Voltar para Notícias

Envie sua pergunta para Camille Paglia

Feminismo, homossexualidade, liberdade e arte. Os tópicos - ainda que sejam bastante amplos - não dão conta de tudo o que é abordado na obra de Camille Paglia. Dona de uma bagagem acadêmica e cultural impressionante, Paglia consegue tratar com facilidade de uma gama muito variada de assuntos. Ela une, em seus livros e declarações, as capacidades obtidas a partir de uma formação erudita - de conhecimento artístico, cultural e social - e a habilidade de dialogar com a contemporaneidade de maneira inteligível. Seus ensaios abordam sobretudo as relações entre representações artísticas e áreas como a política, a religião, a sexualidade e a sociedade como um todo.

Graduada e Ph.D em língua inglesa pela Universidade de Yale, Camille Paglia é considerada uma das intelectuais mais influentes da atualidade. Atualmente, ela trabalha como professora de Humanidades e Estudos Midiáticos na Universidade de Artes da Filadélfia. Entre seus livros, estão Sexo, arte e cultura americana, Vampes & vadias e Personas sexuais. Em 2017, lançou Free women, free men – Sex, gender, feminism, ainda sem tradução para o português. O feminismo, temática recorrente na obra de Paglia, ocupa um lugar polêmico do pensamento da autora. A intelectual se coloca como crítica ferrenha do feminismo contemporâneo, indo contra diversas correntes atuais do movimento.

Camille Paglia é a próxima conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento 2017. Envie sua pergunta através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de terça-feira (15). Paglia responderá à questão selecionada diretamente do palco da conferência. Divulgaremos a resposta da crítica cultural na quarta (16) em nossos canais digitais.

O livro mais recente de Paglia no Brasil, Imagens cintilantes – Uma viagem através da arte desde o Egito a Star Wars (Editora Apicuri), concentra-se na história das artes plásticas trazendo obras consideradas representativas de diferentes movimentos e épocas. Leia abaixo um trecho da obra, em que Paglia discorre sobre a marcante obra de Picasso, Les Demoiselles D’Avignon.



CÉU E INFERNO – LES DEMOISELLES D’AVIGNON | CAMILLE PAGLIA

“A pintura mais importante do século XX”: é o que se disse de Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, antes que o século tivesse chegado à metade. Ela continua sendo uma das obras mais originais e perturbadoras da história da arte. Ao contrário das pinturas impressionistas, inicialmente rejeitadas, mas por fim ardentemente aclamadas pelo grande público, Les Demoiselles jamais foi completamente assimilada. As dimensões da maioria das pinturas impressionistas as faziam caber confortavelmente nas salas de estar da classe média. Mas com seus dois metros e meio, Les Demoiselles d’Avignon é uma presença esmagadora e intimidante. As reproduções em livros diminuem seu poder.

A pintura foi executada ao longo de três meses, em 1907, no apertado e esquálido estúdio de um só quarto que Picasso também tinha por moradia, no bairro boêmio de Montmartre, em Paris. Com vinte e cinco anos na época, era um dos muitos jovens artistas ambiciosos da cidade. Quando adolescente, na Espanha, chamara a atenção pela habilidade em desenhos e pinturas realistas. Mesmo antes de se mudar de Barcelona para Paris, a capital do mundo da arte, estava experimentando com os estilos estabelecidos, em busca daquele que seria o seu. O primeiro estilo exclusivo de Picasso foi a sua Fase Azul (1901-4), que consistia em retratos alongados de doentes, idosos e excluídos, sobre um melancólico fundo azul. Logo passou a uma Fase Rosa (1904-6), em que delicados grupos de artistas circenses são saturados de rosa, violeta e laranja. Os rosas encarnados de Les Demoiselles d’Avignon são uma sobrevivência da Fase Rosa, mas com uma espantosa mudança de tom. Já não há nenhum bom humor ou prazer. Ao contrário, parece que entramos numa câmara de tortura. É a sala de recepção de um bordel, onde mulheres entediadas se espreguiçam de cabelos soltos, enquanto esperam os clientes – cena desenhada com frequência por Degas e Toulouse-Lautrec. Picasso pintara prostitutas nos cafés de Paris, onde dançavam e flertavam umas com as outras. Em Les Demoiselles, porém, cada uma das mulheres parece fechada em sua severa e longínqua consciência. São como as Parcas, indiferentes e frias senhoras do destino dos homens.

