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Envie sua pergunta para Thomas Piketty

Erudito e poderoso, Thomas Piketty faz suas palestras com uma paixão silenciosa, define o jornal britânico The Guardian. Piketty é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento, autor do best-seller O capital no século XXI, obra que é de fato bastante complexa a olhos fora do campo da economia.

Mas, qualquer um que viva no mundo em que vivemos pode compreender os argumentos sobre o sistema proposto no livro. Um de seus mais poderosos argumentos sobre os porquês da desigualdade seria a ascensão dos supermanagers, ou supergestores, pessoas que não produzem a riqueza, mas que recebem imensos rendimentos a partir dela.

Os supermanagers se lançam na competição do mercado com amplos rendimentos que aceleram além da própria economia e, assim, estão sempre fora de alcance. Dos lobos de Wall Street aos tecnocratas de Palo Alto, os supermanagers ganham seus supersalários, conclui Piketty, porque eles se especializaram em capacidades que pertencem a uma elite super-humana (hipermeritocracia), com um conhecimento que não está disponível para a população ordinária, ao menos não financeiramente falando. 

E por que devemos nos importar com o salário alheio, alguns perguntariam. Bom, segundo Piketty, ao menos, é porque o aumento da desigualdade foi, em grande medida, o resultado de um incremento sem precedentes da desigualdade salarial e do surgimento dos pacotes de remuneração extremamente generosos no pináculo da pirâmide - daquilo que o economista chama de "a ascensão dos supersalários".

Thomas Piketty sobe ao palco do Fronteiras do Pensamento São Paulo na próxima, quarta-feira (27). Envie sua pergunta para o economista francês através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 27. Piketty responderá a questão selecionada diretamente do evento. Divulgaremos sua resposta na quinta (28), em nossos canais digitais.

O francês é tema do artigo A SOCIEDADE DOS SUPERGESTORES, que esclarece os resultados das pesquisas de Piketty sobre desigualdade ao longo do último século, bem como suas políticas para reduzi-la. O artigo é parte da obra De Dentro Para Fora - Como uma geração de ativistas está injetando propósito nos negócios e reinventando o capitalismo (Arquipélago Editorial), do jornalista Alexandre Teixeira.

Piketty

A SOCIEDADE DOS SUPERGESTORES 

Imaginar como seria o mundo sem desigualdade é mais fácil do que parece - e menos animador. A população do planeta está próxima dos sete bilhões, e o PIB global é ligeiramente superior a 70 trilhões de caros. Logo, o PIB per capita mundial é quase exatamente de 10.000 euros.

Com um cálculo relativamente simples, o economista Thomas Piketty provou que, se a produção global e a renda que ela gera fossem divididas equanimemente, cada habitante da Terra teria direito a uma renda aproximada de 760 euros por mês. No final de novembro de 2014, esse montante equivaleria a exatos 2.390 reais mensais.

Na prática, "a desigualdade global varia de regiões em que a renda per capita é da ordem de 150-250 euros por mês (África subsaariana e Índia) a regiões onde ela é tão alta como 2.500-3.000 euros por mês (Europa Ocidental, América do Norte e Japão), ou seja, dez a 20 vezes maior. A média global, aproximadamente igual à chinesa, é 600-800 euros mensais".

Tal discrepância entre países ricos e "subdesenvolvidos" é histórica. Já foi muito maior. "Um processo global de convergência, em que países emergentes estão diminuindo a distância que os separa dos países desenvolvidos, parece bem em curso hoje, embora as desigualdades entre países ricos e pobres permaneçam.

“Não existe, tampouco, evidência de que tal processo de redução do atraso seja primariamente fruto de investimento dos países ricos nos pobres", escreve Piketty. "A rigor, o contrário é verdade: a experiência passada mostra que a promessa de um bom resultado é maior quando países pobres são capazes de investir neles mesmos."

A desigualdade é hoje um tema em evidência pelos desequilíbrios internos em economias centrais. Em O capital no século XXI, ele recua até a década de 1900 a 1910 para mostrar que, em todos os países da Europa, a concentração de capital era então muito mais extrema do que é hoje.

A parcela da riqueza daquelas nações nas mãos dos 10% mais ricos já chegou a 90%. Nas palavras de Piketty, não existia uma classe média, uma vez que os 40% no meio da pirâmide da renda eram quase tão pobres como os 50% que formavam sua base. "A vasta maioria das pessoas possuía virtualmente nada, enquanto a parte do leão dos ativos da sociedade pertencia a uma minoria", escreve o economista francês.

Essa épica sociedade da Belle Époque ilustra um dos dois modelos de alta desigualdade identificados por Picketty. Nesse caso, o da "sociedade hiperpatrimonialista" (ou sociedade de rentistas), na qual a riqueza familiar herdada é absolutamente decisiva.

O segundo modelo de alta desigualdade, este sim contemporâneo, é a "sociedade dos supergestores" ou a sociedade hipermeritocrática. "Em boa medida, passamos de uma sociedade de rentistas à sociedade de gestores, isto é, de uma sociedade na qual o 1% mais rico é dominado por rentistas (gente que tem capital bastante para viver do rendimento da sua riqueza) a uma sociedade na qual o topo da hierarquia econômica, incluindo o 1% mais rico, consiste principalmente em indivíduos muito bem pagos que vivem do rendimento de seu trabalho", escreve Piketty.

Foi nos Estados Unidos que tal subclasse dos "supergestores" emergiu primeiramente, revertendo uma tendência histórica. A desigualdade atingira seu ponto mais baixo na América entre 1950 e 1980. Os 10% mais ricos detinham, então, 30% a 35% da renda nacional - ou seja, aproximadamente o mesmo nível da França de hoje.

Desde 1980, contudo, a desigualdade de renda tem explodido nos Estados Unidos. Aproximadamente 15 pontos percentuais da renda nacional americana foram tirados dos 90% mais pobres para os 10% mais ricos de lá para cá.

As pesquisas de Piketty permitem sustentar que o aumento da desigualdade foi em grande medida o resultado de um incremento sem precedentes da desigualdade salarial e do surgimento dos pacotes de remuneração extremamente generosos no pináculo da pirâmide - daquilo que o economista francês chama de "a ascensão dos supersalários".

Dito de outra maneira, "do advento dos `supergerentes' [...] de grandes firmas, que têm conseguido obter pacotes de remuneração extremamente altos, sem precedentes históricos, por seu trabalho".

Pelas contas de Piketty, a absoluta maioria (de 60% a 70%) do 0,1% mais rico entre os americanos consiste de altos executivos. Financistas, sejam gestores de bancos ou operadores de mercado, representam 20% desse grupo de elite, embora o setor responda por 10% do PIB.

Segundo ele, as recompensas extremamente generosas oferecidas aos altos executivos podem ser urna força determinante para o agravamento da deterioração já em curso na distribuição da renda: "Se os indivíduos mais bem pagos fixam seus próprios salários (ao menos em alguma medida), o resultado pode ser uma desigualdade cada vez maior". Daí a necessidade de controlá-los.


Alexandre Teixeira  é jornalista, trabalhou em algumas das principais redações do país, sempre na área econômica e de negócios. Foi repórter do Jornal da Tarde e do Valor Econômico, além de editor das revistas IstoÉ Dinheiro e Época Negócios. É autor de Felicidade S.A., publicado em 2012 pela Arquipélago Editorial.