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Envie sua pergunta para Deirdre McCloskey

Persuasão, retórica, epistemologia, grego, latim. Quem lê estas áreas de estudo dificilmente imaginaria que estamos falando de uma economista - e de uma das grandes vozes da liberdade na economia. Mas, estamos. Este é um dos diferenciais de Deirdre McCloskey, que fez de seus estudos formais, em Harvard, uma plataforma para ampliar os métodos de se estudar economia até então. 

Deirdre cruzou diversos campos do pensamento, escrevendo obras e artigos e, inclusive, fazendo o quase impossível: criou um grupo interdisciplinar para pensar a economia, que reunia linguistas, engenheiros e até marxistas e "austríacos". Uma história cheia de reviravoltas, pessoais e profissionais, faz de McCloskey uma incansável em compreender como a economia pode ajudar a vida humana efetivamente.

Deirdre McCloskey é a próxima conferencista do Fronteiras do Pensamento. Para Porto Alegre (06/11) e São Paulo (08/11), a convidada traz a importância da inovação na economia; da criação e da motivação em ampliar as ideias e ultrapassar as fronteiras muitas vezes impostas pelo próprio Estado. Uma palestra sobre o passado, o presente e o futuro de um dos campos de estudo mais relevantes para o Brasil atual. 

Envie sua pergunta para a economista norte-americana através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 08. McCloskey responderá a questão selecionada diretamente do evento. Divulgaremos sua resposta na quinta (09), em nossos canais digitais.

Quem nos explica melhor quem é Deirdre McCloskey é o professor indiano Arjun Jayadev, que narra a trajetória da convidada, misturando pensamento e vida em uma única linha de tempo. Não perca. Confira abaixo:


As muitas transgressões de Deirdre McCloskey | por Arjun Jayadev

Por volta de 1980, Deirdre McCloskey passou por uma ruptura decisiva com seu passado intelectual. Ela tinha um PhD em Economia por Harvard, havia sido tutorada pelo lendário historiador da Economia Alexander Gerschenkron e ocupava um cargo de professora com estabilidade na Universidade de Chicago – à época, talvez a universidade mais importante do mundo em termos de impacto geracional. Possuía formação e reputação de ponta, e fizera por merecer sua fama de economista dedicada e independente.  

Mas, embora houvesse “aprendido o jeito” de ser uma economista, havia muitos anos que sentia uma insatisfação crescente com sua formação. Conforme diz, sua experiência de décadas em departamentos de Economia despertaram nela uma suspeita fundamental quanto à metodologia limitada e “falsa” de boa parte da disciplina. Muitos dos estudos de Economia haviam se revestido deliberadamente de certo positivismo, muito embora os acadêmicos soubessem da importância crucial dos vínculos históricos, sociais e políticos de seus estudos.

Então ela fez algo atípico: envolveu-se com seriedade e grande profundidade com as Ciências Humanas. Após conhecer Wayne Booth, professor do Departamento de Língua Inglesa em Chicago, ela começou a pensar sobre a importância da persuasão e da retórica na economia. Começou a estudar latim e grego para se reconectar com as tradições intelectuais mais profundas da qual fazia parte. Escreveu um livro sobre epistemologia, Knowledge and Persuasion in Economics [Conhecimento e Persuasão na Economia]. Começou a pensar de forma mais clara e cuidadosa no discurso e na escrita da Economia. 

Inaugurou um grupo interdisciplinar com diversas pessoas dos departamentos de Inglês e Engenharia na Universidade de Iowa. Começou a ter conversas mais amplas e profundas com pessoas de outras vertentes da economia – marxismo e economia austríaca, por exemplo – e, por fim, transferiu-se para a Universidade de Illinois, em Chicago, onde assumiu o posto, muito mais amplo em termos intelectuais, de Docente Emérita de Economia, História, Inglês e Comunicação.

Foi uma jogada muito bem-sucedida. Além de trazer mais satisfação em termos intelectuais, a maior compreensão da retórica, da persuasão e dos métodos de outras disciplinas e tradições permitiram que ela se tornasse uma crítica afiada e formidável da maneira como a maior parte dos estudos de Economia é realizada. 

Ao contrário de outros que simplesmente se afastaram da disciplina, ela não desistiu da disciplina, mas, ao invés disso, decidiu examiná-la de perto e encontrar outras maneiras de esclarecer suas questões fundamentais.

