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Envie sua pergunta para Mia Couto

Mia couto está de volta ao Fronteiras do Pensamento. O escritor moçambicano realiza sua conferência em Salvador, no dia 03/07. Se você não está em Salvador ou não pode ir ao evento presencial, o Fronteiras leva sua pergunta a Mia Couto através da iniciativa Pergunta Braskem. Envie seus questionamentos de qualquer parte do Brasil para o e-mail digital@fronteiras.com até segunda-feira (03) pela manhã. Uma pergunta será selecionada e feita ao escritor no palco diretamente de Salvador. A resposta será divulgada na quarta-feira (05), nos canais digitais do Fronteiras do Pensamento.

Os ingressos para a conferência de Mia Couto estão esgotados. Garanta a sua presença para as conferências da crítica cultural norte-americana Camille Paglia e da ativista moçambicana Graça Machel.

Confira a entrevista concedida por Mia Couto ao Jornal A tarde.

O senhor estará na Bahia, no início de julho, e sabe-se desde sempre de sua admiração por Jorge Amado. Em que medida este autor o influenciou em sua escrita?
Não creio que, no meu caso, Jorge Amado seja exatamente uma “influência”. O encontro com os seus livros foi um momento da minha adolescência. O escritor baiano teve uma enorme repercussão na geração que me antecedeu em Moçambique e em todos os outros países africanos de língua portuguesa. Ao lê-lo, naquela época, nós estávamo-nos descobrindo, estavam-nos lendo. Amado revelava um Brasil cheio de África e sugeria personagens e caminhos que legitimavam uma procura que também era a nossa: encontrar na língua do colonizador formas de demarcação, modos de afirmação da alteridade.

O senhor já teve oportunidade de conhecer o memorial de Jorge Amado, em Salvador? Que lugares aprecia na Bahia?
Estive em Ilhéus e em Salvador, mas nunca no memorial de Jorge Amado. Creio que nas duas cidades encontrei as paisagens que ele reinventa nos seus livros. Para mim, o que é mais rico não é o cenário recriado por ele, mas a riqueza e diversidade dos personagens. Todos eles, sendo brasileiros e baianos, podiam e podem existir em qualquer rua de Moçambique.

Temos acompanhado há alguns anos o grande sucesso feito por autores de Moçambique e Angola no Brasil. A que o senhor atribui o interesse por esses escritores e suas temáticas?
Foi um caminho difícil e levou o seu tempo. Lembro que, há uns trinta anos, pouco ou nada se conhecia. Mais grave do que isso: não havia senão numa pequena minoria o desejo de conhecer os africanos. Uma delegação de escritores africanos que em 1987 visitou o Brasil pela mão de Cremilda Medina de Araújo e encontrou essa enorme estranheza. Cremilda era pioneira na publicação de africanos por via de uma antologia chamada Sonha Mamana Africa. Havia uma outra editora, chamada Ática, que tinha uma coleção africana ao cuidado do professor Fernando Mourão. Essa coleção faliu quase à nascença. Mas depois, em um processo lento, graças ao trabalho abnegado de um conjunto de professoras e professoras universitárias (quase todas eram mulheres) começou no meio acadêmico um trabalho de divulgação. Essa semente foi aos poucos sendo disseminada. E houve, é preciso dizer, razões que são exteriores à própria literatura. O Brasil conhece hoje muito mais e muito melhor a África (ou as várias Áfricas). E isso aconteceu porque houve vontade política. Passou-se de uma proclamação vazia de proximidade a algo mais efetivo. E as editoras, finalmente, fizeram o resto. E hoje há uma relação saudável. Os autores africanos são procurados não tanto por serem “africanos”. Mas por serem escritores.

O tema do Fronteiras do Pensamento deste ano, Civilização–A sociedade e seus valores, parece refletir o momento especialmente perturbador que atravessamos em relação aos direitos humanos no planeta, com a eleição de Trump e a instabilidade política em vários países. Quais seriam os valores que pautam a civilização na contemporaneidade?
Eu acho que o mais importante é a tentação de buscar identidades que atuam como refúgio, de construir fortalezas contra a ameaça dos outros, esses que passaram de estranhos para a categoria de inimigos. Porque essa construção do “inimigo” a partir daquele que simplesmente desconhecemos é agora feita em nome da “civilização”, em nome da “modernidade”. Mais do que nunca é preciso dar resposta a esse apelo fundado no “invasor”, essa permanente fabricação do medo. O risco é que vença a ideia que estamos perante uma inevitável guerra entre dois campos civilizacionais.

