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Envie sua pergunta para Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti

Gilles Lipovetsky, filósofo francês, e Eduardo Giannetti, economista e sociólogo brasileiro. O primeiro, conhecido por suas teorias sobre consumo, individualismo e a “hipermodernidade”, aborda sobretudo questões universais da sociedade atual. O segundo, assim como Lipovetsky, tem um entendimento da sociedade por uma perspectiva integrada e interdisciplinar. Mas sua produção intelectual - que passa também pela temática do consumo e da identidade - é mais focada na realidade brasileira, e trata desses assuntos com um viés sobretudo político. 

A hipermodernidade, conceito proposto por Lipovetsky, seria um estado atual de aprofundamento das características da sociedade moderna. A cultura da felicidade, da leveza e da novidade, além das consequentes angústia, ansiedade e sentimento de vazio causadas pelo contraste com a rotina acelerada e exigente, são algumas das características da hipermodernidade. Referência na área da moda e do consumo, Lipovetsky tem um currículo com seis títulos de doutor honoris causa em universidades de diversos países, atuação em conselhos do governo francês, e experiência com docência universitária - atualmente, ele é professor de Filosofia na Universidade de Grenoble, na França.


Eduardo Giannetti traz, de seu lado, um Ph.D em Economia na Universidade de Cambridge, 11 livros publicados - um deles, Autoengano, traduzido para cinco idiomas -, dois prêmios Jabuti e atuação no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. Também trabalha, atualmente, como professor universitário no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo. No debate com o teórico francês, o economista liberal deve trazer - conforme a tendência de suas obras - uma perspectiva importante da realidade brasileira no pensar da sociedade atual, dos hábitos de consumo e da relação da população com a política.


Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti são os palestrantes da segunda conferência do Fronteiras do Pensamento 2017. Envie sua pergunta através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de quarta-feira (7). Os conferencistas responderão à questão selecionada diretamente do palco da conferência em São Paulo. Divulgaremos a resposta dos pensadores na quinta (8) em nossos canais digitais, patrocinados pela Braskem

Em artigo exclusivo ao Fronteiras do Pensamento, Gustavo Coelho* explica os conceitos de modernidade, pós-modernidade, e a “hipermodernidade” proposta por Lipovetsky. Coelho organiza o paralelo feito pelo filósofo francês entre diferentes aspectos da sociedade. Leia a íntegra abaixo. 

Leia também o artigo de Eduardo Giannetti: A crise da ecologia psíquica



AINDA SOMOS MODERNOS? | Gustavo Coelho

Gilles Lipovetsky é o autor de uma tese amplamente discutida nos últimos anos acerca da época em que vivemos: a de que ela é o resultado não de uma superação do mundo moderno, e sim de um aprofundamento, acelerado pelo avanço da globalização e das tecnologias da informação, dos próprios pilares da modernidade. Se o mundo moderno foi o responsável por estruturar o Ocidente a partir da economia de mercado, da busca pela eficiência técnica nos mais variados setores de produção e a partir do ideal iluminista de autonomia do indivíduo contra toda forma de autoridade, sobretudo a da tradição, hoje vivemos em uma sociedade de hiperconsumo amplamente tecnológica em que nossa relação com o mundo é mais profundamente individualizada do que nunca. É nesse sentido que, para Lipovetsky, a sociedade atual deve ser chamada de “hipermoderna”, e não mais de “pós-moderna”. Iniciada na segunda metade do século XX e caracterizada por diversos pensadores sociais como um período de ruptura com a modernidade, sobretudo com a confiança tipicamente moderna na razão humana e na ideia de progresso histórico que essa confiança encorajava, a chamada “pós-modernidade” deveria ser tomada, para Lipovetsky, como uma fase de transição rumo à hipermodernidade.   