Quando este quadro finalmente se tornou conhecido no mundo depois de sua aquisição pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1939, os comentários acerca de Les Demoiselles se concentraram em suas propriedades formais, como prefiguração do cubismo, criado conjuntamente por Picasso e Georges Braque antes da Primeira Guerra Mundial. Um ensaio escrito em 1972 pelo historiador da arte Leo Steinberg reclamava o honesto reconhecimento da sexualidade ilícita do quadro. Por ter sido preservado bom número de esboços preparatórios de Picasso, são muitos os estudos da gênese da obra, mas pouca ou nenhuma atenção foi dada a diversos pormenores posteriores. Seu título recatadamente ambíguo, “As donzelas de Avignon”, foi motivo de irritação: Picasso não o cunhou e não gostava dele. Simplesmente chamava o quadro de “mon bordel” (meu bordel).

Les Demoiselles é composto como um tableau vivant. A mulher de pé à esquerda ergue uma pesada cortina, enquanto a oposta irrompe como o vento no espaço em forma de tenda. Sobre um banquinho no canto inferior direito, uma mulher nua está sentada com as pernas descaradamente abertas. As duas figuras centrais, aparentemente verticais, estão na realidade reclinadas com os braços atrás da cabeça, com um lençol branco lhes encobrindo as pernas. Era revolucionária essa surpreendente fusão de dois pontos de vista. Desde o Renascimento, a perspectiva vinha se baseando na posição fixa do espectador, que reproduzia o lugar em que o pintor armara seu cavalete. Aqui, porém, estamos de pé sobre o chão do bordel e também pairando perto do teto – dualidade jamais vista desde a arte bizantina.

A perspectiva múltipla, que logo se tornaria a marca registrada do cubismo, também se aplica à mulher sentada, que lembra uma aranha: vemos de trás suas pernas e nádegas nuas, mas seu tronco está diabolicamente torcido, voltando-lhe os braços e o rosto para frente. Ela apoia no pulso o queixo ameaçadoramente parecido com um bumerangue. As mulheres deitadas também são híbridas: os olhos e os rostos estão de frente, enquanto os narizes, de perfil. O método disjuntivo de Picasso deriva, em parte, do de Cézanne, cujas inclinadas mesas interioranas são imitadas aqui pela mesa de centro vertiginosamente angulada. Contudo, Picasso também estudara a arte egípcia, com suas contorções anatômicas. A mulher da esquerda, com a mão presa ao flanco e um pé para frente, baseia-se nas esculturas dos faraós e nas estátuas de atletas gregos (kouroi) que elas inspiraram. Ademais, como a única donzela vestida (ou semivestida), ela lembra a Vitória alada de Samotrácia, figurada com seus trajes molhados enquanto baixa à proa de um navio, monumental escultura antiga que Picasso viu dominando a magnífica escadaria Daru, no Louvre.

Enquanto isso, as donzelas reclinadas aludem à tradição veneziana de nus preguiçosos e opulentos, que reapareceram como 24 25 odaliscas turcas ou argelinas a fumar narguilé nos quadros franceses do século XIX. Picasso baseou as cabeças em forma de cúpula e as longas orelhas das duas mulheres em esculturas pré-romanas, à época recém-descobertas perto de sua cidade natal de Málaga, na Andaluzia. Seus cotovelos erguidos vêm de uma estátua homoerótica que sempre o fascinou – o neoplatô- nico Escravo Moribundo, de Michelangelo, cuja cópia em tamanho natural, em gesso, pode ser vista em fotografias do estúdio de Picasso tiradas depois de sua morte.

Assim, Les Demoiselles d’Avignon encarna de maneira densa uma procissão de estilos da arte ocidental; vista da esquerda para a direita: a Antiguidade, através do Renascimento, até a Modernidade, que Picasso mostra transformada pela chegada abrupta de culturas não ocidentais, representadas pelas atormentadas máscaras tribais da África e da Oceania. Picasso havia visto e admirado muitos exemplos do que era na época chamado coletivamente de l’art nègre. Os pintores fauvistas, inclusive Henri Matisse, o líder artístico de Paris, vinham colecionando objetos tribais desde 1904. Embora mais tarde tentasse minimizá-la, Picasso também teve uma intensa experiência espiritual no museu etnográfico do Trocadéro, exatamente quando estava formulando Les Demoiselles. Dezesseis anos antes, Gauguin trocara Paris pelo Taiti, e Picasso viu seus quadros da Polinésia em duas retrospectivas póstumas; sua influência pode ser observada na melancólica compleição da demoiselle da esquerda, que se assemelha aos espíritos oceânicos ancestrais, como as pétreas sentinelas da Ilha de Páscoa.