Como o senhor vê o avanço crescente do racismo e do fascismo em todo o mundo?
Fico preocupado com o modo desavergonhado com que o racismo e o fascismo se apresentam hoje em dia. Apesar do esforço de uma linguagem mais educada, essas doenças nunca desapareceram de fato. Mas não creio que haja, no global, um “avanço”: essas manifestações sempre estiveram presentes, mais ou menos disfarçadamente. A tentação de discriminar e culpar o “outro” assume agora proporções mais alarmantes por causa da conjuntura global de crise. Penso que o racismo e o fascismo comportam-se como as doenças oportunistas: já estavam lá, mas não havia sintomas claros. Numa situação generalizada de medo, como a que vivemos hoje, há condições que favorecem a manipulação política. As pessoas votam apressadamente por um salvador, por alguém que venha“repor a ordem”. Estes tempos são o paraíso dos populistas. Creio também que estamos a viver a ressaca do “politicamente correto”. Pensávamos que havia menos racismo ou menos sexismo por causa de um nova representatividade de raça e de sexo. Acreditamos que houve mudanças sensíveis no modo de pensar da humanidade porque se passou o vocabulário a pente-fino. Esse maior cuidado em si mesmo não é mau. Mas o racismo e o sexismo não mudaram tanto como acreditamos. Continuamos a viver numa sociedade que produz desigualdade. Não basta um penteado novo. É preciso uma nova cabeça.

Muitos, teóricos inclusive, apagaram as divisões entre vida real e vida virtual. O senhor participa das redes sociais? Que pensa sobre as relações virtuais e a disseminação do ódio nessas redes?
Não participo das redes sociais. Vejo-as como um instrumento que serve nos dois sentidos. Num momento de falência de outras pontes de ligação, como já foram os partidos e os sindicatos, as redes sociais ocupam um lugar privilegiado na transmissão de mensagens de forças completamente antagônicas. O meu receio é a ausência de filtro, de distância crítica do receptor da mensagem. Amigos meus juram ser verdade porque “viram na internet”.

Teríamos trocado a magia do real pela “magia” dos meios tecnológicos?
A questão, a meu ver, é saber o que é exatamente o “real”. Ensinam-nos a ter uma visão muito estreita da realidade. Deixa-se de fora uma certa magia que, afinal, é imanente da realidade. Por isso se diz que há uma certa tendência literária chamada de “realismo mágico”. Quando, afinal, toda a literatura contém em doses diferentes a realidade e a magia. Os meios tecnológicos são o que são: aparelhos, engenhos, máquinas. Infelizmente, eles estão sendo vendidos de forma humanizada. Estamos a proceder a uma curiosa inversão: a humanizar a máquina e a mecanizar a pessoa humana. Já há robôs de companhia, pequenos aparelhos que substituem os animais de estimação. Pediremos um dia a um robô que nos abrace para nos salvar da solidão.

Em uma entrevista, o senhor disse que “ser uma pessoa feliz e autônoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você”. No entanto, há uma imposição da felicidade quase como sinônimo de caráter e saúde. Como o senhor encara essa felicidade como valor a que estamos submetidos?
Não me recordo em que contexto fiz essa afirmação. Creio ser necessário fazer aqui um reparo. A felicidade pode ser uma conquista pessoal, mas nasce do nosso encontro mais profundo com outras pessoas. E, isso, duvido que se alcance apenas com um toque numa tecla de um computador. A felicidade pede uma presença mais corpórea, produzindo uma relação mais do que uma ligação. Existe a tentação de confundir felicidade com bem-estar. E acreditar que esse bem-estar se resume a uma certa “química” nos nossos neurônios. Coisificar a felicidade é um modo de a poder vender. Não há tecnologia que seja capaz de fazer isso.

O senhor traçou, certa vez, um comparativo entre a leitura no Brasil e em Moçambique. Acredita que esta situação se manteve?
Lê-se pouco. Essa é a sensação mais imediata. Mas não sei como poderíamos medir isso. No caso específico de Moçambique, é evidente que o livro é um bem muito pouco acessível. Porque se produz pouco e circula pouco, em primeiro lugar. E depois, porque é muito caro. Não se pode esperar que a relação com a leitura mude espontaneamente. Há grandes variações em países que são vizinhos e que vivem as mesmas facilidades econômicas. Estive este ano na Alemanha, na Feira do Livro de Dresden, e fiquei abismado com a afluência de jovens. Só se pode explicar tanta gente e tão entusiasmada por uma atitude que nasce da escola. E que ganha tradições mesmo antes da escola.

O senhor é biólogo e mantém-se atento ativamente à preservação ambiental. Como vê a situação hoje em nosso planeta? O que pensa sobre o recuo recente dos americanos, caminhamos para o caos inexorável ou haverá uma mudança de rumo?
Não se trata apenas de “preservar”. Há que conservar áreas onde se encontram habitats e espécies em risco. Mas é preciso ir mais longe e deixar de jogar apenas à defesa. Trata-se de mudar radicalmente o tipo de economia e repensar a nossa relação com a chamada natureza. Mais do que seus administradores (bons ou maus, não sei quem nos atribuiu esta função diretiva), nós somos parte dela. Medidas para contenção dos excessos são urgentes. Mas não bastam. Porque não se trata apenas de corrigir. Trata-se de sacudir profundamente as bases de um sistema predador que olha o patrimônio natural como “recursos” e que vive da sua conversão em lucros financeiros.

Trabalha hoje em novo projeto literário? Que espaço a poesia ocupa hoje em sua vida?
Estou a terminar o terceiro volume de um romance que se pode dizer “histórico”, mas que só pode ser chamado assim porque procura desconstruir uma certa visão do passado do meu país. A poesia continua o centro da minha existência. Não é um gênero artístico. É a linguagem da vida.

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