MODERNIDADE E “PÓS-MODERNIDADE”  

Traço característico da modernidade, a confiança na razão como meio de assegurar o progresso não apenas tecnológico, mas também social, estava amparada em uma ampla gama de fenômenos que moldaram o mundo moderno. A Revolução Científica dos séculos XVI a XVIII jogou por terra uma visão de mundo que havia dominado o Ocidente por mais de 2 mil anos e que dava suporte a teses caras à Igreja Católica, centro do poder político ocidental ao longo de toda a Idade Média. Graças também a essa revolução na ciência, o ser humano tornou-se capaz de explicar e prever com rigor matemático o comportamento de, basicamente, todos os fenômenos naturais até então conhecidos, da queda de uma maçã ao momento e à posição exatos da passagem de um cometa pela Terra. A famosa frase de Francis Bacon (15611626) de que “conhecimento é poder” mostrava-se mais verdadeira do que nunca, e o poder de intervenção do ser humano sobre o mundo natural viria a atingir patamares nunca antes imaginados com a Revolução Industrial, que se iniciou no final do século XVIII, trazendo a esperança de amplo conforto material ao alcance de todos.  

Entre as principais forças socioeconômicas que levaram a essa revolução, e que carregavam a mesma confiança na capacidade humana de alcançar o progresso, merecem destaque a ascensão da burguesia e o fortalecimento da economia de mercado, dois fenômenos diretamente ligados entre si e acelerados pela Revolução Comercial iniciada no século XII. Tanto a ascensão da burguesia, que culminou com a Revolução Francesa de 1789, quanto o fortalecimento da economia de mercado, que tornaria possível a mobilidade social que a organização socioeconômica medieval não permitia, encontraram apoio em uma agenda filosófica de fundamentação, emblemática na obra do filósofo inglês John Locke (1632-1704), da ideia de que os seres humanos nascem livres e iguais em direitos. Em grande medida inspirado por esse pensador, o movimento iluminista, que apontou para a sociedade francesa do século XVIII os ideais que inspiraram a revolução de 1789 e que defendia o uso da razão como o único meio para emancipar os seres humanos de toda sorte de dogmas, encontrou em palavras do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) uma formulação lapidar de seu espírito: “o esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem do seu estado de menoridade [...]. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. [...] Tem a coragem de fazer uso do seu próprio entendimento. Tal é o lema do esclarecimento”.

Uma organização socioeconômica que, finalmente, permitia a mobilidade social, uma revolução técnica que prometia um amplo aumento de bem-estar material e um ideário que dizia aos seres humanos que eles eram senhores de seus destinos: o homem moderno tinha bons motivos para olhar para frente e ficar bastante otimista em relação ao futuro. Entretanto, de meados do século XIX até meados do século XX, uma série de fenômenos contribuiu para que essa confiança fosse abalada: uma grande parcela da população não se via contemplada pelas promessas das revoluções industrial e francesa; o ideal iluminista de autonomia do indivíduo se viu comprometido frente ao surgimento de Estados totalitários e à permanência de um considerável poder de influência da religião sobre os costumes; a forte crise econômica de 1929 levantou, entre muitos, suspeitas sobre o sistema capitalista; e as duas grandes guerras mundiais evidenciaram, de forma traumática e como nunca antes, o poder destrutivo do ser humano. A partir do início dos anos 1950, os seres humanos passaram a olhar menos confiantes para o futuro e a olhar muito mais para o presente. Como observou o pensador francês Jean-François Lyotard, é essencialmente essa mudança de relação com o tempo que marca o início daquilo que se chamou “pós-modernidade”.

Lipovetsky concorda que esse desvio de olhar do futuro para o presente no início do pós-guerra foi, em grande medida, motivado pelo aprofundamento do niilismo contemporâneo, que já havia decretado, com Friedrich Nietzsche (1844-1900), que “Deus está morto”, ou seja, que a crença em Deus e nas diretrizes existenciais que essa crença implicava já não são mais pressupostos da cultura ocidental, e sim objetos de escolha individual. No entanto, para o autor de A Era do Vazio (1983), o principal motivo dessa mudança de perspectiva em relação ao tempo apontada por Lyotard não foi espiritual, mas material: o surgimento de uma economia de consumo e de comunicação de massa em um momento de fortalecimento do Estado de bem-estar social, que contribuiu para a universalização do acesso aos bens de consumo naquele período. “A primazia do presente”, afirma Lipovetsky em Os tempos hipermodernos (2004), “se instalou menos pela ausência de sentido que pelo excesso”, excesso do que é oferecido e de como é oferecido para toda a população. 

