51 cartas e 56 telegramas trocados entre as personagens, são reveladas questões sociais, religiosas e políticas complexas da segunda metade da década de 1970 em Israel. Romance polifônico, deixa diversos setores da sociedade falarem com sua própria voz (dada a escolha pelas cartas, confessionais por princípio). O resultado alcançado, neste e em outros livros, mostra a incrível capacidade de construção desse escritor em sua já monumental obra de mais de cinco décadas. 

Nas inúmeras entrevistas e intervenções sociais que realiza de maneira muito cerrada – acompanhando de perto tudo o que ocorre em Israel e expondo sua opinião a cada novo acontecimento social –, Amós Oz mostra que, para ele, a força vital de um povo numa sociedade democrática precisa ser alimentada por meio do exercício do diálogo e de debates constantes. Em muitas ocasiões tem afirmado a obrigação cidadã de não silenciar diante da injustiça, ainda que o ouvinte se recuse a concordar, demonstrando a firme convicção de que seu papel como homem de palavras é manifestar-se sobre tudo, mesmo que seus interlocutores sejam poucos, pois com o tempo e a persistência será possível convencer as pessoas a buscar a tolerância e o entendimento. Para Oz, o confronto israelense-palestino é um confronto trágico ente duas causas justas, e, por isso, ele defende uma solução na qual ambas as partes tenham que ceder em benefício mútuo. 

Por ocasião do lançamento brasileiro da coletânea de palestras Como curar um fanático (2016), Amós Oz fez duas declarações particularmente importantes para a compreensão de sua obra como um todo – tanto como escritor quanto como ativista: “Precisamos de imaginação dos dois lados em todas as situações da vida. A curiosidade nos torna pessoas melhores” e “Acredito na necessidade de imaginar o outro. Ler boa literatura nos coloca na pele de outras pessoas. Não para que concordemos 100% com elas, mas para que possamos ver a situação de um novo ângulo”.  Pela articulação dessas duas declarações, compreende-se a opção preferencial desse homem de palavras pela literatura, território privilegiado para “encenar” a vida, para imaginar saídas e palco para a adesão emocional tão essencial para a tentativa de colocar-se no lugar do outro.

 
* Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP (2006), com tese sobre o romance contemporâneo em Língua Portuguesa. Professora e pesquisadora ligada ao Centro de Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa (Clepul) e ao Centro de Pesquisas sobre os Mundos Ibéricos Contemporâneos (Crimic), da Sorbonne (Paris IV).