No entanto, como parecem tranquilos os quadros taitianos de Gauguin quando comparados à visceral adaptação de Picasso do que na época era chamado de “primitivismo”. Picasso se concentra na violência dos antigos cultos da natureza, com seus rituais de sacrifício sangrento. O sexo, tal como retratado em Les Demoiselles d’Avignon, é uma ponte para um mundo impessoal de pura força biológica, onde o homem não é nada, e a mulher – uma deusa-mãe que se desdobra em suas estranhas irmãs – é tudo. A mesinha foi vista como uma proa falicamente perfurante (nos primeiros esboços, havia um marinheiro sentado no centro da cena). Porém, ela pode também ser vista como um altar em ruínas, repleto de frutas proibidas acinzentadas – uma fatia de melão com aspecto de lua crescente em forma de foice, uma pera e uma maçã manchadas, parecidas com nacos de carne.

Já terá acontecido a castração? O motivo da carne é gritante na figura da esquerda, cujo penhoar rosa que vai até o chão lhe dá uma terceira perna, como um bom corte de carne. Em gíria francesa, aliás, o bordel para operários era chamado de “matadouro” (maison d’abattage; em comparação com “abattoir”). Sim, as prostitutas são carne dilacerada, mas a perna em forma de lâmina que se apoia no chão sugere que os sacrificados foram os clientes daquelas mulheres, e o sangue deles escorre para seu pé vigoroso e masculino.

Não há sorrisos de boas-vindas nessa conspiração de ninfas urbanas. Seus olhos de serpente, sem cílios, estão fixos e vazios, em ângulos disparatados ou simplesmente não existem. São vigias insones do céu-inferno do sexo, onde o preço do êxtase momentâneo pode ser a doença ou a obliteração da identidade. As facetas geométricas, como pedras preciosas, do cubismo são antecipadas na transformação operada por Picasso, de seios redondos em quadrados agressivos, com pontas de navalha (combinados com os pelos das axilas, estranhamente invertidos). A instabilidade dos objetos cubistas é ilustrada na maneira como uma cortina azul se transforma num vitral estilhaçado, pelo qual vemos o sol, as nuvens e o pico de uma montanha, miragem da liberdade. Uma nuvem gotejante, perto do quadril esquerdo da mulher do meio, forma até uma fantasmagórica espinha branca, como numa radiografia, com as vértebras se unindo aos poucos, como num sonho darwiniano.

As cores de Les Demoiselles d’Avignon pintam um drama elementar, da terra marrom ao céu azul. Essas ferozes mulheres encenam o que a Bíblia credita a Jeová – a divisão entre a terra e o oceano e a criação do firmamento, com o sol e a lua. O processo cósmico de nascimento é literalizado num borrifo de sangue que atinge a demoiselle torta. Seu banquinho acocorado é um bidê de prostíbulo, mas também uma cadeira baixa de parto, fundamental nas velhas sociedades rurais do mundo inteiro. Nos primeiros esboços de Picasso, um estudante de medicina ou um inspetor de saúde urbana segurando um livro encara a demoiselle agachada: o medonho mistério da procriação pode ser observado, mas não explicado pela ciência.

Picasso chamava Les Demoiselles d’Avignon de “meu primeiro exorcismo pictórico”. Era uma experiência de magia negra. Com seus contornos esbranquiçados e graciosos, unidos a fraturas e distorções, conjuga beleza e feiura. Apesar de muitos terem afirmado que o título se refere a um prostíbulo de Barcelona, não se encontrou nenhuma prova documental da existência de algum bordel na respeitável rua Avignon. Na realidade, era nessa mesma rua, logo na esquina da casa de seus pais, que o jovem Picasso comprava material de pintura. Essas demoiselles escultóricas, preenchendo o plano achatado do quadro, são as Musas carnais de Picasso, padroeiras de seu gênio e de sua titâ- nica produtividade. (Ele deixou 50 mil obras, num amplo leque de gêneros e materiais.) Na vida real, uma única mulher jamais seria o bastante para ele.

Picasso tinha de rasgar os véus da personalidade para captar a essência feminina, que sempre lhe escapava. Nesta que é a sua maior pintura até o mural de protesto político, Guernica, pintado trinta anos depois, ele enfrenta as mães de sua visão criativa. Cambiantes em suas múltiplas faces, elas são os modelos dos incansáveis estilos mercuriais de sua longa carreira. Ele não as consegue conquistar, mas o intenso olhar diz que elas escolheram a ele, e só a ele.