É da conjunção dessa nova condição material surgida no pós-guerra com a desestruturação de antigas formas de regulação social que contribuíam para ditar normas e referenciais de comportamento coletivo que se origina, para Lipovetsky, o que ele chamou em O império do efêmero (1987) de “sociedade regida pelo princípio-moda”: uma sociedade hedonista para a qual “tudo o que é novo apraz”, pautada pela renovação constante de modelos e produtos de consumo, cujos consumidores, reivindicando maior liberdade individual e abrindo-se para a exploração e a constituição de uma pluralidade de novas identidades, não podiam mais ser conduzidos para o consumo por referenciais coletivos arraigados na tradição, restando ao mercado tentar seduzi-los para o consumo através dos mais variados mecanismos: “novidade, hiperescolha, self-service, mais bem-estar, humor, entretenimento, desvelo, erotismo, viagens, lazeres”. A sociedade que começava a surgir a partir do início dos anos 1950 era, portanto, uma sociedade aberta a tudo o que fosse novo simplesmente por ser diferente do que era velho, em que o processo de individualização no posicionamento social e existencial dos indivíduos que a constituíam dava origem a uma pluralidade de novos perfis, e o mecanismo gerado pelo mercado para lidar com isso foi o tripé que compõe o que Lipovetsky chama de “sociedade-moda”: efêmero, renovação e sedução.

HIPERMODERNIDADE

 Frente a todas essas mudanças, Lipovetsky concorda que um novo período histórico estava surgindo e que era preciso dar-lhe um novo nome. O termo “pós-modernidade”, no entanto, sugeria uma ruptura com a modernidade quando, para Lipovetsky, o que estava nascendo era uma sociedade mais profundamente moderna do que a própria modernidade, caracterizada por um aprofundamento da economia de mercado; uma revolução tecnológica que não apenas alterava o mundo do trabalho, mas que também invadia e modificava o cotidiano; e uma autonomia individual muito maior do que aquela conquistada por seus idealizadores modernos. Acelerado, na década de 1980, pelos avanços da globalização e das tecnologias da informação – que enfraqueceram os estados nacionais e acentuaram ainda mais a autonomia do indivíduo na economia, na sociedade e na cultura –, esse processo de aprofundamento dos pilares modernos deu origem ao que Lipovetsky pensa que deva ser chamado de “hipermodernidade”. 

Essa nova sociedade, no entanto, não é “apenas” mais (ou muito mais) moderna do que a modernidade, pois os mesmos fatores que aceleraram o processo de aprofundamento do que era característico do mundo moderno também acentuaram, aponta Lipovetsky, a primazia do tempo presente surgida no pós-guerra pela constituição do que ele chamou de “sociedade-moda”. Ou seja, os avanços da globalização e das tecnologias da informação aceleraram também a dinâmica do tripé “efêmero, renovação e sedução”, fazendo com que o indivíduo contemporâneo se voltasse ainda mais para o presente do que no pós-guerra, em um misto de “angústia frente a um vazio existencial” e de “desejo de renovação constante junto às mudanças sociais”. Entretanto, na hipermodernidade, essa primazia do presente também convive com um retorno do futuro: não mais como o horizonte de esperança dos modernos, e sim como uma fonte de inquietações constantes, evidenciadas pelo fortalecimento do movimento ambientalista, pelo renascimento dos discursos neonacionalistas e étnico-religiosos frente ao avanço da globalização, pelos debates acirrados sobre previdência etc. Da confiança iluminista na razão como motor do progresso, Lipovetsky afirma que ficamos apenas com a confiança no progresso tecnológico, embora ele reconheça que a sociedade hipermoderna também preserva “um núcleo duro de valores e referenciais da modernidade liberal”, evidenciado pela ainda ampla presença de regimes democráticos ao redor do mundo bem como pela manutenção da ideia de direitos humanos.


*Gustavo Coelho é Bacharel, Licenciado e Mestre em Filosofia pela UFRGS e professor do Colégio Israelita Brasileiro.