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Francis Fukuyama responde: como abrir as fronteiras do Brasil em tempos de fechamento global?

Fukuyama no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Fukuyama no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

A falta de lideranças políticas e uma pauta clara de reformas ameaçam o salto modernizador do Estado brasileiro, afirmou Francis Fukuyama, no Fronteiras do Pensamento São Paulo desta quarta-feira (29).

Na conferência A construção do Estado e a próxima agenda para a América Latina, o cientista político apontou semelhanças entre o Brasil contemporâneo e os Estados Unidos no final do século 18, já que o crescimento econômico, o surgimento de uma nova classe média e a revolta contra a corrupção estão na base da virada que derrotou o clientelismo e tornou o Estado americano impessoal a partir de 1880.

Fukuyama apontou a mobilização social e a atuação independente do Poder Judiciário brasileiro – que vem condenando políticos que praticaram atos ilícitos de maneira "muito positiva" – como ingredientes necessários para um mesmo salto modernizador no país. Porém, ainda faltam ao Brasil “lideranças muito fortes, capazes de reunir essa coalizão e gerar poder político necessário para promover reformas" e também “uma ideia clara de para onde [a sociedade] quer ir, além da oposição à corrupção e ao antigo sistema. Isso precisa ser especificado", disse.

Após sua conferência, Francis Fukuyama respondeu as perguntas do público. Dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras através do e-mail digital@fronteiras.com. Desta vez, a questão escolhida veio de Marco Antunes. Confira abaixo:

Em um ambiente de fechamento de fronteiras em países europeus e nos Estados Unidos, qual o caminho que o Brasil deve assumir? Como podemos reabrir nossas fronteiras justamente em um contexto como este?
Francis Fukuyama:
Bem, este é um momento muito delicado da política mundial. Desde a I Guerra Mundial, os EUA têm liderado o mundo e tentado criar uma economia aberta, onde as fronteiras teriam cada vez menos importância. Os fundadores da comunidade europeia, obviamente, tinham uma visão muito parecida.

É por isso que a ameaça do Donald Trump e do populismo nos EUA é tão grande, porque quando a economia liberal líder do mundo vai contra essa abertura, e eu acho que há um nacionalismo econômico por aí, as pessoas ficam muito empolgadas em imitar. Mas, cada país é diferente, cada país tem sua história.

No Brasil, a população precisa refletir sobre o legado de ter sido uma economia fechada durante tantos anos, durante tantas décadas, e se essa era a política econômica correta para incentivar a modernização e a conexão com o resto do mundo. Se olharmos em retrospectiva este histórico, veremos que é algo problemático.

Outra coisa a se fazer é observar exemplos internacionais. Como a China e a Índia, durante as duas ou três últimas décadas, tornaram-se os países que mais cresceram, com taxas espetaculares? Não foi através do fechamento contra a concorrência internacional, não. Foi através da manutenção de uma conexão com a economia global.

Fukuyama respondeu outras perguntas no Teatro Cetip. Confira abaixo as respostas do cientista político sobre o futuro da comunidade europeia e os desafios ao Estado Moderno norte-americano:

Tradicionalmente, vemos os EUA como exemplo não apenas de sociedade democrática, mas também como exemplo de um Estado Moderno, com marcas de impessoalidade, separação entre público e privado etc. No entanto, esta mesma nação parece não ser capaz de se proteger da instabilidade e do populismo, com Donald Trump. O que, num estável e democrático, responde pelo elemento populista Trump?
Francis Fukuyama:
Isso é algo que está no meu último livro, Political order and political decay, o declínio do Estado Moderno norte-americano nas duas últimas gerações. Chegamos a um pico de modernidade durante a década de 1950, 1960. Desde então, estamos retrocedendo. Isso não está acontecendo apenas nos EUA. É muito difícil manter um Estado Moderno, porque as elites, em todos os lugares, querem usar o seu poder, o seu privilégio, para capturar o Estado e utilizá-lo em seu próprio benefício.

Isso tem a ver com o fenômeno Trump. Vocês devem conhecer o poder dos lobistas. Há estimativas de que esta eleição presidencial vai custar três ou quatro bilhões de dólares. Existem oligarcas individuais que podem mudar o resultado da eleição, porque eles têm o recurso necessário para injetar nos partidos democráticos ou republicanos.

Eu chamo esse fenômeno de repatrimonialização, que quer dizer o seguinte: o sistema político está sendo capturado por estas elites, existe uma percepção por grande parte do público norte-americano que isso está acontecendo, de que isso não é democrático, e que isso não é justo. Um dos principais apelos do Trump é “eu sou tão rico, que ninguém consegue me comprar". Isso é verdade.

Diferentemente dos outros candidatos, Trump não precisa perguntar aos doadores que favores precisará fazer em troca por eles. Ele está livre disso e as pessoas admiram isso. Ele é um homem de negócios que está livre dessa corrupção tão clara que observamos em outras partes do sistema político norte-americano.

Qual o futuro do Estado Moderno? O desenho do Estado ainda será baseado no estado-nação ou o exemplo europeu segue de pé, com a tentativa de um Estado transnacional ou a saída da Inglaterra, o Brexit, significa um impasse para o modelo transnacional?
Francis Fukuyama:
Nunca acreditei que o projeto da comunidade europeia levaria a um Estado transnacional de fato. Historicamente, a única forma que conseguimos ter entidades políticas unificadas foi através da violência. Se observarmos a história da França, Inglaterra, Alemanha, a unificação não teria acontecido por consenso. Se cada pequena província da Itália tivesse que votar para que a Itália fosse formada, não haveria Itália.

Esse é o problema da comunidade europeia. Seu centro é muito fraco, seus 27 membros precisam concordar com tudo. É por isso que eles estão paralisados em termos de políticas de imigração, a crise do euro, todos os grandes desafios que eles têm que enfrentar.

Também acho que os fundadores da comunidade europeia tinham uma visão muito ingênua de que a integração econômica levaria à integração política e cultural. Isso ignora a história, as identidades nacionais precisariam ser moldadas por líderes políticos e isso não aconteceu na comunidade europeia. Então, sempre foi o caso dos italianos serem mais leais à Itália, os holandeses à Holanda do que qualquer membro ser mais leal a este elemento chamado Europa. Em termos emocionais, a Europa não causava essa sensação positiva que os estados-nação antigos provocavam.

Então, acho que nunca chegamos a esta unidade transnacional de fato e agora eles estão passando por uma crise muito séria. Podemos ter um efeito dominó, há uma eleição presidencial na França ano que vem. Se o Le Pen e a Frente Nacional tiverem bons resultados, talvez haja um referendo na França para sair da comunidade europeia. Daí, o projeto europeu vai se desmantelar.