O interesse mais longevo de McCloskey é pela grande questão econômica da história: a divergência e a singularidade da Grã-Bretanha e do Noroeste da Europa. Seu trabalho mais recente retorna aos mesmos temas e vem sendo desenvolvido há pelo menos duas décadas. 

Seu livro, Bourgeois Equality [Igualdade Burguesa], de 2016, é parte de uma trilogia (A Era Burguesa) onde argumenta que as justificativas atualmente utilizadas para explicar a divergência (a presença de carvão no Reino Unido, a importância de um sistema bancário universal, a superioridade do comércio britânico, a exploração e o imperialismo ou as instituições legais) não são adequadas. 

Em vez disso, ela foca na importância dos valores “burgueses” ou de classe média como um agente viabilizador central para esse propósito.

O foco em uma análise profundamente sensível e intrincada é típico de McCloskey, para quem a Economia é mais bem compreendida enquanto história social do que como previsão meteorológica. 

Como crítica da Economia falsamente científica que finge o oposto, ela repassou as críticas que elaborou ao longo dos anos quanto às limitações dos métodos econômicos (como ela diz, uma disciplina que vai de “M a N” ao invés de “A a Z”) e suas ilusões. 

Em livros como Secret Sins of Economics [Pecados Secretos da Economia] ou The Retoric of Economics [A Retórica da Economia] ela critica o foco no teorema da “existência” (ou economia de sala de aula) e o uso indiscriminado de testes de significância em boa parte da disciplina. 

Ela argumenta que isso afasta as pessoas do entendimento científico mais importante da Economia, que exige um comprometimento muito mais sério com a realidade existente. A Economia institucional da atualizada, que utiliza econométricas referentes a dados históricos, tampouco a agrada. 

Como outros colegas, ela considera esses estudos intelectualmente fracos, e acredita que são mais bem descritos como uma “Wikipedia com análise regressiva”. Para McCloskey, criticar o modo atual de se estudar a Economia não significa negar a importância da formalização e da abstração, mas antes saber colocá-las em seu lugar e jamais desviar da séria questão de compreender o mundo.

Sendo assim, como deve agir um economista sem convicção nos métodos e abordagens? 

McCloskey se preocupa com o ensino atual da Economia, e clama pelo resgate de abordagens mais holísticas, conforme sugerido por Joseph Schumpeter – uma Economia que priorizasse as ideias econômicas às meras provas matemáticas. 

Ela também propõe uma formação muito mais intensiva em cursos que vão além das econométricas, como pesquisa de arquivos, contabilidade e experimentos e uma atenção renovada para a História do Pensamento Econômico. Mas parece improvável que essas reformas tão amplas ocorram em um futuro próximo. 

Assim, perguntei: como um jovem que pretende trilhar a mesma tradição de livre pensamento que ela poderia construir sua própria trajetória intelectual? A resposta foi surpreendente e prazerosa para mim, dado o comportamento tão iconoclasta que ela vem apresentando durante toda sua vida. Atualmente, ela se identifica como uma “mulher feminista quantitativa pós-moderna retórica episcopal pró-mercado e Aristotélica que já foi um homem”. 

Mas, se por um lado ela é uma radical defensora da individualidade, sempre defendendo a maior liberdade, ela também acredita no poder comunidade, e se beneficiou muito daquelas que teve a oportunidade de integrar. 

Ela sugere que, para ser séria, uma vida intelectual alternativa precisa tanto de expressão individual quanto de companheirismo intelectual. É essencial fazer amigos, e ter um grupo encantador de pessoas que, mesmo que pequeno, seja composto de companheiros intelectuais. Uma vida de rebelião e inquietude diante do próprio passado convenceu McCloskey de que, em suas palavras, “O amor é crucial para o avanço científico.”


Arjun Jayadev é Professor Associado de Economia na Universidade Azim Premji e na Universidade de Massachusetts em Boston. Trabalhou com temas como Macroeconomia, Finanças e Distribuição. Ele é consultor no Instituto para o Novo Pensamento Econômico, onde é diretor substituto do Programa de Economia Política de Distribuição.



deirdre mccloskey

Acesse o conteúdo especial sobre a economista norte-americana Deirdre McCloskey. O libreto inclui breve biografia e informações de destaque sobre a conferencista. 

Também traz artigo exclusivo, intitulado A ética, a igualdade e a virtude da burguesia, escrito por Fernando Ribeiro Leite Neto, economista, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor do Departamento de Economia da PUC-SP e do Insper